Os hábitos da servidão

(José Pacheco Pereira, in Público, 26/05/2018)

JPP

Pacheco Pereira

A gente habitua-se a tudo e não devia habituar-se. Bem sei que, como no anúncio da CNN sobre os factos (uma maçã) e as falsidades (bananas), há um terceiro elemento que é uma daquelas dentaduras de brinquedo a que se dá corda e passa gloriosa e barulhenta diante da maçã: chama-se “distracção”. Temos demasiadas distracções que fazem uma cortina para nos impedir de ver os factos e, não os vendo, não os escrutinamos, nem os analisamos, nem tiramos consequências. Aqui é um exército de dentaduras a bater os dentes, ou seja, mais do que uma distracção, é uma política.

Esta semana, a Comissão Europeia fez mais uma das suas habituais conferências de imprensa pronunciando-se sobre a governação de Portugal. Insisto na caracterização: pronunciando-se sobre o modo como Portugal é governado, um país soberano, com um governo apoiado numa maioria parlamentar, que deveria responder em primeiro e quase único lugar perante a Assembleia da República e os portugueses.

As coisas já estão tão envoltas em fumo, que nós achamos normal que um político socialista francês, antigo trotsquista, um dos responsáveis pelo afundamento a pique do seu partido, agora investido na burocracia europeia, se pronuncie, com a maior normalidade, sobre o que acha bem ou acha mal no modo como Portugal é governado. Alguém escolheu Moscovici para ministro das Finanças de Portugal, responde acaso perante o nosso Parlamento, vai a votos nas urnas, foi eleito pelos portugueses? Não, não e não, três nãos. E, no entanto, estas perguntas são aquelas que deveríamos fazer, se tivéssemos os olhos abertos.

O que ele está a fazer chamava-se, na diplomacia antiga, “droit de regard”, ou seja, o “direito de exercer um controlo sobre qualquer coisa”, como a Inglaterra tinha sobre Portugal nos tempos do Ultimato, na verdade, antes e depois, como os EUA queriam exercer no pós-25 de Abril, como a URSS tinha na Finlândia, ou com a teoria da “soberania limitada” que justificou a invasão da Checoslováquia, por aí adiante com centenas de exemplos, nenhum bom.

Não adianta dizer “como os portugueses o desejaram quando entraram para a Europa”. Falácias, porque muito do que é hoje a União Europeia pouco tem que ver com o projecto inicial, muito do que se diz serem as “regras europeias” não o são, estão em tratados que não são “europeus”, e outros que foram “vendidos” aos europeus com dolo, como sendo uma coisa, quando, afinal, são outra.

Lembram-se como o Tratado de Lisboa era um marco na devolução de poderes aos parlamentos nacionais? Não, não se lembram, porque este tipo de embustes é suportado por tantos interesses, da comunicação social aos negócios, à política, que nem sequer se pára para pensar. Depois admiram-se com o crescendo do populismo e do antieuropeísmo na Europa, como se não tivessem nada que ver com o monstro que ajudaram a criar.

Se quiserem perceber como é que a Europa chegou ao estado a que chegou, ouçam Moscovici sem distracções. O que ele e os outros comissários dizem não é uma neutra especulação económica, nem a aplicação de uma vulgata “científica” da economia – é um conjunto de recomendações, ao estilo de ordens, de carácter político. Político. Político. Deixem lá a dentadura passar que a maçã continua lá atrás: político. Porque Moscovici não fala de todos os problemas portugueses, fala da ortodoxia (aliás, partilhada com o nosso ministro das Finanças) da economia do “ajustamento”, o rastro das ideias e práticas da troika. Ele nunca diz que um problema dos portugueses é o alto nível de pobreza, são as desigualdades sociais ou os salários baixos, ou a degradação dos direitos sociais, ou o caos nos serviços públicos a começar pela Saúde. Não, o que ele diz é: não comecem a gastar demais com a Saúde, olhem para a despesa antes de tudo, e claro que recomenda que “racionalizem” a despesa, coisa que sabemos pela experiência da troika o que significa. Ele não está preocupado com o facto de os portugueses poderem ser vítimas das políticas de “poupança” (o eufemismo para os cortes) na Saúde – o que o preocupa é que a agitação social dos utentes e dos profissionais possam levar o Governo a gastar mais nos hospitais. Porque é que tenho a certeza que, se fosse para os bancos, ele não diria o que disse?

Por tudo isto, o pior é habituarmo-nos. Não é democrático, não é aceitável, não é normal. Defendamos a maçã da pilha de bananas, e tiremos a corda à dentadura, antes de gentilmente a mandarmos para o lixo.

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6 pensamentos sobre “Os hábitos da servidão

  1. «Alguém escolheu Moscovici para ministro das Finanças de Portugal?»
    Dramas da Neverland Brussels.
    Se este inteligente (ou idiota) não viesse recorrentemente com estas patranhas a público,
    como iria justificar o seu papel de amanuense? Há que mostrar serviço.
    Ou de como há um século, a paródia das burocracias foi bem descrita por Max Weber.
    Problema: em vez do arguto Pacheco Pereira, para quando um ‘deputado’ a denunciar o traste, no circo S. Bento?

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  2. Ó SENHOR HISTORIADOR, com prosápia de democrata burguezote, LOGO (pela mais elementar lógica aristotélica) PERTENCENTE AO GRUPO DOS «que os têm no sítio» PARA PERTENCEREM AO CLUBE PLANETÁRIO TERRENO DE «Os defensores da democracia e da justiça social no Oriente e no Ocidente, no Norte e no Sul do globo», VEJA LÁ SE É CAPAZ E ESTÁ sinceramente DISPOSTO A ASSINAR ESTA PETIÇÃO:

    https://www.change.org/p/to-supporters-of-democracy-and-social-justice-throughout-the-world-lula-da-silva-is-a-political-prisoner-free-lula

    VAI AINDA ESTA MINHA COLOCAÇÃO/sugestão/pedido AO CUIDADO DE TODOS, E DE TODAS, QUE POR AQUI ANDAM E QUE TAMBÉM «os que têm no sítio» – a de assinarem esta petição, que, obviamente, não é apenas extensível aos «académicos e intelectuais das maiores universidades do mundo» que tiveram a iniciativa do manifesto!….
    aci

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  3. Bem dito e escrito mas, meu caro, o senhor é um demagogo do mais alto calibre. Fala , fala ,fala (ou escreve) mas gostaria de o ver numa assembleia da República ou num qualquer ministério a falar asssim. Gostava mesmo até porque ainda assim é dos falam de realidades. Os meus cumprimentos.

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