As eleições alemãs confirmam: será sempre a descer 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/09/2017)  

Daniel

Daniel Oliveira

A CDU de Angela Merkel venceu as eleições alemãs mas foi o partido com a maior queda eleitoral. Caiu quase 9% em relação às eleições anteriores. Não foram as coisas que nos levam a criticar Merkel e o seu ministro das Finanças que ditaram esta queda. Foi aquilo que elogiámos: uma maior abertura para os refugiados e aquilo que os alemães, intoxicados pelo discurso que a própria chanceler foi fazendo no início da crise, pensam ser um excesso de generosidade para com os países do Sul. Uma avaliação, como sabemos nós e toda a gente que conhece bem as vantagens que a Alemanha tirou desta crise, bastante injusta.

Apesar de ter caído menos do que a CDU (perdeu mais de 5%), o grande derrotado destas eleições é o SPD. Até porque confirma uma queda imparável desde 1998, quando teve 41% e Gerhard Schröder tratou do processo de liberalização que a direita agradeceu e aproveitou. O entusiasmo inicial com a candidatura de Martin Schulz foi sol de pouca dura. A aliança com a CDU e a total incapacidade de construir um discurso alternativo a Merkel ditou mais uma queda. A única boa notícia é que esta queda determina o fim de uma coligação de governo que atira todas o discurso alternativo para a extrema-direita. Como em muitos outros países, os social-democratas vão ser obrigados a rever o que têm feito e, esperemos, a regressar aos seus princípios ideológicos fundamentais. Já vários estão a passar por esse processo.

“Verdes” e “A Esquerda” subiram um pouco, mas nada de muito significativo. O que quer dizer que Die Linke segura voto mas não se constrói como partido de protesto. E que os “Verdes” continuarão a surfar no seu oportunismo político, sendo até, neste momento, um provável aliado da senhora Merkel. Para quem se baralha por cá, na Alemanha, na Áustria e noutras latitudes os partidos ecologistas transformaram-se em casas liberais (no pior sentido do termo) equipadas com painéis solares. Já os liberais de nome – o FDP – voltam ao parlamento depois de uma guinada à direita ditada pelo seu novo líder, Christian Lindner, com um discurso mais antieuropeísta e bastante crítico do suposto excesso de boa-vontade com países resgatados.

O grande vitorioso é mesmo o AfD (Alternativa para a Alemanha), uma força de extrema-direita contra os refugiados, a Europa e, de caminho, os parasitas do Sul. Com uns assustadores 13%, é uma estreia em grande, sendo a primeira vez depois da Segunda Guerra que a xenofobia alemã volta ao Parlamento. As declarações feitas pelo líder da CSU, a versão bávara dos democratas-cristãos, depois de conhecidos os resultados eleitorais já tornaram claro que rapidamente infetará a CDU. Horst Seehofer defendeu que se avancem com políticas “que garantam que a Alemanha continua a ser a Alemanha”. Ou volta a ser a Alemanha que tantas vezes conhecemos, diria eu. Pelo menos a melodia começa a ficar parecida.

Chega a ser impressionante como a cada eleição na Europa se confirma, por vezes por razões diferentes, as mesmíssimas tendências. Onde está o poder europeu, é este o caminho. Antes de tudo, a redução do peso político do centro. Um esvaziamento que ou é mais profundo ou, não o sendo, é mais constante e continuado, no centro-esquerda – a CDU perdeu mais do que o SPD mas este vale hoje metade do que valia há duas décadas. Este esvaziamento acontece sobretudo nos países onde os partidos socialistas e social-democratas mantiveram a velha aliança ao centro. Uma aliança que, com o afrouxar do Estado Social, o fim do perigo comunista e a mudança do projeto europeu é hoje anacrónica e deixa para a extrema-direita a representação do descontentamento, empurrando-o para o ódio às minorias. E essa é a outra tendência: o crescimento da extrema-direita.

Estes resultados eleitorais explicam uma coisa: o nosso problema não é Angela Merkel. Como percebemos pela incapacidade do SPD fazer um discurso diferente da CDU sobre a Europa, como voltamos a perceber pela opção compensada pelos eleitores de partidos como o FDP serem mais críticos em relação a qualquer gesto de solidariedade europeia e como confirmamos pelo resultado assustador da AfD, os alemães querem pior do que temos. Querem ainda menos solidariedade europeia. Já para não falar do que querem em relação aos refugiados. E isso acabará inevitavelmente por ter repercussões no que a Alemanha quererá em qualquer reforma das instituições europeias.

