Flibusteiros à abordagem do Novo Banco

(Francisco Louçã, in Público, 04/01/2017)

louca

Francisco Louçã

Até hoje as propostas de Sérgio Monteiro para o banco têm sido todas perigosas. Estas não o são menos – e têm de ser evitadas.


Parece que o Banco de Portugal, ou Sérgio Monteiro, ou comentadores que transportam o recado estariam decididos a tentar forçar a mão do Governo para a impor a venda imediata do Novo Banco. Os felizes contemplados poderiam ser a Lone Star ou, se um golpe de teatro ainda o permitisse, o consórcio Apollo-Centerbridge, agora reforçado pelo carinho da família Violas, que anda de candeias às avessas com o BPI. Já hoje, não pode passar de quarta-feira, escreve-se também em jornais económicos, sob a ameaça tremenda de os fundos norte-americanos se zangarem.

Se bem conheço o Governo e outros decisores  nesta matéria, esta chantagem não tem condições para triunfar e impor a entrega do Novo Banco como se não houvesse alternativas consistentes. Até hoje as propostas de Monteiro para o banco têm sido todas perigosas e estas não o são menos.
A solução Monteiro só tem uma virtude clarificadora, a anuência do PSD e CDS. Monteiro, despachado por Passos Coelho para esta função e sempre próximo de Maria Luís Albuquerque, tem cumprido o que dele se esperava, generosamente pago para tanto. Embrulhou as contas do banco, prospectou compradores, ofereceu condições e agora proclama a solução que lhe sobrou.

Mas a solução é má, por três razões. A primeira é que os potenciais compradores são flibusteiros, ou aventureiros provados no mar alto da finança mundial. O fundo texano Lone Star nasceu na crise dos anos 1990 e lançou-se com o crash dos tigres asiáticos, comprando propriedade imobiliária e empresas em dificuldades. O seu negócio é a dívida e a destruição de empresas ou a sua venda a curto prazo. O fundo Apollo, como o Centerbridge, gerem em conjunto o triplo dos valores, mas seguem o mesmo caminho: juntar fundos de pensões ou outros investidores para comprar dívida e conseguirem rentabilidades de curto prazo. Esta Apollo foi fundada por Leon Black, o braço direito de Michael Milken, o rei dos junk bonds, que veio a ser condenado à prisão em 1989 por crimes vários. Se um governo entregasse o terceiro banco do país em termos de activos líquidos a uma operação financeira desta natureza, só se poderia queixar de si próprio.

A segunda razão que assinala o perigo destes fundos é a sua forma de actuação, que decorre da sua natureza, ou do investimento de curto prazo que deve ser imediatamente ressarcido. Ao comprarem o Novo Banco, visto que lhes pode ser difícil distribuir desde logo dividendos para recuperarem o capital, estes fundos procurarão utilizar as garantias do Estado e os créditos fiscais (e já lá estarão cinco mil milhões), pedir novos empréstimos e retirar capitais do banco, espremendo também os créditos em curso na economia nacional para aumentarem as taxas de retorno. Em resumo, ameaçarão o banco, atacarão os clientes, arriscarão os depositantes.

A terceira razão é que este procedimento tem ainda um outro custo, o défice: o imediato, a contabilidade das contra-garantias, e o mediato, a perda fiscal ao longo dos anos. Se lhe dissessem que o Novo Banco foi vendido nestas condições, poderia ter a certeza de que a sua carteira fora arrombada, mas creio que o Governo não alinhará nesta aventura.

A solução Monteiro tem de ser evitada, tanto mais que há alternativas a este caríssimo ultimato quarta-feirista. Primeiro, é melhor fazer as contas do Novo Banco com rigor. Segundo, o banco não pode continuar a viver arrastado para o fundo pelas operações não bancárias do tempo passado e deve livrar-se delas. Terceiro, deve ser mantido como entidade separada e não incluída na CGD, mas deve integrar a banca pública para uma recapitalização ponderada ao longo do tempo e para uma gestão do crédito que estimule a economia. Sobre os detalhes desse plano voltarei a escrever em breve.

 

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6 pensamentos sobre “Flibusteiros à abordagem do Novo Banco

  1. E assim se vai chegando ao necessário consenso sobre a necessidade de um robusto sector financeiro dependente do Estado… Por outro lado parece que haverá algum tabu – mas uma batalha a ser travada e vencida – relativamente à necessidade de dar real poder de fiscalização às Comissões de Trabalhadores de todos os bancos… É que a emissão de dinheiro (sob a forma de crédtio…) é (tem que ser) uma prerrogativa do «soberano»…

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  2. Quanto mais leio artigos acerca dos bancos, da finança, dos negócios de alto voo, me convence que o mundo é gerido por uma teia de sangue-sugas que nunca estão saciadas e querem cada vez mais, espezinhando os governos , os povos, os trabalhadores e por vezes escravizando paises inteiros para que seja possível eles engulir mais e mais quantias astronómicas de bens e dinheiro… uma teia da qual não vejo como nos extrair. Sinto uma mega-mafia tomar conta de tudo neste mundo e fico arrepiada.

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    • Pois, mas tudo isso que descreve, e muito mais, é próprio do sistema capitalista que vive, como sempre viveu, desses expedientes que formam a citada “teia” que tanto a arrepia, pelo que, sem a alteração/substituição deste hediondo sistema económico-social [que há mais de 400 anos invadiu, ocupou, explorou, roubou, escravizou, deportou matou, dizimou, dividiu países contra a vontade dos Povos, fez duas guerras mundiais e tantas outras regionais, idolatrou (mais recentemente) o deus dinheiro tendo a sua actuação se caracterizado por descartar os idosos, os que não têm alternativa a viver senão do trabalho, os jovens e até as crianças, ao ponto de conseguir que os tais 1% já detenham tanta riqueza quanta possuem os outros 99% da população do planeta], não vislumbro como a Danielle possa deixar de ficar arrepiada!…
      Pense nisso, se me permitir a sugestão!…
      Continuação de um bom ano e, se possível, amenizando os arrepios da Danielle, são os sinceros votos do,
      anticapitalista incorrigível, desde há mais de 50 anos.

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