O governo de Israel insulta a história dos judeus 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/04/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

 

Desde 30 de março que os palestinianos de Gaza celebram, com protestos, o Dia da Terra Palestiniana. Fazem-no junto a uma fronteira encerrada por um muro há décadas e que transforma aqueles 360 quilómetros quadrados com mais de dois milhões de humanos num enorme gueto. Podem ficar, pela sonoridade histórica que a palavra carrega, chocados. Mas a sonoridade histórica é absolutamente legítima. Há tantos elementos comuns, desde os raids punitivos ao confinamento étnico, passando pela arbitrariedade e desumanização do outro, que o paralelo é inevitável. A repressão israelita, em terra que juridicamente não é sua, já se saldou, em apenas uma semana, na morte de dezenas de palestinianos (não arrisco fixar um número aqui porque está sempre a aumentar).

A ordem do governo para as Forças Armadas israelitas é clara: abater qualquer manifestante que se aproxime da vedação fronteiriça. Há apelos de organizações israelitas para que os soldados se recusem a disparar munições reais contra manifestantes. Para que recusem ser, em vez de soldados, homicidas. Mas Avigdor Lieberman, ministro da Defesa e líder da extrema-direita xenófoba israelita, já avisou que a matança de quem se aproxime da fronteira é para continuar. Porque para uma parte das lideranças israelitas os árabes são uma subespécie a quem não faz sentido conferir qualquer tipo de humanidade.

Mas não é apenas na desumanização do outro e na criação de espaços confinados para tornar a repressão coletiva de todo um povo mais eficaz que o governo israelita vai buscar reminiscências do passado. Pela sua proximidade, Israel tem sido, como muitos países europeus, destino de milhares de refugiados em fuga dos conflitos no Darfur, Sudão do Sul e Eritreia. Cerca de 40 mil pessoas conseguiram atravessar o deserto do Sinai cruzando a fronteira entre o Egito e Israel. Todos os que passam esta fronteira são capturados e internados em campos de detenção no deserto onde ficam cerca de um ano, acusados de entrada ilegal. Desde 2012 que Israel construiu um muro entre Israel e o Egito semelhante ao desejado por Trump. Como recorda Patrícia Fonseca, num bom texto publicado na Visão, este é o mesmo deserto que Moisés terá atravessado, conduzindo os judeus que fugiam da escravidão. A história está mesmo cheia de ironias.

Como a maioria dos “infiltrados” – são assim chamados os imigrantes não-judeus – são cristãos em fuga do fundamentalismo islamista, o seu estatuto de refugiado é recusado. Para ser refugiado em Israel é preciso ter a religião certa, mesmo que tal restrição viole as normas internacionais. Nos últimos dez anos foi concedido asilo a dez refugiados. É a taxa mais baixa do mundo. E a forma para lidar com o problema foi explicada por Eli Yishai, ministro do Interior e líder do um partido ultraortodoxo, em 2012: “Até conseguir ter a possibilidade de os deportar, vou prendê-los e tornar as suas vidas miseráveis”. Só depois de enorme pressão internacional e de grandes manifestações em Telavive é que Netanyahu recuou e aceitou, pela primeira vez na história de Israel, a integração de imigrantes não-judeus. Mas este acordo com a ONU, que partilhava o esforço com outros países, durou 24 horas. Perante a pressão da extrema-direita de que depende, Netanyahu acabou por recuar. “Hoje são 60 mil, amanhã já tiveram filhos e netos e são 600 mil”, disse o primeiro-ministro, temendo a “absorção” da cultura israelita. Tem ou não tem uma sonoridade familiar?

Cada vez que alguém critica as políticas do Estado de Israel é imediatamente acusado de antissemitismo. O insulto não é mais do que uma chantagem. Uma exigência de um cheque em branco. Uma suspeita que nos pretende fazer a todos de reféns, tornando Israel no único Estado inimputável no mundo. Eu, descendente próximo de judeus, que não faço concessões a qualquer tipo de discurso antissemita, tenho sobre muitos dos que usam a acusação de antissemitismo para criminalizar qualquer critica ao governo de Israel uma vantagem: a coerência. Não escrevo nem digo sobre os judeus o que não escrevo e não digo sobre os cristãos ou os muçulmanos. Poderei ser cáustico com a Igreja Católica, atacar as ditaduras laicas ou as teocracias muçulmanas e ser crítico em relação ao Estado israelita. Nunca confundo isso com generalizações sobre qualquer religião ou povo. Ao contrário de todos os que se lembram do martírio do povo judeu mas ignoram, no seu racismo seletivo, o que aconteceu aos ciganos no Holocausto ou repetem sobre os muçulmanos o mesmo tipo de generalizações que fizeram crescer o antissemitismo na Europa. Não sendo seletivo, tenho sobre os que usam os judeus como instrumento de outros racismos a vantagem de nada ter de lhes responder. São os islamofóbicos e os racistas de todo o tipo que se aproximam da semente que alimentou o antissemitismo, não são aqueles que recusam todas as formas de discriminação e ódio religioso ou racial. Eu não escolho povos para amar e odiar.

