Sob o signo do politicamente correcto

(António Guerreiro, in Público, 19/10/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

O número mais recente da revista italiana Micromega, dirigida por Paolo Flores d’Arcais, é um manifesto colectivo “contro il politicamente correto” (assim reza o título), designado pelo director, no artigo de apresentação, como um “ópio da esquerda”. Flores d’Arcais é um intelectual italiano que iniciou a sua actividade política num movimento juvenil comunista e, depois de ter passado por várias estações de acolhimento ao sabor das contingências e metamorfoses da política italiana, situa-se actualmente num lugar ideológico incerto. Este número da Micromega, revista que nasceu ao serviço de uma esquerda rebelde em relação a ortodoxias, conta com a colaboração de nomes importantes, tais como a filósofa francesa feminista Élisabeth Badinter e a escritora italiana Ginevra Bompiani.

A fragilidade em que se encontra o discurso de esquerda, desde há cerca de três décadas, mede-se pela sua incapacidade em contar histórias convincentes, em revigorar um “imaginário”. Daí que ele se tenha tornado literalmente conservador: a sua terminologia e as suas lutas exercem-se, quase sempre, em nome da conservação do que foi outrora adquirido.

mmPelo contrário, a direita (securitária, neoliberal, muitas vezes xenófoba), conseguiu difundir um conjunto relativamente coerente de histórias, de imagens, de estatísticas, de slogans e de medos que colonizaram até muitos dirigentes de partidos políticos de esquerda, como é visível em toda a Europa.

A questão do politicamente correcto tornou-se uma matéria que alimenta com eficácia o poder de cenarização da direita. Na verdade, está montada uma cenografia (a que a revista Micromega decidiu dar o seu aval, considerando que ela traduz uma realidade a rejeitar) que cria uma equivalência exclusiva entre o discurso de esquerda — pelo menos, aquele que é mais audível nos tempos que correm — e as incidências normativas do politicamente correcto.

Esta identificação, que tem uma parte legítima e outra parte que é a criação de um fantasma, deixou a esquerda armadilhada, na medida em que não consegue desembaraçar-se de uma objectivação negativa a que ela não consegue responder de maneira simétrica. Isto é: nomear alguém como politicamente correcto é sempre, em maior ou menor grau, proceder a uma acusação. Ninguém se define a si próprio, orgulhosamente, politicamente correcto porque isso já é codificar e diminuir a sua correcção.

Em contrapartida, já é possível que alguém se assuma politicamente incorrecto, tirando benefícios dessa afirmação. Se alguém diz “sou politicamente correcto”, estas palavras são sempre entendidas como um distanciamento irónico; muito mais frequente é lermos ou ouvirmos dizer com jactância, como uma declaração presunçosa de rebeldia: “sou politicamente incorrecto”.

E foi assim que chegámos a uma cenarização, onde se desenrola uma história que a direita conta com muito proveito e que a esquerda parece não ter capacidade de desmontar: uma história que fala de censura, de exasperado moralismo, de policiamento, de fixação de um léxico normativo, de restrições ao trabalho teórico e artístico. Em suma: a direita encontrou uma maneira de se apropriar do património histórico da esquerda e a esquerda deixou-se empurrar para uma zona que foi habitação privilegiada da direita.

Esta história tem, portanto, a eficácia que lhe é conferida por um ingrediente narrativo muito sedutor: a inversão de papéis. Mas ela mostra também outra coisa: a existência de uma camada discursiva que permite retocar as ideias com cores que as tornam comuns e incontestáveis.

Ainda há poucos dias (antes da remodelação ministerial), António Costa falava dos seus ministros como “activos” importantes da governação. “Activos”? Como é que o vocabulário e as metáforas de um primeiro-ministro, por mais que a eloquência e a sofisticação discursiva não sejam o seu forte, ficam condicionados por esta grelha codificada da novilíngua financeira e empresarial? Como é que ele não percebe que há nestas palavras uma mentira que não lhe pode ser autorizada porque é um linguajar ideológico que restringe ou até evacua a política como desejo e todas as aspirações que devemos exigir dela?

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3 pensamentos sobre “Sob o signo do politicamente correcto

  1. BOM ARTIGO- E COMO SEMPRE ESTE É UM GRANDE E PLURALISTA ESPAÇO DE IDEIAS E DIFERENÇAS.
    “No País, perdeu um bocado o sentido ser de esquerda ou ser de direita. Acho que se calhar tem mais sentido ser honesto” Maria José Morgado, procuradora distrital da comarca de Lisboa.

    MJM, ESTÁ PRÓXIMA DA VERDADE, POIS, QUANDO “ÓLHO” PARA AQUELES DEBATES DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA, APETECE-ME TER ASAS E VOAR E IR PARA MARTE.
    NÃO SE PERCEBE QUEM SÃO UNS E QUAIS SÃO OUTROS. OS SORRISOS IRÓNICOS, OS NAMORICOS COM OS PARCEIROS DO LADO, A BANALIZAÇÃO DA PALAVRA. FAZEM-ME TER SAUDADES DO SILÊNCIO, O SILÊNCIO DO ESCURO E DA INÉRCIA… DA FALTA DE ESPERANÇA.
    PARABÉNS À ESTÁTUA “COM SAL”.

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  2. “…!?´´´´———-(…)???? …!!!!“““/////\\\\\)”
    (Luís Marques Mendes, no Jornal da Noite, SIC, todos os domingos)

    Há uma injustiça de que é vítima todas as semanas o
    comentador Marques Mendes que eu gostaria de
    reparar: as suas palavras proferidas no laboratório
    televisivo das 20h de domingo são largamente
    citadas nos jornais do dia seguinte, mas o mais
    importante nunca é o que ele disse por palavras, mas
    antes a vivacidade espiritual da prosódia: as
    articulações não sintácticas, o staccato do seu
    débito verbal, o expressionismo das acentuações, os
    altos e baixos, as mudanças de tom, as habilidades
    miméticas que ora nos fazem pensar numa mosca
    lasciva, ora introduzem o tom grave do orador nos
    grandes momentos da vida, a gestualidade enfática.
    O expressionismo de Marques Mendes é uma poesia
    que está toda na prosódia e que só poderia ser
    citada por meio de sinais de acentuação, se
    houvesse, como há para a música, um código para a
    transcrição prosódica. O comentário político tornase assim um exercício de elevado teor artístico, entre
    o livro sobre nada de Flaubert e a “nada-logia” de
    Balzac, isto é, a sublime“rienologie” que este escritor
    viu no jornalismo do seu tempo.

    Fonte: P. (Ipsilon), 19.10.2018, p. 2.

    [Mais giro e com maior e merecido destaque, acho.]

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