A derrota perpétua do SPD 

 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/02/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

SPD e CDU chegaram finalmente a acordo e agora tudo depende da vontade dos militantes social-democratas. O preço para violar a promessa eleitoral de pôr fim a este entendimento, que levou o SPD à sua mais deprimente dimensão, foi dar-lhe os seis ministérios, entre os quais os dos Negócios Estrangeiros, Finanças e Trabalho. Uma vitória que custará ao SPD mais quatro anos de decadência. Nas sondagens, já estão nos 18%. A irritação na CDU com a perda de lugares, sobretudo depois da despedida Wolfgang Schäuble, é estritamente partidária. Politicamente, só têm razões para celebrar. Continuar com o SPD no bolso é um bom prémio para a perda de lugares.

O reforço do peso do SPD no governo alemão parece alimentar a esperança de alguns europeístas mais desesperados, que procuram tirar leite das pedras. Há quem imagine que a presença reforçada governo num SPD profundamente dividido significará uma viragem na Europa, com Merkel de braço dado a Macron para afastar a União de duas décadas e erros. Acredito que Merkel e Macron acabarão por se entender em alguns avanços na “governação económica” da Europa. o que alguns não parecem perceber, nem como todos os exemplos dos últimos anos, é que uma maior integração tem como contrapartida, tanto para Merkel como para Macron e Schulz, uma maior concentração de poderes políticos nas mãos do centro europeu. As clivagens entre a Alemanha e a periferia europeia não são ideológicas, são de interesses nacionais. E o SPD não propõe nada que represente um corte com o entendimento que Merkel tem da Europa.

O SPD resistiu a renovar o entendimento com a CDU (Martin Schulz teve de desistir da pasta dis Negócios Estrangeiros para ver se convence os militantes) por uma questão de sobrevivência, não por fortes clivagens ideológicas ou sobre a Europa. A CDU quer entender-se com o SPD porque, com a posição crescentemente antieuropeísta do dos liberais do FDP, os social-democratas são os únicos parceiros que sobram. E o SPD deve aceitar este beijo da morte porque o impasse o obriga a isso. O facto de serem os jovens do partido a recusarem de forma mais clara a continuação desta catástrofe é um sinal positivo para o futuro.

A escolha que o SPD teve de fazer não é, apesar da conquista de ministérios, uma ofensiva. É uma desistência. Uma desistência antiga, quando o Gerhard Schröder se tornou no pioneiro do processo de liberalização da economia e do mercado de trabalho alemão. Esse é o drama da social-democracia europeia: foi ela, pelas mãos de Schröder e Blair, que fez grande parte do trabalho sujo inicial. Desde então, todos os entendimentos ideológicos ao “centro” correspondem ao esvaziamento eleitoral e ideológico do centro-esquerda. Por uma razão simples: o centro mudou de sitio. Se, até aos anos 90, era em torno do Estado Social e de uma Europa de convergência que social-democracia e democracia cristã se encontravam, hoje esse encontro faz-se no consenso de sentido oposto. Onde a tradição social-democrata não tem lugar.

Qualquer entendimento entre as famílias históricas políticas europeias faz-se com um total sacrifício da reconstrução de um espaço autónomo à esquerda. Não é por acaso que o PSOE se recusa a participar num governo do PP, que o PASOK se esvaziou até a morte e que um dos poucos partidos da social-democracia europeia que dá sinais de crescimento é o Labor de Corbin, que optou por se distinguir claramente da hegemonia neoliberal, e o Partido Socialista português, que se entendeu com os seus partidos à esquerda.

O reforço do SPD no governo de Merkel não representa uma vitória da social-democracia. Pelo contrário, é a continuação de uma capitulação perpétua que adia qualquer tipo de clarificação política da esquerda euopeia. E tem dois vencedores: a CDU, que vai continuando a sufocar o SPD com o seu interminável abraço do urso, e a extrema-direita, que continua a ganhar espaço na representação do voto de protesto.

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