Altos cargos e pequenos homens

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 26/08/2018)

soromenho

(O Dr. Soromenho põe o dedo na ferida: quem é apoiante deste Governo e das políticas de recuperação de rendimentos, não pode deixar de lamentar o discurso de Centeno, “comemorando” a eufemistica “saída limpa” da troika das terras gregas. Por alguma razão nunca ouvimos, nem imaginamos ouvir, António Costa a fazer um discurso de tal recorte. Cada vez me convenço mais de que Costa está sozinho a pedalar na pista da Geringonça. Os meus votos é que não acabe por se transformar num Tsipras à portuguesa.

Comentário da Estátua, 29/08/2018)


 No famoso discurso proferido pelo presidente Lincoln na inauguração do cemitério nacional de Gettysburg, a 19 de novembro de 1863, quatro meses depois da grande batalha travada nesse local, e 18 meses antes do final da sangrenta Guerra Civil norte-americana, é a marca de água de um grande homem. São 272 palavras proferidas em menos de dois minutos, por um líder político que refundou os EUA, reinventou a instituição do presidente federal e reacendeu, temperado com o custo do seu sacrifício supremo, o farol mítico da atração universal dos EUA.

O recente discurso de Mário Centeno, na condição de presidente do Eurogrupo, durou um minuto e dez segundos, ligeiramente menos do que a alocução de Lincoln, mas o seu significado não poderia ser mais oposto. Pelas suas palavras e pelos seus atos, Lincoln elevou-se muito acima do importante cargo de presidente dos EUA, que também pode ser apoucado como ocorre agora com Donald Trump a uma escala que julgaríamos impossível.

Os grandes líderes são sempre maiores do que os cargos que ocupam, mas no caso de Mário Centeno, o economista português que criticava as limitações estruturais da zona euro e que exibia os erros e os sacrifícios inúteis das medidas de austeridade, eclipsou-se completamente. O que se viu e escutou foi um Jeroen Dijsselbloem ou um Wolfgang Schäuble a falar usando o rosto do ministro português como máscara.

Contudo, uma mensagem diferente não teria sido uma missão impossível. Centeno poderia ter atenuado o estilo simplificador do publicitário que exalta a qualidade do produto, neste caso a alegada recuperação económica e política da Grécia, subestimando a imensa dor e os danos irreversíveis causados por uma década maldita. Mas o que é verdadeiramente imperdoável, e constitui uma irreversível confissão de irrelevância por parte de Centeno, é a pequena frase em que o presidente do Eurogrupo atribui as causas das desgraças helénicas exclusivamente às suas “más políticas do passado” (bad policies of the past).

Para deixar o campo aberto para outras leituras, Centeno poderia ter referido sobre a ação da troika algo como “erros de um processo de aprendizagem”, ou até mencionado “responsabilidades partilhadas”.

Todavia, ao ilibar totalmente as instituições europeias (Conselho Europeu, Comissão Europeia, Banco Central Europeu, Eurogrupo, Parlamento Europeu), bem como os grandes países, Alemanha e França, de qualquer ónus no mais repugnante processo de humilhação e empobrecimento de um povo na Europa desde 1945, Centeno fez recuar o relógio da União Europeia até 2008.

Como se não tivéssemos aprendido nada e tudo tivesse sido esquecido, como se o sofrimento passado tivesse sido inútil perante as imensas tarefas que a nau europeia terá de assumir se não quiser naufragar nas tormentas que se aproximam.

A tragédia grega foi a primeira demonstração inequívoca do erro matricial da zona euro, um erro contra o qual o chanceler Kohl advertiu no Bundestag, em novembro de 1991: uma união monetária não sobreviverá se não for suportada por uma união política. Quando George Papandreou, num gesto de lisura kantiana, revelou a realidade das contas públicas gregas no final de 2009, em vez de receber aplauso e solidariedade foi submetido ao fogo cerrado do longo holocausto da austeridade e do esbulho helénicos.

Centeno mostrou que pode subir ainda mais alto. Merece a confiança desta elite europeia que odeia a verdade e exulta com o preconceito.


Professor Universitário

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7 pensamentos sobre “Altos cargos e pequenos homens

  1. Seguindo o plano crítico iniciado por Pacheco Pereira, outro empata falhado político que também não suporta haver inteligência e honestidade superior às suas e por isso não busca nem precisa da sabedoria opinativa destes oportunistas literários para fazer o seu trabalho de forma séria vem, de forma enviosada e deturpada estigmatizar Centeno pelo que não disse num discurso e sobre o trabalho feito diz nada.
    Este mansinho oportunista apoiante de Seguro, a troco de um lugar de um futuro governo apadrinhado por Cavaco, quem o ouviu defender os gregos quando às propostas de “mata” dos Jeroen e Schauble o governo Passos dizia “esfola”?
    Que já fez este pensador, na política ou fora dela, em prol do país além de escrever rebuscados opinativos onde nunca se esquece de fazer comparações literárias históricas afim de fazer crer o leitor descuidado no seu inigualável intelecto repleto de conhecimentos histórico-literários.
    Fez nada. Contudo começa logo por auto-atribuir-se a condição de grande homem pois se ele sabe que Centeno é um pequeno homem a exercer um alto cargo e acaba assinando como professor universitário torna claro a bom entendedor que, ele sim, saberia exercer um alto cargo sem deixar de ser ser um grande homem.
    O grande oportunista nunca perde oportunidade de ser pequeno homem. Este paleio anti-Centeno sem explicar racionalmente a mínima maldade cometida contra a Grécia, tal como o paleio do Pacheco, é mais um ataque pessoal ao ministro sob velho e enquistado ressentimento tal como fez contra Costa nas ‘primárias’ e faz continuamente acerca de Sócrates fazendo coro com a direita salazarenta e corrupta.
    Este tipo de gente, que pensa que o dizer académico é tudo, só contribui para enganar gente e desse modo impedir que o país avance.

