O crime e a cobardia estão no DNA da extrema-direita 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/06/2018) 

Daniel

Daniel Oliveira

 

O jornalista autor do livro “Gomorra”, Roberto Saviano, vive há 12 anos protegido pela polícia por se dedicar a investigar a máfia napolitana. Graças à sua obra sobre a Camorra, a sua presença é frequentemente solicitada no estrangeiro para conferências. Por ter a cabeça a prémio, é sempre acompanhado por seguranças policiais. A proteção de Saviano não é um favor do Estado, é um dever do Estado. O escritor é perseguido por criminosos por denunciar criminosos. Está do lado da lei contra o crime e a sua liberdade (incluindo a de movimentos) não pode ser limitada por isso.

Recentemente, numa entrevista ao canal Rai Tre, o ministro do Interior e líder da Liga italiana, Matteo Salvini, disse que seria útil avaliar se Saviano ainda precisa da proteção policial. Que os italianos tinham direito a saber como andava a ser gasto o seu dinheiro, já que o jornalista viajava bastante. O que está em causa não são, como é evidente, os custos para o Estado. O que está em causa é o facto de Saviano ser bastante crítico do novo governo e das suas políticas para a imigração e tê-lo expresso de forma bastante vocal. Salvini não gosta e, como é costume em líderes autoritários, começou a pensa como poderia calar o homem. Assumindo, como também é hábito, que é o Estado que está ao seu serviço e não ele que está ao serviço do Estado, acha que a “sua” polícia não deve proteger os seus opositores. E a ameaça de o deixar desprotegido foi o que lhe ocorreu.

A resposta de Saviano foi esta: “Viver sob proteção policial é uma tragédia, e a Itália é o país ocidental com o maior número de jornalistas nestas condições, porque tem as mais poderosas e perigosas organizações criminosas do mundo. No entanto, e apesar disso, em vez de libertar os jornalistas sob a sua proteção dos riscos, Matteo Salvini, o ministro do Interior, ameaça-os. As palavras pesam, e as palavras do Ministro do Submundo (…) são palavras da máfia. As máfias estão a ameaçar. Salvini ameaça.” E é isto mesmo: o ministro do Interior de Itália, responsável pela segurança dos italianos, usa o medo da máfia para tentar calar os seus opositores. Salvini é, por isso, um criminoso.

Não devemos criminalizar as posições políticas de ninguém. Tenho até defendido que os partidos fascistas deviam ser legais em Portugal desde que cumpram as leis e as regras democráticas. Até ao dia que as deixem de cumprir. Mas não tenhamos ilusões: chegados ao poder, acabam sempre por violá-las. Porque o crime faz parte do seu DNA.

O que quer dizer que um sistema político só os pode tolerar se estiver defendido por instituições sólidas que lhes partam as pernas ao primeiro deslize. Em Itália, com Salvini, devia ser agora mesmo. E pouco interessa ele dizer que serão as autoridades competentes a verificar. A ameaça está lá. E é mais abjeto o governante que ameaça desproteger um opositor para que os criminosos o abatam do que aquele que manda abater. Além de criminoso é cobarde. Mas também a cobardia está no DNA de quem faz do ataque aos mais fracos, sejam imigrantes ou minorias étnicas, a sua maior arma política.

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