Adversários convenientes

(Daniel Oliveira, in Expresso, 29/04/2017)

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Já não há esquerda nem direita, dizem Macron e Le Pen. A divisão é entre “globalistas” e “patriotas”, grita Le Pen. É entre “europeístas” e “nacionalistas”, concorda Macron. É a dicotomia que interessa aos dois e por isso Macron é o adversário ideal para Le Pen e vice-versa. A Le Pen, esta dicotomia simplista permite ficar sozinha na contestação ao “sistema”, conquistando todo o eleitorado que não acredita nesta União e nesta globalização. Para Macron, até dificulta a reedição da frente democrática que, em 2002, se uniu contra o pai de Marine. Mas, a médio prazo, ajuda a reconstruir, em torno de um suposto “europeísmo”, o centrão que gerou e geriu a crise e que está em forte desgaste. O centrão que impôs, também através da União Europeia, a contrarreforma social de que a Lei Macron, aprovada por decreto contra parlamento, foi só mais um episódio. Macron representa a derradeira aliança entre a terceira via e os neoliberais num reduto final e unificado de resistência do “sistema” ao cerco em que hoje vive. Para reconstruir este espaço interessa-lhe, mais do que uma frente democrática, uma capitulação do flanco esquerdo. Aquele que não desistiu de representar os excluídos da globalização e tem de gerir uma posição muito delicada nesta segunda volta: nem ser responsável pela vitória de Le Pen, nem legitimar o programa de Macron.

Ao se resumir tudo a uma clivagem entre “Nação” e “Europa” não se põe apenas a esquerda eurocética no mesmo saco que a extrema-direita. Põe-se a esquerda europeísta no mesmo saco que a direita liberal. Em todos os combates sociais dos próximos anos, de todas as vezes que Bruxelas sirva para aplacar os direitos dos trabalhadores e impor a lógica da concorrência aos serviços públicos, quando os eurocratas imponham a cada país a agenda que Macron abraça com entusiasmo, sempre que esteja dividida entre as suas convicções políticas e a preservação de um projeto que já não inclui os seus valores, será obrigada a escolher o combate que decidiu ser prioritário: a defesa da União Europeia, seja ela o que for e para o que for. Comporta-se como o náufrago que se agarra a um crocodilo para se salvar. E aceita, já está a aceitar, que o futuro não oferecerá melhor do que o programa de Macron. Não desistindo da Europa, desiste de tudo o resto.

Mesmo fora de França, onde o voto útil não é necessário, somos instados a escolher: neoliberalismo ou xenofobia? Não pensem, não hesitem, limitem-se a apoiar o que nos levou até aqui. Ou isso ou o fascismo. Mas só há uma forma de vencer Le Pen: perceber o que está a fazer crescer este monstro e combatê-lo a ele e às suas causas.

Deixando sempre claro que para lá de Le Pen não é tudo a mesma coisa. É isso mesmo que a extrema-direita quer: ficar sozinha na contestação ao caminho que estamos a seguir. Perante a possibilidade de Le Pen ganhar, acabaria, se fosse francês, por ser obrigado a votar no programa político que está a destruir a Europa, desta vez preconizado por um ex-banqueiro, apoiado por Schäuble. Mas reafirmando que ele representa, nas suas propostas, na sua ação governativa, no seu currículo de promiscuidade entre o Estado e a banca e no seu oportunismo político, a doença de que Le Pen é o sintoma. Não se pode permitir que a inevitável lógica do mal menor nos faça esquecer isto. Que não há só dois lados.

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