As críticas que faço aos governos do Estado de Israel não nascem de ideias feitas. Estive várias vezes em Israel, na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em vários campos de refugiados palestinianos nos países vizinhos. Sei da revolta que nos toma as entranhas. E sei das contradições de tudo o que ali se vê. Como a sociedade israelita guarda ainda um pouco, cada vez menos, do espírito comunitarista que fez nascer aquela nação. De como a corrupção corroeu as entranhas da sociedade palestiniana. E de como uma e outra estão doentes de tanta dor e guerra. Não reduzo, essa é a base do sentimento antirracista, este conflito a um combate entre o bem e o mal, entre agressores naturais e vítimas naturais. Mas isso não me impede de distinguir o certo do errado. E saber que ali, agora, há décadas, há um ocupante e um ocupado, um prisioneiro e um carrasco. E que Israel já não é a casa segura que prometeu ser, é um campo de exclusão, onde os kibutzim deram lugar aos colonatos, o sionismo progressista deu lugar à xenofobia mais descarada, os democratas deram lugar aos militares, os laicos deram lugar aos fanáticos religiosos. Israel está doente, profundamente doente.

É impossível lembrar Aristides de Sousa Mendes e associa-lo a um ministro que diz que vai prender o refugiados cristãos em fuga do terror islamista e tornar as suas vidas tão infernais que acabarão por querer ir embora. É impossível associar os resistentes judeus contra o antissemetismo dos anos 30 àqueles que penduram panos na marginar de Telavive onde se lê “africanos, voltem para a vossa terra” e a um primeiro-ministro que avisa para os riscos da absorção por outras culturas se continuarem a deixar entrar cristãos africanos no país.

É impossível associar o sonho sionista a um Estado que aceita qualquer judeu mas fecha a porta a quem foge do terror e da morte se tiver outra religião. É impossível associar o ministro Lieberman, que manda os soldados israelitas atirar a matar sobre qualquer palestiniano de Gaza que se aproxime da fronteira israelita com os que, no gueto de Varsóvia, se ergueram numa luta heróica e suicida pela sua dignidade.

É impossível associar a luta de milhões de judeus contra a discriminação aos líderes políticos que construíram o gueto de Gaza e repetem as mestas tácticas do passado para manter a ordem e assim garantirem o “seu espaço vital”. E é difícil compreender um Estado judeu que ergue um muro no Sinai para impedir a passagem de quem foge do Egito e procura a salvação na Terra Santa.

A banalidade do mal não escolhe raças, povos ou religiões. Basta a impunidade estar assegurada, a máquina de terror estar montada e a desumanização do outro ser assimilada por todos para tudo ser possível. E é por isso que, apesar de toda a chantagem retórica, são os que apoiam o governo criminoso de Israel que mais se aproximam da cultura antissemita do passado e do presente. Os herdeiros dos que resistiram são os que repetem o óbvio: as vítimas e os carrascos não têm cor, religião ou nacionalidade predeterminada. Resultam uns e outros do espaço que tenha sido dado à arbitrariedade. E honrar a memória do sonho sionista, honrar a memória do martírio do povo judeu, é honrar os princípios que nos levam a reconhecer um criminoso quando ele está à nossa frente, sejam quais forem os credos dos assassinos e das vítimas. Não é ser cristão, muçulmano ou judeu que faz de alguém vítima ou agressor. É, através dos seus atos e das suas penas, ser vítima ou agressor.

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3 pensamentos sobre “O governo de Israel insulta a história dos judeus 

  1. “Podem ficar, pela sonoridade histórica que a palavra carrega, chocados.”
    Eu fico chocado por haver tão poucas pessoas a usar a palavra genocídio, mas depois lembro-me que é lá longe e que são os nossos filhos da puta e passa-me o choque.

    ” É impossível associar os resistentes judeus contra o antissemetismo dos anos 30 ”
    Até porque os Palestinianos são mais semitas do que a maior parte dos Israelitas.

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  2. Avigdor Lieberman, ministro da Defesa e líder da extrema-direita xenófoba israelita, já avisou que a matança de quem se aproxime da fronteira é para continuar. Porque para uma parte das lideranças israelitas os árabes são uma subespécie a quem não faz sentido conferir qualquer tipo de humanidade.
    Ao ler o paragrafo acima em que a frase é do ministro israelita da defesa, parecia-me estar a ler alguma declaração de adolf hitler, e ao ler a segunda parte do texto, tenho a impressão que os nazistas tinham razão ao tratar os judeus como trataram, repito olhando ao que escreveu o ministro israelita.

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