O tempo do patrão

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 05/01/2017)

Autor

                                Daniel Oliveira

Em França, o governo tenta que se chegue a acordo para permitir a flexibilidade de trabalho mas com alguns limites. Dando aos trabalhadores o direito a não estarem online durante os dois dias de descanso semanal e as férias. Assim, os chefes não poderiam enviar mails aos trabalhadores à noite e aos fins de semana ou durante as férias. Segundo um estudo recente um terço dos trabalhadores franceses usa aparelhos eletrónicos para trabalhar fora da hora de expediente.

A nova lei laboral, que está longe de ser favorável para os trabalhadores, obriga, no entanto, as organizações com mais de 50 funcionários a iniciarem negociações para definir os direitos dos trabalhadores de ignorarem os seus telefones, tablets e computadores. Só que não prevê qualquer sanção para as empresas que não o façam.

Houve um tempo em que o trabalhador aceitava que havia um tempo do patrão e um tempo que não era dele. Um dos preços que pagámos pela crescente desigualdade nas relações laborais é que o patrão foi lentamente comendo o tempo do trabalhador. Tomou-lhe as férias, os fins de semana, o tempo para estar com os filhos, o tempo de lazer. Sem pagar mais um cêntimo por esse tempo. Pelo contrário, pagando cada vez menos. É tempo roubado que permite a muitas empresas terem menos trabalhadores. E isto tem levado a uma crescente concentração do trabalho em poucas pessoas que, recebendo o mesmo, fazem o trabalho de várias.

É normal em qualquer entrevista de emprego perguntar-se ao candidato se tem disponibilidade absoluta. A resposta normal deveria ser um rotundo e indignado “não”. Pois se ninguém, nem a nossa mulher, marido ou filhos, deve contar com disponibilidade sem limites – temos de trabalhar, precisamos dos momentos solitários –, como se atreve um empregador a exigir tal coisa?

O facto dos franceses estarem, tantas décadas depois da instituição das férias pagas e da semana inglesa, dos horários de trabalho, das licenças de maternidade e de doença, a discutir se os trabalhadores têm direito a não responder a telefonemas ou e-mails do patrão nas férias e ao fim de semana é o melhor retrato do retrocesso civilizacional que vivemos nos últimos anos. Um retrocesso que nos é sempre apresentado com tons de modernidade. Como se houvesse alguma dignidade na escravatura, como se não ter vida para dar lucro a outros fosse motivo de orgulho.

Seremos, nesta matéria, uma das primeiras gerações europeias a deixar aos nossos filhos uma vida bem pior do que aquela que nos foi oferecida. Voltou tudo à estaca zero e temos de pedir de novo, por favor, umas horas em que não somos propriedade do patrão.

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