A ‘geringonça’ entre Hegel e Coltrane

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 21/07/2018)

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Nas últimas semanas enraizou-se a ideia de que António Costa estava a iniciar um movimento tático em direção ao centro, aumentando a tensão política com os seus parceiros. O acordo na concertação social em torno do Código do Trabalho, viabilizado entretanto no parlamento pelo PSD, e a entrevista do número dois do Governo, Augusto Santos Silva, sugerindo que uma nova ‘geringonça’ dependeria de posições conjuntas na política externa, dariam conta disso.

E se, além da aproximação de um período de tensão pré-eleitoral e pré-orçamental, não existir, ao contrário do sugerido, nenhum elemento de novidade?

Talvez valha a pena regressar à natureza dos compromissos conjuntos: essencialmente circunscritos a matéria orçamental, a ‘geringonça’ optou por deixar de fora muitas áreas. Contudo, a ausência de muitos temas nos acordos não os retirou do programa de Governo. Precisamente por o entendimento em matérias laborais entre PS, PCP e BE ser escasso, os compromissos são praticamente omissos nesta matéria — não tendo ficado, naturalmente, o executivo inibido de legislar ou de promover a concertação social. Bem pelo contrário, as matérias constam do programa de governo.

Há, é verdade, um elemento de importante novidade dos últimos meses. Um congresso do PS que se anunciava anódino acabou por ter uma consequência. Com sagacidade, Pedro Nuno Santos aproveitou o vazio para se afirmar como incontornável num novo ciclo, enfatizando a opção preferencial pela esquerda. Esta tese desencadeou um movimento dialético, com Augusto Santos Silva a apresentar a antítese, sinalizando com “maldade analítica” (para recuperar a certeira expressão de Pacheco Pereira) as dificuldades dessa opção. Esta tensão, enquanto ofereceu a António Costa mais uma oportunidade de promover uma síntese — que na verdade é a que tem vigorado nos últimos dois anos —, criou uma nova grelha de leitura para a tensão política quotidiana.

E é este movimento de matriz hegeliana que me leva a John Coltrane. No que é, provavelmente, o acontecimento musical mais relevante de 2018, foi lançado um álbum perdido do saxofonista, resultante de uma sessão de 1963 com o quarteto clássico. Enfatizo a sugestão e aproveito para recuperar o singular título: “Both Directions at Once”. Num episódio, aliás relatado pelo João Santos revista E da semana passada, em conversa com Wayne Shorter, Coltrane terá apontado à síntese definitiva: um fraseado que começando pelo meio seguisse em duas direções ao mesmo tempo.

É também esta a virtude da síntese de António Costa: manter o vínculo europeu e sustentar um compromisso heterodoxo no parlamento. Uma síntese que tem como principal virtude ir em duas direções ao mesmo tempo, mas que encerra em si a sua principal fragilidade. Como sempre, chegará o momento em que o equilíbrio deixará de ser sustentável, mas é prematuro dar esse momento como próximo.

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