Imigração: contra a crueldade, política.

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 20/06/2018) 

crianças

Para quem prefere enfiar a cabeça na areia e dar carta branca a demagogos para tratarem da sua “segurança” e “conforto”, uma imagem vale mais do que milhões de palavras. E a imagem de centenas de crianças, enfiadas em jaulas em armazéns no sul do Texas, torna mais difícil a hipocrisia que se instalou nos Estados Unidos. Os norte-americanos foram confrontados com a ignomínia e obrigados a ver os rostos e a ouvir as vozes da crueldade do seu governo.

A violência imposta a estas crianças, que são separadas dos seus pais num momento especialmente traumatizante e ficam sem qualquer apoio ou carinho de um adulto, entregues a si mesmas, transporta-nos para o passado. Mas o abjeto attorney general Jeff Sessions não se mostrou especialmente ofendido com a comparação. Disse que era um exagero. Explicou: os nazis prendiam as pessoas e separavam famílias para elas não fugirem, eles prendem e separam famílias para elas não entrarem. Faz toda a diferença.

A inumana separação de crianças dos seus pais não resulta de qualquer problema operacional ou de falta de meios. Faz parte da política de tolerância zero imposta por Sessions. E tem um propósito explícito: desencorajar os imigrantes de atravessar a fronteira. As crianças são, de forma expressa, instrumentos da política de imigração de Donald Trump.

É pior do que isto: as crianças estão a ser usadas para, através de uma aplicação cega e desproporcionada da lei (tratando os que entraram ilegalmente como presos de delito comum e separando assim as famílias), pressionar os democratas a negociar um endurecimento das leis anti-imigração e o pagamento do muro. Donald Trump deixou isso claro, em sede própria (o Twitter): “Separar famílias na fronteira é culpa de uma má legislação aprovada pelos democratas. As leis de segurança de fronteira devem ser alteradas! Começou o muro.” Não me recordo de um governo de uma democracia alguma vez ter assumindo que impunha sofrimento a crianças como forma de pressão política sobre opositores.

O preço da “tolerância zero” é quase sempre, neste tipo de assuntos, a crueldade. Incluindo a crueldade sobre crianças. Mas há sempre um antídoto para os efeitos das imagens: a desumanização dos outros. Na Europa, é bom percebermos antes de começarmos a pregar moral a um país historicamente muitíssimo menos fechado à imigração do que o espaço da União, ela vai bem avançada. Salvini, o ministro do Interior italiano que usou a recusa de entrada de um barco com mais de 600 africanos como marca política de uma nova era, quer fazer um censo dos ciganos para saber quais não são italianos e expulsá-los do país. E lamenta que esta expulsão etnicamente dirigida, como sempre foi gosto da extrema-direita, não se possa a alargar a todos: “Infelizmente vamos ter de ficar com os ciganos italianos em casa”. Os campos de concentração ainda não estão prontos. Mas esta história ainda vai a meio, pensará o animal.

Na Alemanha, também é a política de imigração e de refugiados que faz estragos. A CSU, versão bávara da CDU que governa a província que recebeu grande parte dos refugiados, quer que o país rejeite avaliar qualquer pedido de asilo de qualquer refugiado que se tenha registado num Estado do sul. Não preciso de explicar que tal decisão corresponderia a uma violação das regras europeias. E teria uma consequência prática: os países da linha da frente, sobretudo a Grécia e a Itália, ficariam sozinhos com a batata quente na mão, servindo de tampão para o resto da Europa. Para Salvini era a certeza de uma maioria absoluta (já está a crescer nas sondagens, aliás). Apesar de inaceitável, a posição da CSU tem um racional. A política de Angela Merkel permitiu receber 1,6 milhões de refugiados, desde 2014, e é rejeitada por 65% dos alemães. Uma imprudência que resultou na subida da extrema-direita e que levou a esta posição de Horst Seehofer, líder da CSU e ministro do Interior do governo de coligação com o SPD recém-formado. Há eleições na Baviera em outubro, e a CSU pode perder a sua maioria absoluta. Tem pouco mais de 40% nas sondagens, menos 7 pontos percentuais do que nas últimas eleições. A Alternativa para a Alemanha (AfD), está com 13%. Dirão que a posição é de puro oportunismo eleitoral, mas é bom recordar que se a AfD subir muito a abordagem alemã à imigração e aos refugiados não será nem a de Seehofer, nem a de Merkel. Será a de Salvini e de Trump.

