O caso Skripal e as dúvidas que ainda subsistem

(Por Major-General Carlos Branco, in Expresso Diário, 01/04/2018)

GENERAL

Na sequência das declarações de Theresa May, a primeira-ministra britânica, no parlamento, a 12 de março, e de Boris Johnson, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre o alegado envenenamento do agente duplo Sergei Skripal e de sua filha Yulia, as relações político-diplomáticas entre os países ocidentais – nomeadamente Estados Unidos e Reino Unido – e a Rússia deterioram-se a um ponto nunca visto desde o fim da guerra-fria, piores mesmo do que nos anos cinquenta do século passado. Theresa May acusou a Rússia de ser “muito provavelmente” responsável pelo duplo envenenamento. O assassinato “teria sido planeado diretamente pelo Kremlin”, ou a “Rússia teria permitido que o gás tivesse caído em mãos erradas”.

Desconheço quem possa estar por detrás deste incidente, mas estou particularmente interessado em saber o que realmente aconteceu. A serem verdadeiras as acusações feitas à Rússia justifica-se uma resposta firme. Contudo, a argumentação utilizada pelas autoridades britânicas apresenta algumas fragilidades não negligenciáveis. Mais de três semanas passadas sobre o incidente, justificava-se a apresentação de provas inequívocas e irrefutáveis sobre o envolvimento russo. Continua-se sem conhecer a identidade do perpetrador, assim como as circunstâncias e o local da ocorrência. O que se tem sabido é pela comunicação social e a informação é contraditória. Uns falam num pub, outros num restaurante, parece que os Skripal teriam sido encontrados moribundos num banco de jardim. Segundo alguns relatos o polícia que os encontrou teria tido contacto com o veneno em casa dos Skripals, segundo outros durante a prestação do auxílio. Seria conveniente conhecer a versão oficial.

Preocupa-me sobretudo a desastrosa gestão política do acontecimento. A falta de evidência tem sido acompanhada por um retórica inaceitável, pouco consentânea com aquilo que são as boas práticas da diplomacia internacional. O assunto deveria ter sido logo encaminhado no dia 4 de março para a OPWC, o fórum próprio onde o assunto deveria ser analisado. A Rússia argumenta com os termos do Artigo IX da CWC, que estipula a necessidade de se efetuar um primeiro esforço para clarificar e resolver, através de troca de informações e consultas entre as partes, qualquer assunto que possa colocar em dúvida o cumprimento das normas em vigor. Por seu lado, o governo britânico recusou-se a partilhar as alegadas evidências, assim como as amostras do produto alegadamente utilizado. A sua publicitação seria um xeque-mate. Contudo, não o fez, prolongando inutilmente (ou não) uma discussão.

O Reino Unido optou por politizar o assunto e levá-lo ao Conselho de Segurança da ONU, no dia 14. Nesse mesmo dia, já com todas as “certezas”, as autoridades britânicas convidaram a OPWC a levar a cabo uma investigação independente. Com a crise já instalada, a 19 de março – duas semanas após o envenenamento – chegaram ao Reino Unido os especialistas da OPCW. Felizmente que o tema não foi considerado ao abrigo do Artigo V pela NATO, apesar de ser considerado um ataque a um país da Aliança. Um caso baseado em hipóteses e não sustentado em evidências foi rapidamente equiparado a um ato de guerra. Teria sido mais curial esperar pela finalização das investigações. Acusar primeiro e investigar depois não parece ser a prática mais adequada.

Esta questão assume contornos burlescos quando o laboratório científico inglês que fez análises ao sangue dos Stripal concluiu pela exposição a um “nerve agent or related compound”… e as amostras indicaram a presença de um “novichok class nerve agent or closely related agent), não se comprometendo com uma prova irrefutável. Esperava-se que May tivesse promovido uma audição parlamentar ao diretor do laboratório para que este fornecesse todas as evidências e prestasse todos os esclarecimentos, nomeadamente sobre a origem russa da substância, uma prática comum nas democracia avançadas.

Ao contrário do que afirmou Theresa May são muitos os possíveis perpetradores, para além da Rússia, claro está. Naturalmente que a Rússia não poderá ser excluída da lista dos suspeitos, assim como muitos outros, nomeadamente os mais de 300 espiões que constavam na lista que Skripal entregou às autoridades britânicas. Mas a lista de putativos suspeitos não acaba aqui. São conhecidas as ligações profissionais de Skripal a Christopher Steele, e ao seu possível envolvimento no Russiagate. Skripal tinha-se tornado um elemento perigoso que podia causar danos na comunidade de inteligência americana, no Partido Democrata e por aí adiante. Existem vários precedentes similares. As autoridades policiais britânicas, tão zelosas noutras circunstâncias, revelaram-se particularmente descuidadas na proteção dos Skripal.