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      • Caro “estatuadesal” penso que tudo o que escrevi foi acerca de Centeno mesmo quando, sobremaneira, parece que falo apenas do currículo do Viriato.
        E pergunto, afinal de que é acusado Centeno? De não fazer mea-culpa do que fizeram à Grécia? De não se retratar do mal que o anterior Eurogrupo praticou sobre o povo grego?
        Se é isso trata-se de uma imoralidade ou caso moral. E pior ainda, de uma imoralidade cometida por outros a que se quer obrigar Centano a assinalar e pedir desculpas? Em política que crime e castigo vale um julgamento moral?
        E sobre o povo de Portugal o mesmo Eurogrupo não fez o mesmo, ou semelhante, e com antipatriótico apoio do governo português que queria a dose a dobrar? E onde estava o professor universitário Soromenho?
        Se agora, na saída da troika da Grécia, Centeno devia ter feito a crítica do anterior Eurogrupo e sofrimento imposto ao povo grego porque não lhe exigiram igual conduta acerca do nosso país quando tomou posse como presidente do Eurogrupo?
        E, sobretudo, não demonstrou Centeno claramente com o seu programa eleitoral do PS e mesmo como ministro das finanças que a sua visão económica para Portugal era bem diferente da que o anterior Eurogrupo aplicara à Grécia?
        Também se pode pensar porque razão após um ano da chegada de Centeno à chefia do Eurogrupo nunca mais se ouviu falar de sansões, pressões ou ameaças e, assim sem se dar por isso, a Grécia vê-se livre da troika. pelo menos de forma oficial o que já revela um grande alívio para além de ser um sintoma de bom caminho?
        O que queriam os críticos de Centeno? Que, para satisfazer o radicalismo de palavreado, fizesse uma declaração tipo catilinária contra o anterior Eurogrupo a propósito de más práticas que nem sequer foram de sua responsabilidade?
        É sempre esta prática do radicalismo irresponsável que vai corroendo e desfazendo os que se elevam acima da mediania. E é, precisamente, cavalgando essa prática do radicalismo utopista que a direita salazarenta apoia e amplia, com todos os media ao serviço da causa, para destruir os melhores e derrubar governos.

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        • “E pergunto, afinal de que é acusado Centeno? ”
          De afirmar, sem o admitir, que a TINA afinal é verdadeira e a austeridade não só é necessária como é purificadora.
          Nem Portugal nem a Grécia se livraram da Troika, livraram-se do FMI, que é a entidade mais à esquerda e identificou e admitiu alguns dos erros cometidos. É que, 3 anos depois de Geringonça, nada mudou, só se actualizou em parte os salários e pensões graças à bolha turística. As infrastructuras e os serviços públicos continuam a beira do colapso e sem manutenção, e a dívida privada continua basicamente no mesmo sítio que 2007. Nem vale a pena falar no emprego e nos estabilizadores automáticos, vão ser o primeiro alvo a abater na próxima crise, que vai ser muito pior, diga-se.

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  2. Há uma pequena “anedota” que ilustra isto:
    Numa manhã muito fria, uma mulher rica que regressava a casa vinda da missa, passou pela fonte onde algumas mulheres pobres estavam a lavar a roupa.
    – Pobres mulheres! – exclamou – Com este frio, a lavar a roupa nessa água gelada, deveis estar geladas também! Vou mandar que vos tragam um pouco de vinho quente…
    E apressou-se a regressar a casa, onde imediatamente deu a ordem para que se preparasse a bebida reconfortante. Meia hora depois, estando ela sentada na sala, à lareira, uma criada veio dizer-lhe:
    – Minha senhora, o vinho quente está pronto. Vou então levá-lo às lavadeiras.
    – Deixe estar, não vale a pena. – respondeu a patroa – Acho que já não está assim tanto frio.
    (O seu a seu dono. Li esta historinha há muito tempo, num romance do francês Georges-Emmanuel Clancier, “Le Pain Noir”, que deu origem a uma série televisiva. Passou na RTP com o título de “O pão que o diabo amassou”.)

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  3. Excelente artigo de Soromenho Marques sobre Mário Centeno… Mas, para quem queira acenar com curricula e condecorações, convém lembrar que Lincoln – referido no artigo – foi fundamentalmente um auto-didacta e que, no caso de um ministro das finanças, é provavelmente mais importante a sua ideologia do que a sua formação técnica em contabilidade nacional. No que respeita à ideologia de Mário Centeno,basta ler o seu livrinho – publicado pela editora do «Pingo Doce», que dá pelo título «O TRABALHO – Uma Visão de Mercado». Está lá tudo.

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  4. “Cada vez me convenço mais de que Costa está sozinho a pedalar na pista da Geringonça. ”
    Ouça o que ele disse hoje em França que isso passa-lhe.

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