Não atribuo, ao contrário do que tenho lido, a imprudência de Merkel apenas a mínimos de decência perante o sofrimento humano. Isso terá o seu peso, mas penso que um calculismo económico bastante frio, mas que resultou num erro de cálculo político, foi mais determinante. Numa coisa Merkel tem razão: só uma solução conjunta pode garantir que a Europa cumpre o seu dever moral e não soçobra perante o crescimento da extrema-direita. Se temos fronteiras internas abertas não há como recusar uma política de imigração e asilo coordenada. Mas Merkel também está a colher o que semeou. Quem castigou os países mais expostos à crise financeira, atirando para os preguiçosos povos do sul as culpas de uma moeda disfuncional, não tem grande autoridade para pedir solidariedade entre Estados.

Apesar da chegada de muitas pessoas fugidas da fome e da guerra (com as alterações climáticas serão cada vez mais), a “crise dos refugiados” é, antes de tudo, uma crise política. As sucessivas crises financeiras, a incapacidade em regular os efeitos económicos da globalização e o processo de contrarreforma social a que assistimos na Europa cria uma fundada sensação de insegurança nas pessoas. Direcionar essa ansiedade para os imigrantes, como sempre fez a extrema-direita, é fácil. A imigração não é de hoje, as condições políticas e sociais que ela encontra nos países do primeiro mundo é que são. Quando a política dá resposta à ansiedade das pessoas, a culpabilização dos estrangeiros tem resultados políticos marginais. Quando deixa a extrema-direita a falar sozinha para os excluídos da globalização eles são colossais. Querem derrotar Trump, Salvini e a AfD? A resposta é proteção social, emprego e regulação económica.

Os discursos morais sobre os nossos deveres para com os imigrantes, sendo imprescindíveis para que o abjeto não se transforme em normal, pouco resolvem. A direita que não se acobarde com a extrema-direita, repetindo em versão mole a sua política de imigração. A esquerda que não se acobarde com a direita liberal, repetindo em versão mole a sua política económica e social. Regressem ao que tornou possível meio século de paz e prosperidade. Se as duas coisas existirem os xenófobos militantes voltarão a ser uma pequena minoria.

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3 pensamentos sobre “Imigração: contra a crueldade, política.

  1. Jamais me atreveria afirmar que a foto da criança a chorar agarrada à mão da mãe é ‘fake’. Só posso dizer que qualquer um, pode conseguir sem esforço uma foto daquelas ali à esquina. Basta haver uma criança a fazer uma birra por não querer sair de onde está para termos a imagem dela no chão aos berros. Quanto às calças da mulher que tem pela mão são o mais fashion possível! Calças sem rasgões só em gente muito conservadora.

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    • Está certo, mas não se pode negar a realidade descrita pelo jornalista Daniel Oliveira, e mostrada em todas as televisões europeias. O Trump é um pullha abjecto, pronto a passar sobre tudo para fazer valer a sua vontade… goza descaradamente com os Europeus quer até prejudicar o mais possível a edificação da Europa unida (E Putin não quer outra coisa tbm). O pior são os estados europeus que se convertem cada vez mais ao extremismo de direita, na
      Polónia e na Hungria. Vamos ter que reflectir (e bem !) aquando das eleições europeias que se avizinham para o ano…

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  2. A CSU não é a versão bávara da CDU, não é a ala bávara da CDU nem nada dessas coisas que se dizem por aí. A CSU (União Social Cristã) é um partido independente, que por acaso se restringe à Baviera.

    Já desde o tempo do seu líder Franz Joseph Strauss, o “Touro da Baviera”, a CSU sempre esteve claramente à direita da CDU, com um pé no nazi-fascismo e outro fora. Nada mudou até hoje, portanto. A Baviera, que não é uma província, mas sim um estado (Estado Livre da Baviera é o seu nome oficial), é o mais rico, poderoso e influente estado federado da Alemanha. É também o mais reacionário, com exceção da cidade de Munique. É só por oportunismo político que a CSU se tem aliado sistematicamente à CDU, para poder ter influência no governo federal, e a CDU aceita esta aliança, para não ter a Baviera a morder-lhe as canelas.

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