Dentro das redes do fascismo: duas semanas entre os grupos de WhatsApp de eleitores do Bolsonaro

(Sebástian Valdomir, in Resistir, 23/10/2018)

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– Ingressar nos grupos de WhatsApp e Telegram de Bolsonaro não é difícil. Sobretudo nos que foram ativados para o segundo turno e que tiveram como eixo a agitação digital nos estados e cidades do Nordeste do país, onde o candidato perdeu contra Fernando Haddad no primeiro turno.


Faltando poucos dias para o segundo turno das eleições no Brasil, foram conhecidos alguns detalhes da estratégia e funcionamento dos grupos de mensagens digitais da campanha de Jair Bolsonaro. O tema já vinha sendo abordado por analistas políticos e comunicacionais como uma peça relevante da sua campanha, mas sem maiores repercussões. Na semana passada, o The New York Times publicou uma coluna sobre o funcionamento da divulgação massiva de conteúdos falsos por grupos de mensagens, e finalmente, na quinta-feira (18/10), o diário Folha de São Paulo deu cobertura à conexão entre as empresas e o financiamento da estratégia de divulgação de notícias falsas contra o adversário de Bolsonaro, o petista Fernando Haddad.

Chamar a atenção sobre esse tema agora não é menos importante, mas a reação da sociedade e da Justiça sobre o fato em si acontece tarde demais, sobretudo porque se trata de uma estratégia que vem sendo implementada há pelo menos três anos.

Ingressar nos grupos de WhatsApp e Telegram de Bolsonaro não é difícil. Sobretudo nos que foram ativados para o segundo turno e que tiveram como eixo a agitação digital nos estados e cidades do Nordeste do país, onde o candidato perdeu contra Fernando Haddad no primeiro turno.

Um dos grupos onde entrei no WhatsApp foi criado em janeiro de 2017, ou seja, um ano e meio antes do início da campanha. Outro grupo, desta vez no Telegram, teve uma média de 8,4 mil mensagens diárias, com 3,5 mil membros estáveis. A partir dos resultados do primeiro turno, no dia 7 de outubro, quando se confirmou que o Nordeste foi a região onde mais houve resistência a Bolsonaro, foi possível monitorar pelo menos 26 grupos de WhatsApp, atendendo diferentes estados e pontos urbanos dessa região. Como o WhatsApp tem um limite relativamente pequeno de integrantes por grupo, os ativistas os segmentaram até gerar centenas de novos grupos. Ademais, passaram a empregar o Telegram, que permite armar mega grupos com milhares de usuários.

É importante entender que a etapa de rápida massificação da estratégia de mensagens de Bolsonaro está bastante adiantada, em comparação com a implementação da estratégia. Tudo indica que o início do trabalho de geração de conteúdos deveria ser simultâneo ao das mobilizações de 2015, seguindo paralelamente o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, as investigações da Operação Lava Jato, a greve dos caminhoneiros, entre outros acontecimentos.

Ou seja, primeiro houve um aproveitamento dos grupos de mensagens teoricamente “não políticos”, mas que estavam fortemente ativados em demandas ou campanhas de mobilização contra o governo, para transmitir um discurso de insatisfação generalizada com a política. Uma vez instalado o processo eleitoral, a “migração” desses grupos “não políticos” a grupos de apoio a Bolsonaro foi quase instantânea.

Ilustração de Ramiro Alonso.A estratégia rendeu bons resultados. Após o ataque que o candidato sofreu em Juiz de Fora, ele não participou mais em atividades urbanas. Se considera, também que ele quase não teve presença no horário eleitoral na televisão aberta. Comparando o seu rendimento no primeiro turno ao de Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que tinha o maior tempo em minutos do horário eleitoral e ficou com pouco mais de 4% dos votos, o contraste não pode ser mais chocante. A decisão de não utilizar a mediação dos canais tradicionais para transmitir sua mensagem gerou inúmeros benefícios ao candidato do Partido Social Liberal (PSL). Mas para que isso fosse possível, esses dispositivos tiveram que ser desenvolvidos com muito tempo de antecedência, até o momento específico das eleições.

