Steve Bannon e a conspiração contra a democracia

(Daniel Oliveira, in Expresso, 17/11/2016)

Autor

                       Daniel Oliveira

 

A escolha de Steve Bannon para principal conselheiro de comunicação do presidente Donald Trump causou um enorme alarido. Quase todos os comentários, sobretudo na imprensa internacional, concentraram-se no facto de ele ser um notório racista, islamofóbico, antissemita, misógino e racista, com dezenas de comentários publicados que o afastariam de qualquer cargo de responsabilidade. Apesar dos dichotes de Bannon serem impressivos, erra-se mais uma vez no alvo. O problema não são as opiniões da figura, é quem ele é e o que tem feito. É o que ele significa. É ser, como já foi descrito, o operacional político mais perigoso da América.

O melhor artigo que vi até agora sobre Steve Bannon foi publicado há mais de um ano no site da circunspecta e moderada Bloomberg e o seu autor, Joshua Green, tem acompanhado de perto a caminhada na lama que o propagandista de extrema-direita tem feito. Lá encontram grande parte da informação que aqui disponibilizo.

Steve Bannon é um homem com um percurso variado e irrequieto. Trabalhou na Goldman Sachs, foi um pequeno produtor em Hollywood, empresário de políticos e até oficial da marinha. Mas foi como presidente do site informativo populista e de extrema-direita Breitbart News que se tornou mais conhecido. O Breitbart News é um descendente direto do Drudge Report, onde o fundador Andrew Breitbart (que deu o nome ao site) aprendeu a arte da agitação. Bannon é também autor de documentários chocantes ou apologéticos como “Battle for America”, “Generation Zero” ou “The Undefeated”. Andrew Breitbart, a quem Bannon sucedeu na liderança do seu site, depois da sua morte em 2012, definiu-o como a Leni Riefenstahl do Tea Party. E era um elogio.

Apesar da tendência marcadamente de direita do Breitbart News, seria injusto dizer que o seu alvo são os democratas. É bem mais amplo do que isso. O seu alvo é tudo o que esteja relacionado com o sistema democrático. A conspiração em que participa, e ela existe e é profunda, pretendeu destruir todas as lideranças tradicionais, à direita e à esquerda. Contra Hillary Clinton, mas também contra Jeb Bush ou John Boehner, antigo presidente da Câmara dos Representantes e congressista republicano pelo Ohio.

Foi a Breitbart News que conseguiu destruir a carreira do congressista democrata de Nova Iorque Anthony Weiner, em 2011. Contratou várias pessoas para seguirem, 24 horas sobre 24 horas, a sua conta de Twitter até conseguirem apanhar uma troca comprometedora de fotos menos próprias com uma jovem. O escândalo terminou com Andrew Breitbart a entrar pela conferência de imprensa em que Weiner se desculpava para dar mais esclarecimentos aos jornalistas, tomando o lugar do congressista no púlpito. A narrativa é sempre a de uma novela. Se uma história pode morrer logo interessa menos, mesmo que seja mais relevante. O que interessa é um escândalo que se possa ir alimentando com sucessivos pormenores, marcando assim a agenda política. Como todas as histórias que envolviam Hillary Clinton. Especialmente eficaz quando se tem, como a Breitbart News, 21 milhões de visitas únicas por mês e isso se reproduz por centenas de rádios conservadoras espalhadas pelo país.

Em 2012, Bannon construiu mais uma arma para o seu arsenal de guerra: o Government Accountability Institute (GAI), de que é fundador. O GAI que tem ao seu serviço suficientes advogados para se defender e muitos investigadores para destruir políticos. O seu presidente atual é Peter Schweizer, um investigador conservador, que, desiludido com a sua própria família política, rumou para os lugares um pouco mais insalubres que Bannon frequenta. É ele o autor de “Clinton Cash”, o livro que denunciou as contribuições dadas por vários países e indivíduos à Fundação Clinton. E foi também ele o autor de “Bush Bucks: How Public Service and Corporations Helped Make Jeb Rich”, que tratou o irmão e filho dos antigos dois antigos presidentes, ele próprio candidato às primárias republicanas, da mesma forma que tratara Clinton.

O objetivo do GAI está claro no seu site: denunciar o amiguismo capitalista e a prevaricação governamental. Apesar dos ataques à esquerda e à direita, eles são seletivos. De fora tem estado sempre a extrema-direita, seja o Tea Party ou Donald Trump.

Não, Bannon e os seus associados não são intrépidos combatentes pela transparência e a honestidade. São soldados prontos para destruir o que existe e sobre as suas ruínas fazer subir ao poder políticos de recorte autoritário. Não é por acaso que Bannon tem entre os seus maiores admiradores os membros do KKK.