O que mais relevante se pode dizer destas eleições, para além do regresso do fantasma do ódio ao Bundestag, é que o projeto europeu está condenado a ser cada vez mais o que não queremos dele. Porque há coisas que se estão a quebrar no que ele pretendia ser desde Maastricht. Coisas que uma moeda única absurda, mal preparada e voluntarista acabou por acelerar e que a crise financeira tornou evidente e irreformável. Sim, a União pode mudar e aprofundar-se. Mas o que mudará, com a pressão dos próprios eleitores alemães e franceses, tenderá a deixar-nos cada vez mais para trás.

Houve um tempo em que considerámos que Merkel era o nosso problema. Depois passámos a achar que ela era o mal menor. Tínhamos razão das duas vezes. Apenas baixámos a fasquia da nossa exigência. E será esse o europeísmo que nos resta: sempre a descer.


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Um pensamento sobre “As eleições alemãs confirmam: será sempre a descer 

  1. NACIONALISTAS EUROPEUS: RETIREM AS PALAS DE BURRO QUE TÊM ENFIADAS NA CABEÇA!
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    —»»» Reconheçam que o problema é global: QUALQUER POVO AUTÓCTONE do planeta que queira ter o SEU espaço no planeta, que queira sobreviver pacatamente no planeta, que queira prosperar ao SEU RITMO… corre sérios risco de levar com um genocídio em cima!
    Um exemplo: em pleno século XXI tribos da Amazónia têm estado a ser massacradas por madeireiros, garimpeiros, fazendeiros com o intuito de lhes roubarem as terras… muitas das quais para serem vendidas posteriormente a multinacionais (uma obs: é imenso o património no Brasil que tem estado a ser vendido à alta finança).
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    É NECESSÁRIO MOBILIZAR RESISTENTES AUTÓCTONES DO PLANETA PARA O SEPARATISMO!
    (manifesto em divulgação, ajuda a divulgar)
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    UM PROBLEMA GLOBAL -» mercenários (ao serviço da alta finança), aspirantes (a donos-disto-tudo) e penduras (lambe-botas) estão repletos de hitlerianismo: não suportam a existência de outros!
    [nota: nazi não é ser alto e louro, blá, blá… mas sim, a busca de pretextos com o objectivo de negar o Direito à Sobrevivência de outros]
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    Os MERCENÁRIOS ao serviço da alta finança (capital global) trabalham para a eliminação de fronteiras: a alta finança ambiciona terraplanar as Identidades, dividir/dissolver as Nações para reinar…
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    Os mercenários gostam de evocar (como se tal fosse o único valor existente no planeta) que o SEPARATISMO vai provocar problemas económicos.
    Na sua cegueira anti-Trump (tocou no tema-tabu -» fronteiras), os mercenários chegaram ao ponto de andar a evocar a imigração para a América… quer dizer, ao mesmo tempo que eles andam por aí a acusar povos de deixarem ‘pegada ecológica’ no planeta, em simultâneo, os mercenários revelam um COMPLETO DESPREZO pelo holocausto massivo cometido sobre povos nativos na América do Norte, na América do Sul, na Austrália, que (apesar de serem economicamente pouco rentáveis) tiveram o «desplante»… de quererem ter o seu espaço no planeta, de quererem sobreviver pacatamente no planeta, de quererem prosperar ao seu ritmo.
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    ASPIRANTES: pessoal dotado de uma elevada taxa demográfica… ambiciona/aspira ser dono-disto-tudo.
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    PENDURAS: na Europa existem muitas comunidades nativas penduras -» não trabalham para a sustentabilidade da sociedade (média de 2.1 filhos por mulher)… penduram-se na boa produção demográfica de outros!
    [e mais, os penduras ao mesmo tempo que são contra a repressão dos Direitos das mulheres, em simultâneo, são uns lambe-botas da boa produção demográfica daqueles que tratam as mulheres como ‘úteros ambulantes’ – exemplo: islâmicos]
    {Os penduras são uns lambe-botas dos aspirantes a donos-disto-tudo e da alta finança}
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    —»»» Todos Diferentes, Todos Iguais… ou seja, todas as Identidades Autóctones devem possuir o Direito de ter o SEU espaço no planeta -» inclusive as de rendimento demográfico mais baixo, inclusive as economicamente menos rentáveis.
    -» Os ‘globalization-lovers’, UE-lovers e afins, que fiquem na sua… desde que respeitem os Direitos dos outros… e vice-versa.
    —» blog http://separatismo–50–50.blogspot.com/.
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    Nota: Os Separatistas-50-50 não são fundamentalistas: leia-se, para os separatistas-50-50 devem ser considerados nativos todas as pessoas que valorizam mais a sua condição ‘nativo’, do que a sua condição ‘globalization-lover’.

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