O pior é que seja fake? 

O noticiário do Brasil nos últimos dias conta como esses canais foram utilizados para disseminar conteúdos falsos e fake news . Entretanto, o maior problema não é esse. Em geral, a esquerda – e também os especialistas de comunicação política, os acadêmicos e os jornalistas – não têm muita certeza sobre onde radica a questão mais grave. Uma análise do funcionamento dos diferentes tipos de mensagens pode dar algumas pistas, mas é preciso ter clareza sobre o fato de que isso somente não proporciona maior informação sobre o que está por trás da estrutura de emissores, receptores e mensagens.

Os grupos vistos nas últimas semanas são sobretudo espaços de agitação e difusão de memes, vídeos variados (que vão desde os tópicos clássicos do “marxismo cultural” à Escola de Frankfurt, da psicanálise até conselhos sobre “sobrevivência urbana”) e propagação de consignas. Uma pequena parte das mensagens se referem a postagens mais “clássicas”, com comentários ou análises de uma matéria, da campanha em geral, das propostas dos candidatos, etc. Alguns grupos especializados em debates evitam os vídeos e as imagens e se centram em polir frases para os diferentes temas da campanha eleitoral, e em como rebater argumentos de outras pessoas.

Entre as centenas de mensagens diárias, podem ser identificados padrões de organização bastante simples, assim como as tarefas que cumprem alguns usuários que deixam de ser simples aderentes. Com relação ao primeiro, os grupos normalmente amplificam as mensagens do tipo “missão do dia”, que indicam alguma ação digital concreta para realizar de forma bastante simples e automática, depois que a mensagem chega. Por exemplo, uma delas consistia em entrar no site do Senado e clicar na opção de “plebiscitar a revogação do Estatuto de Desarmamento”. O resultado, poucas horas depois, foi meio milhão de votos pela opção “sim”. E dessa forma, muitas outras “missões” foram realizadas, como reenviar vídeos aos contatos particulares, intervir em discussões no Twitter ou no Facebook, hostilizar algum analista “do outro lado”.

Ilustração de Ramiro Alonso.As mensagens geralmente são muito simples, e tratam de temas simples. Entretanto, o conteúdo não é o importante, e sim a rapidez com a que geram respostas aos temas do dia, e nos momentos exatos. Outro aspecto importante é que quase nenhum caso tem a ver com construir argumentos para uma discussão racional, e sim defender a ênfase na repetição, na instantaneidade e nas respostas pré-elaboradas, o que indica uma lógica instrumental, mas não comunicativa.

O fato em si termina constituindo um fato comunicativo, mas não a lógica por trás do funcionamento destes dispositivos de resposta rápida. O mais correto não é aquilo que é mais divulgado ou aceito. Mensagens absurdas – quando não diretamente grotescas – dão lugar a múltiplas respostas e reações que preparam os usuários para eventuais interações quando são reenviadas a outros grupos que funcionam na periferia da política (grupos familiares, de amigos, no trabalho, etc).

Não existe possibilidade alguma de estabelecer um canal de diálogo por fora de toda essa racionalidade instrumental. Muitos vídeos começam falando em “reconhecer o direito de cada um eleger seu candidato”, para logo dar lugar a uma sequência de frases sobre que “optar por Haddad é dar o voto a um palhaço que defende bandidos e, por isso, quem o defende é outro bandido”, ou gay, ou puta, ou cínico, nos tons mais depreciativos e insultantes possíveis. O interesse maior não é convencer o outro, e sim derrotá-los. Tudo isso em 15 segundos de tensão e aceleração total.

A questão não é discutir o que é verdadeiro e o que é falso, e sim definir entre a aceitação e o ódio. O importante é que a máquina funcione e não tanto o que ela vai produzir se funcionar.

Embora Bolsonaro não possa se jactar de sua produtividade ao longo de sua carreira como parlamentar, em junho de 2017 ele apresentou dois projetos relacionados ao uso do WhatsApp. Um deles era uma emenda constitucional que visava incluir um inciso ao artigo 102, indicando que o uso dos serviços de mensagens só poderia ser limitado por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), e não por juízes de primeira ou segunda instância.