Não podemos deixar de nos interrogar sobre o que é que objetivamente teria a Rússia a ganhar – a alguns meses da realização do campeonato mundial de futebol no qual investiu avultadas somas de dinheiro para fosse um sucesso – em liquidar nesta altura um simples espião que deixara há muito de constituir um perigo, agravando assim as já tensas relações com o ocidente? A resposta não é evidente. Putin tem provado ser um ator racional. Tendo tido a oportunidade para eliminar Skripal enquanto este permaneceu nos calabouços russos, não o fez, porque o faria agora, depois de este viver oito anos em Inglaterra? É de facto difícil descortinar uma razão (lógica).

A argumentação de May apresenta igualmente fragilidades quando responsabiliza Putin por ter permitido a fuga do gás. Como se sabe, nos tempos da União Soviética, o novichok era produzido no Uzbequistão, fábrica essa que foi desmontada com a ajuda dos Estados Unidos em 1993. Sem salários, a venda de Nnovichok foi uma forma que na altura muitos funcionários encontraram para sobreviver. Dizer que se trata de um gás do “tipo desenvolvido pela Rússia”, não prova que a substância utilizada tenha sido processada na Rússia. Ser atropelado por um Mercedes não significa que a responsabilidade seja “muito provavelmente” do governo alemão.

É desconcertante vir agora o Reino Unido acusar a Rússia de não ter declarado todas as suas capacidades, não cumprindo as suas responsabilidades no âmbito CWC. A ser verdade – o que desconheço – sendo esta informação conhecida antes de 27 de setembro de 2017, a data em que a OPCW declarou a total destruição do arsenal russo, porque é que o Reino Unido não informou a OPCW com base no seu próprio intelligence, que tanto quanto sei tinha a obrigação de o fazer? Seria muito importante ouvir o que os responsáveis britânicos têm a dizer sobre isto.

Para além das questões de natureza técnica apontadas – que não se encontram esgotadas – há várias outros aspetos a relevar. Em primeiro lugar, o rasto de fiabilidade deixado pelos dois personagens responsáveis pela presente crise. Um, ainda ontem fazia campanha contra o Brexit e hoje lidera o processo de separação do Reino Unido da União Europeia, que por sinal lhe está a correr bastante mal; o outro, liderou a campanha contra o Brexit mas depois não quis assumir as devidas responsabilidades colocando a responsabilidade na condução do processo no primeiro. Convém lembrar que o partido liderado por May não tem, nem nunca teve pruridos em ser financiado pelos pouco recomendáveis oligarcas russos que se refugiaram em Londres, transformando a city num enorme tanque de lavagem de dinheiro russo. De acordo com o London Times e o Daily Telegraph, o partido da Sr.ª May terá recebido deles donativos no valor de £820,000.

Em segundo lugar, convém trazer à memória as conclusões do relatório Chilcot aprovadas pelo parlamento inglês, que chamava à atenção para as narrativas deliberadamente exageradas apoiadas em intelligence fabricado à “medida das necessidades” para convencer e receber o apoio das opiniões públicas. Claramente que esta possibilidade não pode nem deve ser descartada neste caso. Terão sido as mesmas fontes – igualmente credíveis – em que se baseiam agora May e Johnson que terão convencido Blair da irrefutável posse de armas de destruição massiva pelo Iraque. São conhecidas as consequências desastrosas dessas crenças sem a devida certificação.

Recordamos ainda o papel desempenhado pelas chamadas empresas de “Strategic Communications” como a Cambridge Analytica e a Strategic Communication Laboratories próximas do partido Conservador e do aparelho militar britânico, contratadas para influenciar a opinião pública levando-a apoiar o Brexit, algo de que apenas se conhece a ponta do iceberg. É pois na palavra destas pessoas que estamos a colocar o nosso futuro coletivo. Fará, provavelmente, algum sentido parar para pensar e refrear os ânimos.

Encontramo-nos numa estrada perigosa. Assistimos a algo que se assemelha ao início de uma guerra. As guerras, leia-se os confrontos militares generalizados, são sempre precedidos por uma escalada que passa pela subida de tom na retórica, a demonização do oponente, o reforço dos dispositivos militares e a conquista da opinião pública para apoiar ações mais assertivas contra o oponente.

Depois é necessário criar um acontecimento, um pretexto que não tem necessariamente de ser causado pelo oponente e que é normalmente provocado por quem pensa que vai beneficiar com o resultado da guerra. Sabe-se hoje quem montou a armadilha que levou à guerra do Vietnam, à guerra espanhola-americana e muitas outras mais recentemente. Por isso, convinha que prevalecesse o bom senso.

Começa a ser claro que o campeonato mundial de futebol será um palco desta luta. Mas enquanto for só isso… a histeria russofóbica faz parte da operação de moldagem das opiniões públicas, preparando-as para o confronto. Com o clima criado poderá nem ser necessário conceber um pretexto. Bastará um imprevisto, um erro de cálculo para nos levar para uma situação sem retorno, fazendo com que a crise político-militar se transforme numa confrontação militar direta. Essa possibilidade afigura-se-nos muito elevada. A nova postura nuclear dos Estados Unidos e a crença de que se consegue manter uma guerra ao nível nuclear tático, sem evoluir para o patamar estratégico e para a destruição total são mais alguns ingredientes que nos devem fazer refletir. A presente crise – real ou fictícia – enquadra-se perfeitamente no modelo. O que está mesmo a fazer falta é testar os efeitos das novas armas hipersónicas.

