O tavarismo

(Por Pedro Marques Lopes, in Diário de Notícias, 23/04/2017)

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Num artigo publicado na terça-feira no Público (Ver aqui), o comentador João Miguel Tavares insinua que eu e três jornalistas escrevemos o que o presidente do conselho de administração da Global Media nos manda. Além disto, JMT acha ainda que defender princípios básicos de um Estado de direito significa apoiar a corrupção e a miséria moral.

Vamos por partes.

O JMT insinua que três jornalistas com longas carreiras seguem as ordens de um administrador, que não são editorialmente independentes nem escrevem artigos de opinião seguindo o seu próprio juízo e pensamento. Ele conhece a gravidade desta miserável insinuação, que atenta contra a dignidade profissional desses três homens. Eles não precisam que eu os defenda; mas há, porém, um detalhe curioso. JMT, noutro artigo, acha que o diretor adjunto do DN fez perguntas macias a Dias Loureiro – acusação injusta e que se esquece de fundamentar. Mas se julga mesmo isso seria interessante saber o que pensa da qualidade das perguntas que os jornalistas da TVI fizeram a Sócrates nas várias entrevistas que este deu ao canal. Estranhamente, nunca se ouviu a JMT um comentário sobre o assunto, nem em crónicas nem naquele programa da TSF em que participa e que por acaso passa na mesma TVI. E como sabemos a atenção com que JMT segue todas as intervenções do ex-primeiro-ministro… ou estava distraído ou não as viu ou então achou-as incrivelmente duras, como ele gosta.

Já eu, insinua JMT, só escrevi o artigo de 9 de abril – sobre o arquivamento do inquérito a Dias Loureiro e no qual pela enésima vez afirmo que algo está muito errado na nossa justiça – por ter recebido uma espécie de ordem de Proença de Carvalho. Poderoso homem que não só me dá ordens para eu defender Dias Loureiro como, claro está, para defender Sócrates, essa árvore das patacas de JMT.

A coisa é tão desonesta e baixinha que até custa a responder, mas, desta vez, JMT preferiu escrever o meu nome em vez das indiretas que de vez em quando me dirige. JMT sabe que o que escrevi nesse dia é o que venho escrevendo e dizendo em jornais, TV e rádio há muitos anos, antes de haver Operação Marquês. Mas não resistiu à insinuação que sabe ser caluniosa. Disse, no fundo, que escrevi a pedido, não porque em consciência ache que eu ande às ordens de quem quer que seja, mas porque não gostando das minhas opiniões sobre assuntos da justiça e outros que tais quis descredibilizá-las atacando a minha dignidade e a minha honra. O que diz muito sobre o carácter de quem faz a insinuação.

Mais tarde, noutro artigo do Público, tendo sido confrontado pelo diretor do DN com o facto de que mais colunistas, noutros órgãos de informação, formularam opiniões parecidas com a minha e com a de dois jornalistas do DN, JMT lança o argumento que lhe serve para tudo: esses também querem é defender o Sócrates. Pobre JMT: obcecado que está por Sócrates, não consegue perceber que há quem não sofra da mesma patologia, e portanto não divida o mundo entre pró-Sócrates e contra-Sócrates; como só consegue raciocinar e argumentar ad hominem, é-lhe, pelos vistos, impossível imaginar que possa haver quem defenda princípios independentemente de a quem estes, conjunturalmente, possam parecer favoráveis.

Para defender esta sua abordagem, JMT argumenta que há para aí uns princípios que só são válidos no reino do abstrato e quem os enuncia – para os defender, bem entendido – está a colaborar para “manter o lastimável currículo português no combate à corrupção” e “é cúmplice do estado moralmente miserável em que nos encontramos”.

E que são esses tais princípios contra os quais ele, neste e noutros textos, direta ou indiretamente se insurge? Trata-se, entre outros, da presunção de inocência, da não inversão do ónus da prova, do direito ao bom nome, da necessidade de haver provas suficientes para condenar alguém e de que a função do MP é acusar ou arquivar – não condenar.

