Macromania

(Francisco Louçã, in Público, 14/07/2017)

LOUCA1

(Quando ouço falar em “homens providenciais” e em “salvadores” da Europa, puxo logo da pistola… 

Estejam descansados, não veio de Tancos. 🙂

Estátua de Sal, 15/07/2017)


A macromania é um dos iô-iôs mais demonstrativos da meteorologia política europeia. Há umas semanas, os euro-institucionalistas anunciavam a catástrofe iminente e declaravam-se sem meios de a esconjurar: em poucos dias, ou em poucas semanas, segundo as versões, a União entraria na sua derrocada moral ou no abismo sem regresso, sendo irreversível o “esboroamento” e as “crises sufocantes”. Agora, bastou uma parada solene nos Campos Elísios no dia da tomada da Bastilha e ao lado de Trump e Merkel, e temos de novo a redenção à vista.

Desde a vitória eleitoral de Macron em França, esse discurso salvífico foi relançado com um alívio indisfarçado. Maria João Rodrigues, uma europeísta experiente, anunciava no Expresso que “finalmente – ao fim de oito anos – surge alguma luz ao fundo do túnel da zona euro”, e retomava o menu já conhecido, toca a completar a União Bancária. Aqui no PÚBLICO, um escritor austríaco, Robert Menasse, explicava como foi crítico da União e se converteu, deliciado, compreendendo que é preciso matar a democracia nacional para haver ordem europeia. Todo este triunfalismo e mesmo o atrevimento vem da vitória de Macron.

Ele é o homem de que a Europa precisa, ele é o homem da parceria com a Alemanha, ele é o homem das soluções. Será mesmo? Permitam-me a desconfiança, é que já me deram este golpe, com Hollande foi exactamente este guião. Será agora o resultado diferente?

Responde Assis que sim: ele “impõe-se categoricamente pela coragem com que afirma, entre outras coisas, as suas posições pró-europeístas e a sua vontade de romper com os anquilosados reflexos corporativos que quase paralisam a sociedade francesa”. Mas acrescenta logo que Macron tem “uma certa tendência para a exaltação de um populismo tecnocrático e para a constante manifestação de um narcisismo adâmico geram um sentimento de alguma repugnância”.

Alguma repugnância? Ver Macron a desfilar entre gendarmes de espada perfilada em Versalhes e a falar da “grandeza” da França é somente banal. O que é mais revelador é o contorcionismo político de um homem que há dois anos explicava que o que falta em França “é a figura do rei, cuja morte creio que, fundamentalmente, o povo francês não desejava” (é mesmo a Luís XVI que se refere!), e que se lança agora no projecto de remodelação das relações sociais que a direita sempre temeu promover ou a que faltaram forças para impor.

Uma e outra, a figuração presidencial no registo monárquico por parte de alguém que se faz alcunhar “Júpiter” entre os funcionários do palácio, e a ambição de destroçar a contratação colectiva e a organização sindical, impondo uma negociação na empresa onde os trabalhadores são mais vulneráveis, revelam uma forma de governar: cesarista e autoritária.

Resultando de um saldo eleitoral tão magro, pois os votos de confiança em Macron foram 24% na primeira volta das presidenciais e depois cerca de 30% na primeira volta das legislativas (com mais de metade de abstencionistas), estas vitórias deram-lhe uma esmagadora supremacia institucional, com dois terços do parlamento, através do truque do sistema eleitoral. Mas não lhe deram a supremacia social. Uma parada não resolve a França.

Nem a Europa, já agora. Prometia Macron um novo ministro das finanças e um orçamento europeu, tudo armado por convenções em cada país a partir do próximo janeiro. Ministro talvez consiga, para habituar os países à ideia de um governo europeu, mas esse será mais um instrumento de divergência. Tudo o resto é entretenimento, se não for, como anunciou o pomposo Menasse, para matar as democracias na Europa.

