Macron é trendy

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/05/2017)

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Da necessidade de derrotar Le Pen nasceu um boneco. Mesmo tendo vencido com os votos da esquerda que o despreza e sendo o candidato que menos entusiasmava os seus próprios eleitores, o coro de papagaios que enche o eco televisivo transformou-o numa esperança. Ex-banqueiro, ex-relator de Sarkozy, ex-conselheiro de Hollande, ex-ministro de Valls, o oportunista saltitou até ao céu sem compromissos. “Eu reivindico a imaturidade e a inexperiência política”, gritou para uma plateia embrutecida pela aldrabice populista do candidato antissistema que o sistema adora. Fazer um caminho político passando por várias eleições é coisa “de um tempo antigo”, disse. E Macron é uma coisa do futuro, onde os partidos são startups e os presidentes melões por abrir. Jovem, belo, impecavelmente vestido, tudo nele é moderno. Em entrevistas sobre negócios usa, num inglês irrepreensível, os termos da moda. Tem a lábia de vendedor de oportunidades que deslumbra qualquer “colaborador” num fim de semana de team building. Faz parecer revolucionária a certeza de que tudo vai ficar um pouco pior. Tudo nele cheira bem. Cheira a Uber, que ele acredita ser uma excelente solução para os jovens desempregados, que não querem patrões, querem clientes. Macron não é um político. É uma app. Sempre em atualização.

Há uma esquerda que está fascinada com Macron. Carregou estes anos todos o fardo da gente pobre, feia e ignorante que lhe baralhava a pós-modernidade. Os fascistas que fiquem com esses medrosos do mundo. Agora há um povo limpo e novinho em folha: o “povo europeu”. Dito assim parecem muitos, mas trata-se de um grupo seleto. Uma vanguarda que se sabe do lado certo da História. Esta esquerda, cansada das contradições da vida que nos fazem perceber que o oprimido na fábrica pode ser opressor da mulher, trocou o socialismo pela “modernidade”. Que já não se aguenta a luta de classes, com os seus garrafões e as suas barrigas e as suas palavras de ordem monótonas. Como Macron não é nem racista nem homofóbico, muito pelo contrário, pode entregar a destruição do Estado social a um homem que pelo menos é civilizado. Esta esquerda pensa-se representante de uma nova geração e não compreende a injustiça de os jovens terem votado mais em Le Pen e Mélenchon do que no CEO da startup em marcha. Também há uma direita que adora Macron, mas isso é normal. Afinal de contas, ele é um ex-ministro socialista que diz que a França falhou porque não fez as reformas de Thatcher nos anos 80 e que se oferece para neutralizar os socialistas por muitos anos. Livre dos beatos de Fillon, ele trata do que interessa: do poder do dinheiro. Macron não deu um rosto humano ao neoliberalismo (palavra velha e descontinuada da esquerda mélenchista e frondeur), que isso seria pedir muito. Deu-lhe um rosto trendy. As “reformas estruturais” estão a usar-se imenso este ano.

Como muitos jovens eleitores franceses, que não acham que conduzir um carro por tuta e meia faça deles empreendedores, também não me impressiona este futuro.

Não terá grande glamour, mas a minha prioridade são os perdedores da globalização. Porque a democracia precisa de responder à sua zanga e porque o papel da esquerda é não deixar para trás a maioria. Macron, que nem é carne nem é peixe mas é seguramente um transgénico, representa tudo o que me enjoa nestes e noutros tempos.

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5 pensamentos sobre “Macron é trendy

  1. O sr Daniel Oliveira escreve contra Trump, contra Marine Le Pen e ainda não li uma linha contra Nicolás Maduro. Bem sei que custa muito escrever contra os “nossos irmãos” mesmo que eles sejam assassinos ou desrespeitadores da democracia mas acho que há que ser coerente.

    Trump e Le Pen ainda não mataram ninguém e Maduro tem a Venezuela a ferro e fogo e acho que o sr Daniel Oliveira deveria ver que Maduro é igual a Videla e quejandos que matam para se perpetuarem no poder.

    Cumprimentos

    Júlio Fernandes ᐧ

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  2. A TV mostra Maduro e é logo assim mesmo. Não se lê mais nada ,nem se ouvem os parentes de Caracas.
    Quanto a Macron representa a Alta Finança e o fim do Estado Democrático. A França depois dirá de sua justiça.

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