Surgem três hipóteses. A primeira: o JMT não sabe que esses princípios são pilares fundamentais de um Estado de direito e de uma democracia liberal. Confesso que tenho alguma dificuldade em imaginar que alguém com tanta notoriedade e com tanto espaço nos media não saiba isto, mas a ignorância nunca deve ser desprezada.

JMT não saberá, mas aqueles princípios que ele depreciativamente chama de abstratos têm de ser, num Estado de direito, mesmo abstratos e gerais: são para todos (e não para as pessoas que JMT decidir) e para todos os casos que se encaixem na norma (e não para os casos que JMT quiser).

A segunda hipótese é a de que conhece os referidos princípios, mas não quer saber deles, rejeita–os. Nesse caso, não é um defensor do Estado de direito e da democracia liberal. Ou acha que é ele ou quem pensa como ele que deve definir a quem estes princípios se devem aplicar. Um estado Tavares com Tavares a definir quem são os culpados e os inocentes – o tavarismo, ou a tirania Tavares.

A terceira hipótese é a de que sabe o que é o Estado de direito, gosta da democracia, mas dá-lhe jeito dizer que isto é tudo uma farsa, que isto dos princípios é uma malandrice para os ricos e poderosos se safarem. Porque sabe que isso lhe garante palmas; sabe que de cada vez que ataca as regras básicas do Estado de direito há uma multidão de injustiçados pela vida, legitimamente revoltados com a corrupção e desmandos, que, por desespero e ignorância, o aplaudem. JMT sabe que se desprezassem os tais princípios abstratos essas mesmas pessoas teriam uma vida pior, ficariam expostas a um qualquer déspota, veriam os seus direitos despedaçados. Mas quer JMT lá saber disso; o seu discurso dá-lhe palco e luzes, faz dele uma pessoa popular. Vive desse reles foguetório.

Preferia acreditar que JMT defende o que defende por ignorância ou por não acreditar no Estado de direito, mas não me parece que seja, infelizmente, o caso.

Espero que viva bem com a sua consciência e que o mundo que ele afirma desejar nunca chegue.

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7 pensamentos sobre “O tavarismo

  1. O JMT é um idiota! Deixei de ver o “Governo Sombra” por causa da imbecilidade dessa criatura e tenho pena que dois homens inteligentes como Ricardo Araújo Pereira e o Mexia tenham que estar lado a lado, todas as semanas, com essa “coisa”…

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  2. Perder tempo com minudências em termos de justeza moral é deitar perolas a porcos, caro Pedro Marques Lopes. Esse rapazola, patético e irazoável continua a ter tempo de antena porque os midia de hoje se dividem em dois grupos apenas (social-democracia e fascistoides) esquecendo que há gente séria além dos sociais democratas. Infelizmente JMT é além de atrasadote mental um fascistoidezito de trazer por casa.

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  3. JMT vive bem com a sua consciência porque, quando eventualmente percebe que foi demasiado longe nos seus delírios, vai a correr confessar-se e pronto, fica limpinho. A tática deste grupo organizado é acusar de imediato quem tem a coragem de defender a isenção e a justiça, de corrupto ou pedófilo Este traste é uma pessoa altamente perigosa.

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  4. Para mim que já questionei JMT, comparando o jornalismo dele hoje, com aquele que foi uma grande figura do jornalismo no tempo da censura e que lutava pelos seus ideais da liberdade sem medo, falo de Raul Rego, esse hipócrita do JMT, respondeu-me por mail, titubeando dando a entender que eu talvez tivesse razão. Neste aspeto não sai ele ao pai que embora eu discordando nalgumas coisas que escreve, escreve com consciência daquilo que diz. Dou que JMT é um psicopata, doente mental que nada daquilo que escreve serve para alguma coisa.

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