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8 pensamentos sobre “Macromania

  1. Pois, ó Francisco, li-te e
    «compreendi-te»,
    e por isso
    (recordando cenas do querido e saudoso Vasco, que aqui quero encarnar, dirigindo-me, neste diálogo que, com mais esta tua douta prosa, tu iniciaste, ao não menos saudoso Silva (nada daquele triste e miserável de espírito, um tal sr silva de má memória, o saloio do pide de Boliqueime, figas canhoto/diabo…., mas do nosso querido António),
    «muitagradecido»
    Mas, sobre o capitalismo,
    esse hediondo sistema que há mais de 400 anos invadiu, sob o manto dos “descobrimentos”, ocupou, desrespeitou, abusou, explorou, roubou, prendeu, escravizou, deportou, matou, dizimou, dividiu países contra a vontade dos povos; fez duas guerras mundiais e sem número de guerras regionais de que ainda hoje há milhões de vítimas a sofrer, por exemplo, do napalm utilizado, onde morreram milhões de seres humanos inocentes; provocou duas crises económicas profundas que provocaram mais uns milhões de mortes, tendo saído da de 1929 graças a um teórico burguezote que, trazendo para a lide as novas teorias económicas que elaborou, lhe deu a receita milagrosa que, fundamentalmente, consistiu em pôr o Estado a intervir directamente na economia, salvando assim o hediondo sistema, então já quase em agonia profunda, para que, apenas dez anos depois, fizesse surgir a II Guerra Mundial, voltando a matança, ou as matanças, pois revestiram formas diversas que não apenas as dos combates; ainda não conseguiu sair desta segunda e já lá vão quase dez anos, porque não aparecem “salvadores” tipo Keynes, e não aparecem, porque as teorias burguesas, ao que é suposto, devem estar esgotadas, e enquanto o “titanic”, tendo agora aos comandos uma equipa, que foi remodelada com as três recentes aparições, de onde sobressaem quatro destacados figurantes, agora em quotas iguais de género, a saber: na velha “Triarquia Europeia” como assim a designou o também saudoso Moses Hess já em 1841, juntaram-se, à diligente, prodigiosa e já quase cansada Angela à frente da “pátria de ideias e campeã da liberdade religiosa”, mais duas figuras (ambas como corolário de acidentes políticos domésticos), a da pedante e sempre cuidadosamente penteada May, que chefia o governo na “pátria da liberdade económica e, além do mais, síntese ela própria do espírito francês e alemão”, e o Macron, um puto(zeco) enquanto derradeiro parto gerado e criado por umas elites em acentuada decadência moral, ética e política como corolário das enormes quanto profundas contradições entre a palavra e os actos, numa França que, desde há muito, vinha sendo um “campo de batalha em que uma efectiva reforma social e independência política tinham sido conquistadas”, fustigada pela irresponsabilidade dos “socialismos em liberdade” e das “democracias tipo ocidental” (quão envergonhados em lhe chamar pelo verdadeiro e único nome/designação, ao contrário do que, nós Ribatejanos, costumamos fazer sempre que temos que falar de um boi, e a fazerem lembrar-me uns tais “bloquistas” que se reclamam de esquerda logo no nome/apelido, mas que não aceitam enviar deputados seus a Cuba, em representação do Parlamento Português – eleito democraticamente nessa “democracia” que tu, ó Francisco, também abraçaste e alimentas –, aquando de visitas de Estado que os mais altos representantes do Estado Português decidem fazer visando uma maior aproximação e cooperação dos Povos a caminho do progresso e da paz), e ainda com a entrada de um irresponsável pato Donald, rei e senhor da ainda maior potência bélica e económica, tripulação esta em que estas quatro figuras se constituíram nos manobradores da referida “embarcação”, que mais parece continuar a navegar à vista (por mares cada vez mais confrontados com temerosas tempestades e fortes rajadas de vento e onde, aqui e ali, tal como há séculos atrás os “piratas do mar” faziam às “caravelas do Gama” e não só, sabem que podem surgir “terroristas de inspiração norte-americana”/EIIL/ISIS/DAESH), a caminho de um não menos enorme “iceberg”, tal como o famoso, enorme, maior e mais luxuoso e até então tido por inafundável TITANIC, cujo fim todos conhecemos e até em cinema pode ser reproduzido.
