Porque está o PCP a correr maiores riscos na geringonça

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/12/2016)

Autor

                         Daniel Oliveira

Os jornalistas conhecem mal o PCP. E é normal que o conheçam mal. Um partido onde os conflitos internos são geralmente ocultados do exterior – apesar de uma leitura atenta do “Avante!” poder dar algumas pistas sobre a atual tensão entre direção e linha ultraortodoxa – torna-se difícil de conhecer. E como o conhecem mal tendem a repetir ideias feitas. No tempo em que o PCP significava um risco real para o poder as ideias feitas eram quase todas negativas. Quando o PCP passou a ser, pelo contrário, uma barragem segura para novidades antissistémicas, as ideias feitas passaram a ser positivas. Se dantes os comunistas não eram de confiança e estavam sempre prontos para tomar o poder, pela força se preciso fosse, hoje são a força que mais confiança merece, em que a palavra dada chega.

Por mim, continuo a achar que os partidos não devem ser analisados pela sua suposta natureza moral ou ética, mas pelo seu posicionamento político e ideológico, pela sua base social de apoio e, quanto muito, por considerações táticas. E o PCP é como os restantes partidos: se houver risco de ganhar muito mais poder ou de perder o poder que tem tende a tornar-se mais imprevisível. Imaginar que os dirigentes do PCP conservam uma qualquer pureza que os outros não têm é uma forma de condescendência perante os comunistas.

Parecendo que não, o acordo da geringonça foi mais natural para o PCP do que para o BE. Não há, nos comunistas, uma cultura de contrapoder. Como se vê pelas autarquias, em que PCP e PSD se entendem muitas vezes em torno de plataformas mínimas ou mesmo em torno de plataforma nenhuma. Ou como vimos em Lisboa, onde o PCP chegou a um acordo duradouro com os socialistas enquanto o Bloco não conseguiu, mais tarde, aguentar com o seu. Só o aparecimento do Bloco de Esquerda, com capacidade para disputar com os comunistas o papel de força de contestação à esquerda, tornou mais difícil o pragmatismo na política de alianças dos comunistas.

A geringonça não nasceu de uma estratégia pré-definida no Congresso do PCP ou na Convenção do Bloco. Nasceu das circunstâncias, que começavam a ser previsíveis já na pré-campanha eleitoral: a ausência de uma maioria de direita e o brutal cansaço dos eleitores à esquerda com Passos Coelho. Era suposto ter acontecido com uma vitória de Costa, aconteceu ficando o PS em segundo. Mas estava, sobretudo na cabeça do PCP, definida ainda antes das eleições. Sindicalistas, autarcas e eleitores estavam no limite das suas forças e incapazes de resistir a mais quatro anos de Passos. E havia no PS um líder que, lendo com inteligência o que estava a acontecer aos vários partidos socialistas europeus, estava disponível para quebrar o tabu, como deixou claro no último congresso socialista antes das eleições. Estou mesmo convencido que se não houvesse Bloco o PCP teria aceite entrar para o governo.

O problema do PCP, na geringonça, é sempre e quase exclusivamente o Bloco. Assim como o problema do Bloco é o PCP. Os recentes ameaças de Francisco Louçã em relação ao comportamento do governo face à banca pública e privada – que contrasta com a responsável cautela comunista a tratar um assunto que pode rebentar com a economia nacional – deve ser analisado à luz desta disputa e tendo em conta a proximidade do congresso do PCP. Sempre a medirem forças, sempre a redesenharem fronteiras.

Disto não concluo o que tem sido habitual ler e ouvir: que o PCP dá mais garantias de estabilidade à geringonça do que o Bloco de Esquerda. Pelo contrário. E a razão não é, ao contrário do que muitos pensam, uma maior dificuldade ideológica no entendimento.

Antes de mais, o PCP tem mais dificuldade do que o Bloco em surfar nas contradições da geringonça. Tem mais dificuldade do que o BE em chamar para si cada conquista. Não por pudor, mas pela menor maleabilidade tática que a sua história e a sua dimensão orgânica lhe dão. Uma importante parcela da base social de apoio dos comunistas – reformados e funcionários públicos – tem sido a mais beneficiada por este governo e não é certo que o PCP esteja a capitalizar isso para si.

