A DIREITA VENDIDA

.(Por Carlos Matos Gomes, in a Viagem dos Argonautas)

O Estado Novo, ou o salazarismo, era um regime nacionalista. Por ser uma ditadura, conservador, anti-comunista e anti-liberal e, acima de tudo, por ter durado muito, o salazarismo foi confundido com a Direita portuguesa. Passou a ser entendido como a essência da direita portuguesa. Para os seus adeptos e opositores, durante quarenta e alguns anos a Direita era o salazarismo e era nacionalista.

A realidade não era essa, mas a imagem projectada pela propaganda de António Ferro foi a de uma direita que tinha as glórias de Quinhentos e os Lusíadas como padrão da identidade nacional. Um grande povo de uma pequena nação. Portugal contra o Adamastor. Portugal contra o Mundo. O mapa de Henrique Galvão para a Exposição Colonial, com as colónias portuguesas a cobrirem a Europa e a legenda: Portugal não é um país pequeno, representa o pensamento da direita nacionalista portuguesa.

Essa direita foi apenas um hiato na história política da direita portuguesa, pelo menos desde o Tratado de Methuen.  A velha direita, a direita da História, a direita de sempre, a da venda e do servilismo, é a que recebe hoje os funcionários da Troika com entusiasmo e fervor.

É a velha direita de carcereiros da dignidade que temos a bater em tachos e panelas a propósito das discussões sobre o orçamento e das negociações com a Troika.

É a velha direita a que se expressa através dos comentadores que assaltaram os meios de comunicação contra o atual governo, acusando-o de não cumprir as ordens de Bruxelas quanto ao défice e aos cortes sociais.

É a velha direita a de Assunção Cristas, quando a candidata a substituir o velho Paulo Portas exclama: ai Jesus, Deus nos salve!, que porque “O PS está a fazer escolha de alto risco e muito perigosa” (JN de 31 de janeiro) apenas porque o governo não obedece sem pestanejar – pronta e completamente – às ordens da Troika.

É a velha direita a de Paulo Rangel, que range fanhosamente para denunciar – sim para denunciar – à Comissão Europeia que os “esforços da população portuguesa” podem ser postos em causa devido ao “acordo de forças da extrema-esquerda com o PS”, só porque, mais uma vez, o governo ousa negociar e contrapor argumentos às determinações e assobios da troika a propósito do orçamento.

É a histórica direita da hipocrisia, a que apoiou e louvou a subserviência do anterior governo para liquidar o BANIF e o entregar ao Santander, escolhido pela Comissão Europeia.

O que vemos nos ecrãs e lemos nas colunas dos jornais é a velha direita dos senhoritos e cortesãos, que vendem o que é público a troco de rendas e comissões.

É a velha direita organizada como corja parasitária, de acesso restrito, que acentua diferenças e desigualdades, que não tem um projecto de sociedade, nem de comunidade. A direita do enriquecimento rápido, sem consciência social.

É a velha direita, a do compromisso Portugal e do Observador, a dos Mexia e dos Catroga da EDP, da PT, do BPN, do BES, das PPP, que vendeu os aeroportos, as pontes, a TAP, os transportes públicos, as águas, o vento e até os lixos.

É a velha direita a que exulta com as exigências da Troika de cortes nos rendimentos e prestações sociais dos mais desfavorecidos. A que negoceia a venda ao estrangeiro de bens públicos estratégicos e recebe a paga da traição com lugares nos conselhos de administração.

É uma velha direita vendida, sempre prostituta, que hoje envia os seus peões e lacaios para os estúdios de televisão, para os jornais, para as redes sociais alegrar-se porque o governo português está a levar pancada de Bruxelas!

São os esbirros dessa velha direita que acusam o governo de não capitular e de não facilitar os negócios, à custa de baixos salários, de liberalizar ainda mais os despedimentos e acentuar a  precariedade; à custa de cortes na saúde e na educação pública. É uma direita de import-export, de videirinhos, que tem os seu intelectuais, os seus historiadores os seus vendedores, os seus delegados de propaganda avençados e disseminados para impingirem até à náusea a ideia de que não há alternativa à cobardia e à traição.

Esta direita é, como foi sempre, um vespeiro furioso.


via CARLOS DE MATOS GOMES – BISCATES – A DIREITA VENDIDA — A Viagem dos Argonautas

4 pensamentos sobre “A DIREITA VENDIDA

  1. Nem mais, querido camarada Matos Gomes, essa é a direita de sempre, a escumalha de sempre, a alcateia matilhada de sede vampiresca,enfim, a direita defensora do capitalismo, esse hediondo sistema que há mais de 400 anos invadiu, subjugou, ocupou, explorou, escravizou, matou, dizimou, roubou, dividiu países, fez guerras até idolatrar o dinheiro, o seu deus dinheiro, que mais recentemente passou ao descarte, descartando os velhos, porque já não podem trabalhar e ser explorados, descartando as crianças que vão morrendo de fome por subnutrição, quando não afogadas no mediterrâneo, descartando os jovens, alguns dos mais bem preparados de sempre, negando-lhes o emprego forçando-os à emigraação…
    Mas agora, e desde 2007, em franca agonia, quase moribundo, sem teoria económica que o salve da crise profunda em que se vê mergulhado. O capital sem remuneração que o suporte onde a pomposa eficiência marginal atingiu o zero e em certos casos é negativa, obrigando os banqueiros, com a anuência dos auto-proclamados democratas e defensores da liberdade (a deles, naturalmente) que se auto-denominam de socialistas (do socialismo em liberdade), sociais democratas, democratas cristãos, e quejandos, a terem que inventar todo o tipo de comissões que debitam cegamente, designadamente aos pequenos depositantes, a pontos de estas, as comissões, já representarem 50% das receitas dos bancos…
    Enfim, faz lembrar o inafundável TITANIC, e, quem sabe, se amanhã, dia 8/11/2016, a partir dos yankees, não se vai desprender o ICEBERG!…
    Miseráveis, de espírito, são os lusos pafistas pafiosos, essa tal direita de sempre, aqui bem desmontada da sua arrogância consentida por quantas e quantos nestes pafiosos vão votando!…
    Obrigado, meu velho Comandante!

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