    E sabe esta estouvada equipa que, tendo contado com a inestimável colaboração destes “istas” todos de boca [socialistas, bloquistas, comunistas adjectivados, sociais democratas, liberais, neoliberais, economia de mercado, iniciativa privada como motor da economia, mundo livre, toca de ilustres e medalhados CEOs pornograficamente remunerados, etc., etc., em que as referências identificadoras principais são o PSI20, o Dow 30, o S&P 500, o Nasdaq, o Russell 2000, o Ibovespa, o CAC 40, o Euro Stoxx 50, o IBEX 35, o Shangai, o Taiwan Weighted, o Nifty 50, o China A50, e tantos outros, ao contrário dos perigosos comunistas que, esses, têm, como nunca esconderam, rosto e nomes próprios, desde Jesus de Nazaré, passando por François Babeuf (Gracchus) – ambos condenados à morte e executados aos 33 e 36 anos de idade, respectivamente, por se colocarem ao lado dos “de baixo” –, o grande Mestre Karl, o elegante Engels, o incansável Vladimir, o guerrilheiro Fidel, o comandante Che, etc., e sempre deram a cara, curiosamente, dos citados, todas com barbas], este “titanic” continua a deixar à sua ré (alimentando-o, criminosamente, e nas barbas de um luso católico apostólico romano praticante que gira sob a sigla de Guterres, enquanto vértice da pirâmide que chefia, recebendo um salário não menos pornográfico, e, como é do domínio público, onde estão representados 193 países), um oceano imenso de “dejectos” como, pomposa quanto burguezotamente, um desses intelectualóides inteligentes que “andam por aí” já se permitiu aqui assim os designar, oceano esse que, depois dos mais de 400 anos que eu não me afadigo de relembrar, teve já como resultantes, que, hoje 1% da população do planeta detenha tanta riqueza quanta a detida pelos 99% restantes, as 7, apenas sete, famílias mais poderosas já controlam 50% da riqueza do planeta, morrem 17 crianças em cada minuto que passa, por fome e subnutrição, morrem não se sabe bem quantas pessoas no Mediterrânico, mas são muitos milhares, os refugiados são incontáveis, o ambiente no planeta vai-se degradando e os riscos de uma catástrofe que pode conduzir à submersão de grandes áreas povoadas e até, em última análise, à inexistência de oxigénio sem o qual, a vida não será mais possível, escutando e ou lendo um outro Francisco, quem diria ó Francisco a quem te acusam de “rabaça”, um papa da ICAR, que, talvez por estar na moda, penso eu, mas tu saberás justificar pois também aderiste à dita, não lhe chama capitalismo, preferindo antes designá-lo por «sistema mundial a nível económico», ou, em outros passos, «sistema económico que … já não se sustém», e vai constatando, afirmando-o de viva voz e para quem o quer escutar, que o dito cujo é um sistema que «para se manter e equilibrar, tem de fazer uma guerra», que «descarta as crianças, descarta os velhos, descarta os jovens», que, só na Europa, já fez «75 milhões de desempregados com menos de 25 anos», fala ainda em EGOÍSTAS, quando se refere às pessoas que, podendo fazê-lo, não se empenham na política em prol do bem comum, e com todas as letras, meu caro Francisco Louçã, o meu amigo “Xico” afirma que todas as pessoas que usam a política “para proveito próprio” são CORRUPTAS!….
