Bolsonaro não é o candidato contra a elite

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 04/10/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Sobre as razões políticas para a possibilidade de Bolsonaro vencer, no deserto político que se instalou na direita brasileira, escreverei na edição semanal do Expresso. Aqui, quero apenas desmentir esta fantasia: que Jair Bolsonaro é um representante da fúria popular contra a elite. É fácil acreditar nessa ideia simples de que a força de Bolsonaro resulta de um povo pobre e desesperado, disposto a apoiar uma figura grotesca por estar cansado da elite. Essa é parte da sua retórica (a outra é contra os bandidos), é essa a retórica dos seus apoiantes. Mas ela choca com os números. Segundo as sondagens, Bolsonaro tem 40% de apoio entre os brasileiros mais ricos, 38% de apoio entre quem tem um curso superior e 37% de apoio no sul. Tudo acima da sua média. Ou seja, Bolsonaro tem um forte apoio na elite brasileira. Muito mais do que entre os pobres.

Entre quem tem mais de 10 salários mínimos, os índices de rejeição de Fernando Haddad, o candidato do PT, chegam aos 57%. No mesmo grupo, Bolsonaro tem um índice de rejeição de 37%. Entre os eleitores com menos de dois salários mínimos a posição inverte-se: Bolsonaro tem uma rejeição de 48% e Haddad fica-se pelos 20%. Os mais pobres não odeiam o PT, odeiam Bolsonaro. Porque sabem que ele representa uma revanche política e social. “Se o eleitorado fosse composto apenas por homens com mais de 5 salários mínimos, Bolsonaro seria eleito na primeira volta, com mais de 50% dos votos. São as mulheres mais pobres que impedem isso (90% não votam nele)”, escreveu o diretor do Instituo Datafolha, Mário Paulino. Na realidade, entre os mais pobres, Haddad rivaliza com Bolsonaro na primeira volta e vence-o na segunda.

Entre quem tem mais de 10 salários mínimos os índices de rejeição de Fernando Haddad, candidato do PT, chegam aos 57%. No mesmo grupo, Bolsonaro tem um índice de rejeição de 37%. Entre os eleitores com menos de dois salários mínimos, a posição inverte-se: Bolsonaro tem uma rejeição de 48% e Haddad fica-se pelos 20%

Foi à direita tradicional, e não ao eleitorado do PT, que Bolsonaro foi buscar o voto. Cito de novo a Datafolha: “Bolsonaro invadiu o terreno tradicional do PSDB, que é a classe média, média alta, com maior escolaridade.” Não é difícil perceber porquê. Na sua ânsia de chegar ao poder, o PSDB, aliado aos oportunistas do PMDB, fez cair (inconstitucionalmente) o governo de Dilma Rousseff e colou-se a um governo fantoche, recheado de corruptos e com a mais baixa popularidade da história do Brasil. Assim, Jair Bolsonaro ficou sozinho no terreiro, agregando todo o voto anti-PT e anti-Temer.

Numa entrevista que fiz a Gregório Duvivier, o humorista da Porta dos Fundos expôs a sua tese sobre a irritação da classe média com o PT: ela teve uma perda relativa de estatuto porque viu os ricos ficarem mais ricos e mais distantes e milhões de miseráveis a saírem da miséria e aproximarem-se, enquanto ela ficava no mesmo lugar. Viu os pobres chegarem às universidades, as empregadas domésticas tornarem-se mais caras, o seu estatuto social degradar-se no meio de um novo exército de remediados. Não sei se é verdade, mas se a isto juntarmos a crise económica, os casos de corrupção e o tratamento político e seletivo que deles fez a justiça e os media, temos o cenário perfeito para uma candidatura como a de Bolsonaro. Claro que é impossível vencer umas eleições no Brasil apenas com a classe média ressentida. Mas é nelas que movimentos de recorte fascista habitualmente ganham fôlego.

Refiro-me à classe média mas é importante perceber que também os mais ricos estão, por falta de alternativa viável à direita, com Bolsonaro. Não seria o seu candidato natural, será o seu candidato de recurso. Porque para a elite económica de um país que tem na escravidão o seu principal traço identitário, mais vale um fascista do que um socialista moderado (apesar da propaganda, é isso mesmo que Fernando Haddad é). O engano é pensar que a democracia é o que mais interessa à elite brasileira. Não é, nunca foi. O que mais lhe interessa é a distribuição do rendimento e do sacrifício. E em tempo de vacas magras, sabem bem que Bolsonaro não chega a ser, para eles, um risco.

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