Frear um dispositivo tecnológico pontual não resolverá o problema, porque, como se sabe, existem vários outros para cumprir a mesma função. O estudo das mensagens analisadas pelo The New York Times estimava que 56% dos conteúdos mais compartilhados eram falsos. Colocar ênfase em um conteúdo particular, seja ele falso ou não, pouco ajudará a modificar a essência do problema.

Ilustração de Ramiro Alonso.Houve fraude, há fraude, haverá fraude 

Chama a atenção como os apoiadores e membros do “movimento” concordam com a ideia de que todo o sistema político, o conjunto dos setores políticos e diferentes instituições – incluindo o TSE – estão contra Bolsonaro. Engana-se quem pensa que há críticas somente aos chamados “esquerdopatas” – esquerdistas ligados Partido dos Trabalhadores (PT), ao Partido Comunista ou a Lula, no Uruguai, o termo que se assemelha é o de “focas”, com o qual se procura ridiculizar os militantes da Frente Ampla –, pois também se vê ataques a figuras de partidos tradicionais da centro-direita brasileira, como Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Outros focos de crítica são a cobertura que fazem de Bolsonaro nos meios de imprensa escrita (sobretudo o diário Folha de São Paulo), a Rede Globo de televisão e a Igreja Católica.

Este leque termina impregnando tudo com um sentido épico, criando a sensação de que se trata de uma heroica rebelião contra o status quo . A interação não deixa de ser um trânsito entre a tragédia, baixarias repugnantes e caricaturas de debates extremamente sérios. Armas, aborto, anticomunismo fervente, o reconhecimento de direitos para pessoas LGBT, tudo isso passa pelo filtro de um sentido de urgência, de um “não dá mais para aguentar isso”, eloquente mas não necessariamente verossímil.

Mais fingido ainda é o faz de conta para aceitar como verdadeira a teoria de que “se Bolsonaro não ganhar será somente por fraude do PT”, e não pela unificação de todo um espectro democrático para frear o fascismo. O Brasil parece ser um país alegre demais para aceitar uma polarização desse nível, mas está expressando, desta forma, que se não acontecer uma vitória de Bolsonaro, o caos será a tônica do dia seguinte.

Nos diferentes grupos, a reação às matérias mencionadas acima foi de reforçar a antologia: o bolsonarismo inquietando os meios mais influentes do mundo. Definitivamente, terminou reforçando o mecanismo de “todos contra nós” e a ideia de que, com os celulares como única ferramenta, “o povo está bancando a campanha do capitão”.

O resultado do segundo turno não alterará o fundamental dessas vias comunicacionais de uma porção significativa da sociedade brasileira. Tampouco alterará a composição do Congresso. Depois de tudo, as corporações mais importantes da estrutura econômica e social do Brasil reforçaram sua presença no Parlamento. As bancadas religiosas, militares, de ex-policiais e do agronegócio poderão impor sua agenda ao próximo governo sem grandes dificuldades. Projetos como o regime penal para menores infratores, a liberação do porte de armas, o fim de demarcação de terras para comunidades indígenas, negras e pequenos camponeses, poderão ser impostos como moeda de troca entre o próximo Executivo e o Congresso.

Nos grupos, esses temas são abordados da forma mais superficial possível, e inclusive se nota uma marginalidade de temas econômicos e trabalhistas entre milhares de mensagens cruzadas. Ninguém fala da crise econômica ou do corte do gasto para políticas sociais, ou da reforma trabalhista implantada pelo governo de Michel Temer.

Talvez seja cedo demais para afirmar que as redes sociais mudaram a política para sempre, tal como disse recentemente José Roberto de Toledo, um jornalista da Revista Piauí, quando disse que “o WhatsApp é o cemitério da democracia”. O que parece estar claro é que tentar conter o impacto agora não tem muito sentido. Inclusive, falar deste tema neste momento da campanha pode ter um efeito casca de banana para o que resta do sistema político democrático.