    Mas, regressando às saudosas figuras dos meus amigos Vasco e António que a leitura deste teu texto me trouxe à memória e que no início citei, falando-te do capitalismo, eu agora apetecia-me tocar nele e perguntar-te:
    «ó Francisco, tens cá disto?»
    É que, desse jeito – por omissão, o que dá um certo jeito aos capitalistas envergonhados pelos pesos que transportam nas suas consciências de vampiros – as pessoas, o Zépovinho em geral, qualquer dia só sabem que a peçonha lhe acaba quando o bicho morrer. Porque ao lerem também os teus doutos escritos, no meio de tantos vocábulos, e desta vez escreveste mais de 580 palavras, não conseguiste arranjar, por uma vez que fosse, lugar para a palavra “capitalismo” ou “capitalistas”.
    Ou então, ó Francisco, “erros meus, má fortuna, ódio ardente”!…
    Estou seriamente a pensar em não perder mais tempo nas redes sociais, pois estou a sentir-me cansado e a ficar bastante isolado, porque as poucas teclas em que me dá algum gozo tocar, sem receber um cêntimo em contrapartida quando aqui escrevo, ou em outros lugares, devo confessar também por ser verdade, não são repetidas por quase ninguém, raros são os comentários, enfim, creio que será melhor passar a massajar o meu ego ocupando-me da poesia, e até já pensei em dar o meu humilde, quanto modesto/pequeno contributo à continuação da obra do nosso querido e saudoso Zeca (ouso supor que te posso incluir neste meu “nosso”), se bem que não seja tarefa fácil, mas valerá pela intenção e esta visará, em última análise, concretizar aquelas cenas que ele descreveu naquela canção que titulou por “O que faz falta”, e nessa de avisar a malta e vou sentir-me bem, tenho a certeza.
    E, a propósito desta minha outra veia, ainda que em bom rigor e para ser mais coerente eu deveria escrever veia(zeca), à semelhança do que escrevi atrás e sempre que posso escrevo, onde, só por coincidência surge o termo “zeca” mas aqui como sinónimo de pequenez porque para o no ZECA eu escrevo em maiúsculas enormes, só que aqui na Estatuadesal não se nota, e a propósito, escrevia eu, vou deixar-te aqui uns versos que em tempos escrevi, em vésperas de umas legislativas e inspirado por uma célebre frase que ex-secretário de estado da cultura, também ele de nome Francisco mas de apelido Viegas tinha dito a alguém que lhe perguntara sobre como reagiria se, à saída da pastelaria, um fiscal do fisco lhe pedisse para mostra a factura do café, e cuja resposta eu utilizei no último verso.
    Naturalmente que não quero que penses, ó Francisco, que a carapuça te serve, de todo. Mas dando corpo às minhas preocupações com a tua adesão à sistemática omissão do vocábulo capitalismo ou capitalista nos teus escritos, naqueles que eu vou lendo, claro, decidi substituir a resposta que o Viegas disse que dava, no último verso, por uma outra expressão que, esta sim, se pode ajustar a este teu douto texto. Se não, repara:

    Cessem, de todo o sábio político e burguês,
    Os poderes que com promessas vãs têm alcançado;
    Cale-se de comentadores jornalistas e tê vês
    A fama das grandes vitórias que lhes têm dado;
    Que aqui recantarei o peito ilustre Português
    Que vergou Caetano e Spínola – o alucinado.
    E que cesse tudo dos saudosos do que então ruiu,
    Porque novas e gloriosas portas Abril abriu.

    E Vós, meu Povo humilde, que de tanto explorado,
    No campo na mina na fábrica no escritório
    Na escola na universidade ou desempregado,
    Que vais resistindo aos algozes desse relambório,
    Mesmo que sejas idoso ou estejas emigrado,
    Não queiras dar de novo para esse peditório.
    Dos incomensuráveis logros dos “do arco” sabes Tu
    Pelo que deverás gritar bem alto que o Rei vai nu!

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