2017 e o fim do século XX político

(José Pedro Teixeira Fernandes, in PÚBLICO, 27/12/2016)

2017

1. Olhar o passado e perspectivar o futuro é algo comum no final de um ano. É sempre uma etapa na vida pessoal e colectiva. Mas a história humana é feita de grandes marcos e estes vão para além do mero decurso do tempo. São acontecimentos que influenciaram o curso da história. Fazem parte da identidade social e política. Integram a memória colectiva. A percepção do mundo em que se vive e do mundo em devir é condicionada por estes. Em muitos casos são construções retrospectivas de sentido. Foi a posteriori que adquiriram o simbolismo de grandes marcos. Na época em que ocorreram passaram praticamente despercebidos. Não foram vistos com nenhum significado especial e menos ainda como marcantes na vida de um povo, de uma civilização ou da própria humanidade. Por vezes ocorre também o inverso. Acontecimentos que, numa época, foram vistos como “históricos”, para as gerações futuras não têm qualquer sentido marcante e estão até no esquecimento. Uma questão vem assim à mente: terá sido 2016 o final de uma era política ou apenas mais um ano?

2. Uma perspectiva histórico-política ajuda a reflectir sobre o significado do ano que agora termina. Olhando para o passado recente é usual identificar um século XIX político. Não coincide com o século XIX cronológico (o período 1800-1990), pois só assim a distinção é útil. Usualmente é balizado entre 1815 — o fim das guerras napoleónicas e realização do Acto final do Congresso de Viena — e 1914, o início da Grande Guerra (mais tarde designada por I Guerra Mundial). Nesta lógica, também o século XX político poderá não coincidir com o século cronológico. 1914 foi o seu início. Será que já está encerrado, ou estamos ainda a vivê-lo? A questão é de difícil resposta. A escolha de um marco — que simboliza também uma era histórica e política — é quase sempre susceptível de contestação. Três acontecimentos de grande impacto internacional têm sido apontados como simbolizando o fim do século XX político. O primeiro foi a queda do Muro de Berlim (1989) e o final da Guerra-Fria entre os EUA e a União Soviética. O segundo os atentados terroristas de 11/S (2001) e a “guerra ao terror” que se seguiu. O terceiro, a falência do banco norte-americano Lehman Brothers (2008), a qual desencadeou uma grave crise financeira e económica internacional.

3. Apesar das proclamações do fim do século XX político — em 1989, 2001 ou 2008 —, a lógica política e institucional herdada deste tem persistindo, ou tinha até agora, em aspectos fundamentais. É detectável na política interna e internacional. O imediato pós-II Guerra Mundial, sob a influência da imensa tragédia humana anterior, foi o seu momento fundador. A nível global, a ONU e a Declaração Universal dos Direitos do Homem, são duas maiores realizações da época. A nível europeu, a fundação das Comunidades Europeias — a génese da actual União Europeia —, é o maior legado institucional que as gerações actuais de europeus herdaram. O mesmo é válido para a criação de democracia estáveis e assentes numa alternância entre o centro-esquerda (social-democrata / socialista / trabalhista) e o centro-direita (conservador / democrata-cristão / liberal). Na Europa e Ocidente, a democracia política foi articulada com a economia capitalista de mercado. Especialmente na Europa, o modelo de democracia liberal-capitalista enraizou-se a par de um Estado social generoso. Para os europeus a Ocidente, foi uma era de paz, de prosperidade e de grandes transformações culturais.

4. A queda do muro de Berlim em 1989 teve um enorme impacto na história do século XX. O final da Guerra Fria e o fim da União Soviética que se seguiram, foram acontecimentos maiores sob qualquer perspectiva. Mas 1989 foi interpretado também como um “fim da história”. Face ao colapso do socialismo-comunista e da economia planificada de direcção central, a democracia liberal-capitalista seria o destino último da humanidade. Um quarto de século depois a realidade é outra. Emergiu um poderoso rival: a combinação do autoritarismo não ideológico com o capitalismo, de que a China é o caso de maior sucesso. Quanto ao 11/S, abriu uma nova linha de conflitualidade, tornando o islamismo-jihadista um actor importante e especialmente desestabilizador. À sua maneira, quer a queda do muro de Berlim, quer o 11/S, deram duros golpes na ordem internacional herdada do século XX. Todavia, não fizeram ruir nem as instituições internacionais criadas no pós-II Guerra Mundial, nem a lógica de funcionamento das democracias capitalistas-liberais. Quanto ao 11/S teve uma consequência importante frequentemente mal percebida. Funcionou como uma “manobra de diversão” para a potência hegemónica (os EUA), face à competição do principal desafiador (a China), da qual esta última foi largamente beneficiária. O 11/S (e a guerra do Iraque) levaram os EUA a concentrarem-se noutra frente, não no bloqueio da sua ascensão. A (intensificação) da competição e rivalidade dos EUA com a China foi adiada por uma década e meia.

5. O ano de 2016 trouxe acontecimentos “impossíveis”. O referendo britânico de 23/6, que abriu caminho à saída britânica da União Europeia (o Brexit) e a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA de 8/11, prenunciam o fim do “antigo regime” (a era política, económica e institucional iniciada no pós-II Guerra Mundial)? Provavelmente só o decurso do tempo — e um suficiente distanciamento histórico —, permitirá perceber o impacto de tais acontecimentos. A par da queda do muro de Berlim e do 11/S, a crise financeira e económica iniciada em 2008 foi outro acontecimento maior a derrubar a ordem herdade do século XX — o que vimos em 2106 foi o culminar desse processo. Por razões complexas, a crise tornou-se também numa crise de legitimidade dos partidos e, de certa forma, das próprias instituições da democracia liberal enraizadas desde o pós-II Guerra Mundial — a União Europeia é uma das grandes vítimas. Muitos europeus sentem que o establishment e as suas instituições não respondem aos seus problemas: perda contínua de bem-estar, fluxos imparáveis de refugiados e migrantes ilegais, terrorismo, conflitualidade militar às suas portas na Síria, Líbia e Ucrânia. A ascensão do populismo é um sinal inequívoco do mal-estar instalado. Mas há uma diferença fundamental face ao passado do século XX e aos anos 1920 e 1930.

Há um século atrás eram os europeus que não deixavam o mundo em paz. Hoje é o mundo que não deixa os europeus em paz. Essa será a realidade de 2017 e do século XXI.

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2 pensamentos sobre “2017 e o fim do século XX político

  1. Ao olhar a História como uma floresta de factos políticos, há quem se perca entre o arvoredo e apague as pistas que podem orientar uma explicação de tais eventos. Admitamos que o Século XX acaba em 2001, não por causa do atentado, mas por um comboio de alta velocidade de causas com várias carruagens, em que viajam o amadurecimento da globalização, a irreversibilidade da alteração das relações de força entre trabalho e capital, a neutralização do Sindicalismo, o aprofundamento dos desníveis na distribuição de rendimentos, a queda da Classe Média, a irrelevância da Social Democracia e, como conclusão trágica, a precarização (definitiva?) do trabalho. Tudo isto, a que se deve acrescentar a revolução Digital e a automatização, é absolutamente novo, e significa “apenas” uma ruptura brutal das referências estáveis construídas no chamado Ocidente, no pós 2ª Guerra Mundial. A poeira dos factos políticos pode cegar-nos para o essencial, não é?

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