Aliás, como se fosse uma macabra saudação de boas-vindas ao mundo do bolsonarismo, outros temas muito importantes que foram denunciados nesta semana ficaram em segundo plano, como o fato publicado pela revistaCarta Capital há duas semanas, sobre a espionagem realizada por um setor da inteligência do Exército contra a campanha de Fernando Haddad.

Alguns exemplos de mensagens dos grupos de Bolsonaro:

“Começou a repressão no WhatsApp! Começou a censura geral na internet, Flávio Bolsonaro está proibido de utilizar a rede! Seu número 552199548-9280 está proibido de se registrar no WhatsApp. Divulguem”.

“É assim, gente, eles estão apelando a tudo. Meu Deus, isso é alarmante. Regime totalitário é o que já vivemos!”.

“Os comunistas petistas e psolistas revelam sua vocação para a censura e o cerceamento das liberdades individuais”.

“Fascismo mata? Sim. Racismo mata? Sim. Machismo mata? Sim. Homofobia mata? Sim. Xenofobia mata? Sim. Mas a sua ignorância disfarçada de pseudo intelectualidade histórica como justificativa para votar no partido de bandidos mata muito mais”.

“Solicitar o bloqueio do WhatsApp foi a maior estupidez eleitoral da história política brasileira. #VaiSerBurroAssimNaVenezuela”.

“Amigos, precisamos de gente neste grupo para recrutar novos bolsonaristas @haddadvsbolsonaro”.

“Vídeo DENÚNCIA GRAVÍSSIMA!! PT planeja armar um atentado contra Haddad na véspera das eleições. Este é o novo golpe do PT. https://deusacimadetodos.com/”.

“Para interagir com pessoas na busca de conhecimentos e habilidades de sobrevivência urbana e rural, com a chegada do possível CAOS se a ESQUERDA ganhar a eleição de forma fraudulenta, ingressar ao grupo”.

“Grupo de WhatsApp para denúncias: (43) 99644-9099. Envie vídeos e fotos de abusos políticos em sua paróquia! – Reenviem este vídeo para que todas as pessoas que forem à missa pelo Dia de Nossa Senhora da Aparecida denunciem os padres e bispos que fizerem campanha para o PT”.

“Atenção, católicos, denunciem padres que usem a maquinária da Igreja para falar de política. Filmar o fato é importante para realizar a denúncia”.

“Quando você pensa que o PT já não tem mais nada o que roubar, eles vão e roubam as cores da campanha do Bolsonaro”.

“Feliz Dia da Criança, especialmente àquelas que vão nascer. Aqui nós não abortamos o futuro de uma nação”.

“Será que Trump virá à posse do Bolsonaro?”.

“Hoje eu acabei (com argumentos) com um colega que disse que Bolsonaro era racista. Ele se baseou naquela entrevista no CQC, respondendo a pergunta capciosa da Preta Gil. Argumentei que Bolsonaro pediu a gravação original para provar que o programa havia manipulado a ordem das respostas. Que Deus nos abençoe nesta luta que enfrentamos”.

“Patriotas! Vamos a garantir um governo anticomunista em 2019. No dia da eleição, vote e permaneça próximo ao local de votação até a difusão dos resultados. Estejam preparados para ter que parar indefinidamente o país, todas as 5570 cidades. Bolsonaro só não será o vencedor destas eleições se houver fraude. Resistência Patriótica Brasileira. Deus, Família e Pátria com Ordem e Progresso”.

“O inferno está diante dos seus olhos: LU(la)CI(ro)FER(nando). E vai reinar sobre nós de você permitir”.

“Querem instituir o Dia da Marielle. Se Bolsonaro tivesse morrido, nós também deveríamos exigir o Dia do Bolsonaro. Ele sim merece, ela não. Só por ser negra, pobre e da favela. Pobre não, era vereadora e ganhava bem”.

“Haddad tem que entender que o Brasil quer o Bolsonaro e que nada do que ele faça vai mudar isso. Só culpa as redes sociais, sendo que por trás das redes sociais existe uma pessoa, um eleitor, um ser humano querendo mudanças. Meu sonho é encontrar o Haddad na minha frente…”.


Fonte aqui

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