Estou absolutamente convencido que, se não houver novidades da Europa, o PCP suportará a geringonça até ao fim da legislatura. A convicção desse apoio irá depender da avaliação que os comunistas fizerem do deve e haver eleitoral deste entendimento, quer na relação com o PS quer no peso relativo que consiga conquistar em relação ao Bloco. Mas os comunistas sabem, quando olham para a Europa, que a sua sobrevivência tem dependido de uma postura estruturalmente conservadora: nem ceder ao reformismo que matou os restantes partidos comunistas do sul da Europa, nem embarcar numa radicalização que o teria transformado num grupúsculo. É este espírito conservador e uma avaliação bastante egoísta da sua força em todo este processo que determinará o seu comportamento futuro.

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6 pensamentos sobre “Porque está o PCP a correr maiores riscos na geringonça

  1. Dá a impressão que o D. Oliveira está a mastigar um sapo! Já deu para ver que o PCP está institucionalizado
    na Democracia multipartidária que temos enquanto, o BE tem um verdadeiro comportamento de “surfista”, com
    alguma verdura e falta de modos que, pareciam ultrapassados … a retórica é boa mas, a confiança curta!!!

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  2. O Daniel Oliveira está a fazer “política politiqueira” a esmiuçar os “como” dos “porque”… deixe andar a geringonça que por enquanto vai avançando devagar mas evitando catástrofes de maior !!! E Bloco e/ou PCP, aguentem os cavalos e larguem os respectivos “ego”, que o povo agradece.

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  3. É assim, “muita (e douta) parra, pouca uva”, sempre que um intelectual burguês (que não encarnou as necessidades da classe operária e, neste caso, vive também dos serviços que presta ao dono da SIC – olha quem!?!?!…) se pronuncia sobre um partido de base operária, “capitaneado” por um velho operário metalúrgico – que se seguiu no cargo a um Economista, também ele oriundo da (média) burguesia, mas que encarnou as necessidades dos operário!
    Sobre o capitalismo e a necessidade do seu fim, o autor, aos costumes disse nada! Porquê? … provavelmente porque não está interessado em tal desiderato! Mas será que não sabe que este hediondo sistema económico-social não é eterno?!?!?…
    ,

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  4. Não se pode falar do fim do capitalismo quando verdadeiramente não existe alternativa a ele, a não ser que se defenda a ‘democracia popular’ ao estilo soviético e cubano que, Deus nos acuda, já provou inúmeras vezes ser pior que o capitalismo, em termos de ausência de liberdades políticas, de destruição ambiental e de ter levado a um puro estado de penúria económica, vide aliás o que se passa em Cuba ou na Venezuela, por exemplo. Pergunto aonde está a dignidade da classe operária sob o socialismo de miséria. E como para pior já basta assim… O apego dos comunistas ao marxismo-leninismo raia o apego a um dogma religioso. Houvesse o mínimo de espírito empirista entre os seguidores desta filosofia de origem alemã, e já ela teria sido deitada para o caixote do lixo da História há muito. E como nessa medida, nada do que o PCP diz é novo (ou relevante) se nos ativermos à sua filosofia política, o Daniel Oliveira faz o que toda a gente faz, analisa e bem, a tática política dos comunistas, bem mais interessante e que mostra que apesar de tudo existe inteligência para os lados da Soeiro Pereira Gomes. É um pouco como o que se passa no Vaticano, se visto pelos olhos de um racionalista, aliás… Para quem se farta de martelar nos liberais, os anti-capitalistas são gente mesmo muito suscetível…

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  5. Ó Santinhos,então a “democracia popular” ao estilo soviético entesou os cubanos e os venezuelanos? Santinhos amigo,nunca ninguém lhe falou de um bloqueio que se mantém há sessenta anos? Dê o braço ao Oliveira e vão a banhos,refrescar a mioleira… sempre há cada um…

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