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16 pensamentos sobre “O caso Skripal e as dúvidas que ainda subsistem

    • É absolutamente ridículo pensar que isso foi administrado pelo Reino Unido.

      Os governos britânicos (ao contrário de Putin) não assassinam seus próprios cidadãos.

      FIFA deve cancelar a Copa do Mundo por causa disso.

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      • Ó boçal os Skripal não são cidadãos ingleses!

        No dia em que a FIFA se preocupar com alegados envenenamentos e mortes NUNCA MAIS FAZ UM CAMPEONATO DO MUNDO!

        És boçal^2

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        • Skripals fez da Inglaterra sua casa em 2010 – portanto, são cidadãos da Inglaterra.

          Se a FIFA cancelasse a Copa do Mundo da Rússia, seria um lembrete histórico da condenação internacional da agressão estatal russa. É melhor remarcar a Copa do Mundo em outro país em 2019. No entanto, recomenda-se que um país anfitrião alternativo para um torneio da Copa do Mundo de 2019 não seja um país europeu – para invalidar as alegações da teoria da conspiração russa. Poderia a FIFA então considerar oferecer o país anfitrião à ex-vice-campeã da Argentina?

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    • O que é que esse link mostra???? Nada. Propaganda ocidental sem qualquer substancia. Só os nabos para nao dizer outra coisa é que acreditam na May. É tão obvio que foi uma encenação, diga-se de passagem uma muito má encenação, que até doi. Mas isso qualquer um vê, só quem nao quer ver, e esses então ou são burros ou estão a armar-se em burros.

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  1. Já começa a haver tanta informação, que qualquer burro europeu ou americano sabe que o suposto envenenamento foi uma encenação montada pela inglaterra, através dos seus serviços secretos para entalar a russia, isso é tão obvio que só burros, mas mesmo muito burros e com palas é que nao querem ver isso. afinal de contas ao dia de hoje quem está a ganhar é a russia, que além de expulsar um numero igual aos dos russos expulsos, expulsou mais 50 dos ingleses, para haver paridade entre as duas nações. Mais uma jogada de mestre de putin, que sempre que há conflitos com o ocidente come as papas nas cabeças do governantes ocidentais, e que mostra agir friamente e racionalmente, mostrando ser muito mais inteligente.

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    • É foda… “que qualquer burro europeu ou americano sabe que o suposto envenenamento foi uma encenação montada pela inglaterra, através dos seus serviços secretos para entalar a russia“!

      Achas mesmo que isto é a REALIDADE? Olha que TODOS OS COMENTADORES que surgem nos meios de merda social (os mesmos que são vistos na ligação que ali deixem em cima) emitem a SUA OPINIÃO ligeiramente favorável à retórica da terrorista May! Até nisto se vê que não não burros, nem se estão a fazer de burros. São meras meretrizes opinantes salafrárias, mas que condicionam a MANADA idiota tuga.

      Se fores questionar pessoal por aí, de certeza que a maior parte das respostas vão coincidir com a propaganda regurgitada pelos meios de merda social tugas!

      A ligação apenas mostra o pânico que está instalado nestes MEGAFONES DA PROPAGANDA relativamente ao facto de estarem a perder o controlo da narrativa e desta forma de controlar e condicionar a MANADA!

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  2. Este post do Gen. Carlos Branco é a primeira coisa escrita em Portugal sobre o acontecido em Salisbury que foi bem pensada, bem estruturada e fundamentada, . Parabens ao autor portanto. As duvidas, muitas duvidas , sobre o que realmente se passou são legitimas. Não é a própria Primeira-Ministra que diz apenas que ” é muito provavel” ter sido a Rússia a mandante do crime? As noticias mais recentes dão conta que Yulia Skripal está melhor e que já fala. Para quem foi envenenada com uma dose cavalar de novichok não está mal. Recordemos que este agente tóxico é considerado ser entre seis a dez vezes mais letal que o VX, aquele que foi desenvolvido nos anos 50 nos vizinhos laboratórios de Porton Down e que foi usado no assassínio do irmão de Jung Kim-un no aeroporto da Kuala Lumpur em Feverreiro do ano passado. Há porém uma explicação para a benevolencia do novichok neste caso: É que é muito dificil de conservar sem que se degrade e que, com o tempo, não perca a toxicidade. Esta explicação é porém extremamente inconveniente pois apontaria para um produto produzido nos velhos tempos da USSR e conservado, (mal), desde essa altura. Meter Putin nessa fotografia tornava-se dificil.
    manuel.m

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  3. Simplesmente exemplar, brilhante. Neste artigo respira-se lucidez, inteligência, bom senso … especiaria cada vez mais rara.
    Jorge Almeida

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