Mas o que realmente é novo e interessante em Bannon e sobretudo no trabalho do GAI é que mudou radicalmente a estratégia que estes grupos tinham no passado. Dantes, não conseguiam chegar aos media mainstream. As suas notícias ficavam pelas pequenas revistas e sites, a pregar para os convertidos e com uma credibilidade reduzida. Na melhor das hipóteses, como se explica no artigo que citei, seriam publicados nos tablóides britânicos e americanos. Essa fase foi ultrapassada. Agora, é na imprensa mainstream que eles encontram o seu maior aliado.

Antes de mais, a justiça: o GAI não inventa factos. Esse é o seu segredo. Faz uma investigação profunda, usa enormes recursos, não larga o osso e depois tem uma história suficientemente forte para que nenhum jornalista sério a possa recusar. Foi o que fizeram com as doações à Fundação Clinton. Quando a secretária de Estado ocupou o seu lugar foi obrigada a entregar muita informação e eles fizeram o trabalho de casa, encontrando muitas contribuições que ou levantavam problemas de conflito de interesses ou eram embaraçosas. Depois foram largando essa informação para a imprensa tradicional, encontrando no insuspeito “New York Times” um empenhado e provavelmente involuntário parceiro.

“Uma das coisas que a Goldman Sachs nos ensina é que não deves ser o tipo que passa a porta primeiro porque serás tu a apanhar com as setas todas”, explica Bannon. “A Goldman nunca liderava um produto, encontrava sempre um parceiro”. E o que este agitador brilhante descobriu é que um bom jornalista, mesmo que fosse liberal, nunca deixaria de investigar uma boa história que lhe fosse dada, mesmo que fosse contra o seu lado. E isso é, aliás, o que distingue um jornalista de um propagandista como Bannon. Ele encontrou no “New York Times” um parceiro que, em troca de histórias sólidas e bem investigadas, destruía com muito mais eficácia do que ele a reputação de Hillary Clinton. Por isso Bannon se gabava de ter os 15 melhores repórteres dos 15 melhores jornais do país a perseguirem Hillary Clinton. Isto, enquanto Donald Trump fazia a sua campanha sem ter de se preocupar com os autênticos cemitérios que tinha tão mal escondidos no seu armário. Até porque o GAI sabe preparar os seus produtos. Wynton Hall, um ghost-writer para celebridades, autor de 18 livros, seis deles best-sellers, incluindo o de Donald Trump, trabalha para o grupo e sabe preparar a coisa para ela se tornar viral.

Mas o principal segredo de Steve Bannon é a fragilidade dos media. Ele explica: “A economia moderna das redações não aguenta grandes equipas de investigadores. Hoje não temos o Watergate ou Pentagon Papers, porque ninguém pode pagar a um repórter para andar sete meses atrás de uma história. Nós podemos. Trabalhamos como apoio.” O que a máquina montada por Steve Bannon fez nos últimos anos, com meios inimagináveis para os media tradicionais, foi especializar-se em algumas histórias e pessoas (como Hillary Clinton ou Jeb Bush) e não sair delas até ter o que quer. Escolhendo, com critérios políticos, os alvos. E os seus critérios foram tudo o que contribuísse para a ascensão da extrema-direita ao poder. Sem precisar de uma única mentira e usando os media tradicionais como seu mais poderoso instrumento de credibilização.

Quando andou a investigar as doações à Fundação Clinton, o GAI não se limitou a consultar os documentos que a Fundação aceitou tornar públicos. Foi mais fundo. Muito mais fundo. Ele tem uma extraordinária capacidade de fazer investigações na Deep Web. E só para essa função, são os próprios que o dizem, têm equipamento no valor de muitos milhões de dólares. De onde vem tanto dinheiro? Em parte dos direitos de “Seinfeld”, que Bannon conseguiu quando negociou a venda da produtora Castle Rock Entertainment a Ted Turner. Mas está longe de chegar para as perseguições políticas que Steve Bannon conseguiu empreender durante meses ou anos. Sabe-se que Robert Mercer, cofundador da empresa financeira Renaissance Technologies e importante doador de Ted Cruz, terá investido 10 milhões neste projeto político. Só que ao contrário do que a máquina montada por Steve Bannon conseguiu fazer com a Fundação Clinton, ninguém terá meios para investigar quem está atrás de Bannon na destruição de políticos mais ou menos comprometidos com alguns valores democráticos.

Aproveitando a crescente fragilidade dos media, radicais de direita como Steve Bannon, financiados por interesses que vêem com bons olhos a dissolução da credibilidade das instituições públicas e consequente enfraquecimento do poder do Estado face ao poder financeiro, pratica a velha política da terra queimada. Só tem de conseguir muito financiamento, garantir investigações sólidas que os jornais já não têm meios para fazer, escolher os alvos com critérios políticos e dar aos media um trabalho meio feito, enquanto deixa os do seu lado por investigar, já que não está obrigado a qualquer critério de equilíbrio e isenção.

Este é o preço que pagamos pela morte financeira dos media tradicionais. Sim, são péssimos, tendenciosos, manipulados e incompetentes. Mas pelo menos são escrutináveis. Agora, a conspiração contra a democracia chegou à Casa Branca e nem sabemos ao certo quem a pagou.

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