Nós e os refugiados

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 27/06/2018)

capitaoferreira

E o que é que isto tem a ver com Economia, Finanças ou outras das coisas que nos ocupam) Muito, meus amigos. Muito.

Não é que faltem melhores razões, desde logo as humanitárias, as de respeito pela vida humana, as de verdadeira construção de uma sociedade plural. Mas também sobram destas, daqui das mais próximas às matérias económicas.

Ainda há uns dias o INE publicou informação atualizada:

  • Continuamos a perder população. Em 2016 o crescimento efetivo foi negativo de 0,18% mantendo-se a tendência de decréscimo populacional ainda que atenuado face aos últimos anos.
  • O envelhecimento demográfico em Portugal continua a acentuar-se: face a 2016, a população com menos de 15 anos diminuiu, sendo apenas 13,8%, e a população com idade igual ou superior a 65 anos aumentou para mais de 2,2 milhões de pessoas (21,5% da população total) e, dentro destes, quase 300.000 com mais de 85 anos.
  • No futuro, projeta o INE, Portugal perderá população até 2080, passando dos atuais 10,3 milhões para 7,7 milhões de residentes, ficando abaixo dos 10 milhões “já” em 2033. O número de jovens diminuirá de 1,4 para 0,9 milhões e o número de idosos passará de 2,2 para 2,8 milhões. Quem cuidará deles? Não sabemos.

Como não nascem crianças o que atenua o decréscimo é o saldo migratório, e no ano passado ele finalmente inverteu-se, findo que está o ciclo de sangria súbita de jovens a que assistimos nos anos da troika (um crime para o desenvolvimento da Economia no curto prazo, mas especialmente no longo prazo), como ilustra este gráfico, do mesmo documento:

Sem nascimentos suficientes (temos 1,37 filhos por casal, pouco mais de metade do que seria necessário apenas para manter a população) e com uma população que vive cada vez mais, e ainda bem, com a esperança média de vida a superar os 80 anos em Portugal já é anacrónico falarmos de pirâmide demográfica.

Com cada vez mais idosos e menos jovens, não há nenhuma pirâmide. Há um vago e difuso quadrilátero esquinado. Os dados não enganam:

Face a isto tudo, e no que respeita a acolher quem nos procure, a nossa resposta não pode ser só um generoso: sim. Tem de ser um sonoro: obrigado. A não ser que algum de vocês me saiba explicar como se salva a segurança social, se garante a capacidade de a economia produzir riqueza, de haver impostos que financiem o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública, entre tantas outras politicas públicas.

Um País que perde população é como um corpo que perde músculo. Tudo o que nos ajude a não ir por aí é bem-vindo. E, por uma vez, o que faz sentido económico também é a coisa certa a fazer. Não sei se sabemos lidar com isso.

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9 pensamentos sobre “Nós e os refugiados

  1. Breve mas concisa observação, a de Marco Capitão Ferreira…
    No meio disso tudo, uma das preocupações que deveia estar em todas as mentes é a de como vamos «aportuguesar» todos aqueles imigrantes que queiram lançar e criar raízes em Portugal.
    Dizem-me que na Escola Secundária de Carcavelos há, entre os alunos, nada menos do que 54 nacionalidades.

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    • Manuel G., olha aqui: sabes se o “lançamento de raízes” vai passar a ser uma modalidade olímpica?
      O será que era algum jogo popular dos antigos que tenha sido registado pelo Leite de Vasconcellos, sabes alguma coisa disso?

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  2. «E o que é que isto tem a ver com Economia, Finanças ou outras das coisas que nos ocupam) Muito» etc., …?!

    Ou é o tipo que anda, ou sou eu que ando, ou é o Manuel G. que anda, e enfrascados andamos claro, mas a forma literária desta frase não faz sentido nenhum. Que ao Manuel G. não aqueça nem arrefeça, é sinal de que também ele se está nas tintas (sobre o conteúdo li apenas isto e, por hoje, chegou-me).

    Próximo!

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  3. “A não ser que algum de vocês me saiba explicar como se salva a segurança social, se garante a capacidade de a economia produzir riqueza, de haver impostos que financiem o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública, entre tantas outras politicas públicas.”

    É simples, um estado soberano não pode ficar sem moeda suficiente quando é o monopolista, razão pela qual os impostos não financiam coisa nenhuma. Como é que isto se aplica numa união monetária com ritmos completamente diferentes sem transferências? Não se aplica, mas também não se estanca a hemorragia com imigração, a próxima crise com os mesmos níveis de dívida privada vai ser um filme repetido. Mas também não se aplica aquela parte de “criar riqueza” quando uma crise dura 11 anos e deixa 20% de subemprego e 40% de desemprego jovem como “reforma estrutural” – a inevitabilidade de culpar o “invasor” pelo desemprego, já que a UE está fora de limites, é um exercício para o leitor, mas tem muitos países onde ir buscar dados.

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  4. Face a alguns comentários que acabo de ver aqui, lembra-me uma expressão que um dia ouvi a um velho colono (mas não colonialista!…), «no meio disto tudo, o Salazar é que os topava, habituou-os a olhar o mundo mirando o fundo do quintal»… Haja paciência que, segundo nos dizem algumas estatísticas, estamos melhor hoje do que estavam os nossos avós há uns cem anos atrás…

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