Os media, António Domingues e Sérgio Monteiro

(Daniel Oliveira, Expresso Diário, 02/11/2016)

Autor

                             Daniel Oliveira

Muitas vezes escrevo aqui sobre o desequilíbrio que existe na cominação social em relação a este governo e ao anterior. E esse desequilíbrio sente-se especialmente na sucessão de pequeninos escândalos que, todos juntos dão, como se sabe, uma sensação difusa contra a qual é impossível qualquer político lutar. É muito habitual isso acontecer em governos em fim de mandato. A comunicação social tende a sentir o animal doente e a atacar. É inédito num governo com um ano. Começou mal o governo tomou posse. Ainda antes, na realidade. Este cerco não resulta, como demonstram todas as sondagens, da impopularidade deste governo. Pelo contrário, ela tem vindo a aumentar.

Assistimos a um cerco político que resulta, antes de tudo, do facto de António Costa ter integrado o PCP e o Bloco no arco da governação, desfazendo um cordão sanitário que, desde o 25 de novembro, tinha dividido a esquerda. Essa é a razão de fundo para a parcialidade da comunicação social, que foi especialmente visível nas vésperas do Orçamento de Estado, onde cada pequena informação ou sugestão foi transformada num assunto nacional, para depois do Orçamento apresentado (e esvaziadas quase todas as polémicas) rapidamente passarmos a outros assuntos e pequeninos escândalos.

É muito difícil comprovar esta afirmação. Ainda mais em torno de casos concretos. Parece sempre que se está a desvalorizar o assunto concreto em nome de uma qualquer teoria da conspiração. Mas há um bom exemplo para ilustrar aquilo que estou a escrever: o caso do salário de António Domingues. Para mim o tema é excelente para ilustrar a parcialidade com que os media tratam este governo. Primeiro, porque sendo eu crítico das decisões que este governo tem tomado, não há risco de me deixar influenciar pela posição que tenho sobre o assunto. Depois, porque há um termo de comparação quase perfeito: a nomeação de Sérgio Monteiro para “vendedor” do Novo Banco.

Primeiro, as diferenças. António Domingues foi nomeado, até já tarde demais, por um novo governo para dirigir o maior banco português. Não tem relações partidárias com o governo, não há suspeitas de favorecimento político, tem uma longa experiência de gestão bancária e ninguém, dos que criticam o seu salário, põe em causa a sua competência técnica e profissional. Vai receber por funções muitíssimo claras 30 mil euros mensais. Sérgio Monteiro foi nomeado por um governo demissionário de que era secretário de Estado, a cumplicidade política com quem o nomeou não podia ser mais direta e muitos (quase todos) põem em causa as suas habilitações curriculares para a tarefa. Está a receber, para fazer ninguém sabe muito bem o quê, mas seja o que for é bem menos do que ser administrador da CGD, pouco menos do que 30 mil.

Mesmo sendo, como eu sou, crítico das duas situações, não me parece que haja espaço para grande divergência: a nomeação e salário de Sérgio Monteiro é muito mais questionável e deveria ser muito mais polémica do que a de António Domingues.

No entanto, passa-se, nos media tradicionais (com repercussões na sociedade) exatamente o oposto. Dei-me ao trabalho de fazer contas que, por limitações dos motores de busca dos principais sites noticiosos, são apenas aproximadas. Nos sites do “Público” e do “Diário de Notícias”, as referências ao salário de António Domingues foram cinco vezes superiores às do salário de Sérgio Monteiro. Nos do “Expresso” e da TSF foram três vezes mais. No do “Correio da Manhã” seis. Não é possível fazer estas contas nos canais de televisão, mas arrisco uma proporção ainda mais favorável a Domingues. O resultado na polémica pública é evidente: se usarmos motores de busca genéricos passamos para os milhares, nos resultados. As referências ao salário de António Domingues são mais do triplo do que as que envolvem o salário de Sérgio Monteiro.

Criticar a parcialidade da comunicação social não é assumir que uma polémica pública é inadequada. Eu acho que faz sentido debater os salários dos gestores públicos e isso inclui, pelo seu valor, o do presidente da Caixa Geral de Depósitos. O que se critica é a desproporção, que torna alguns temas mais apetecíveis para a comunicação social quando uns estão no governo e menos interessante quando estão outros. Sobretudo quando o caso menos tratado é objetivamente mais difícil de justificar do que aquele que alimentou maior polémica mediática. Claro que muitos dos responsáveis por esta parcialidade dirão, com justiça: também criticámos o salário do antigo secretário de Estado dos Transportes. A diferença é quando se pica o ponto da crítica e se segue em frente ou se transforma o tema no centro do debate político. Estas coisas não acontecem naturalmente. É a agenda política de quem marca a agenda mediática. Ou é por acaso que antigos líderes do PSD têm, quase por inerência, direito a espaço como comentador político nos telejornais do horário nobre das televisões privadas?

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