Um homem brilhante num pântano

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 13/10/2016)

Autor

                        Daniel Oliveira

(Publico  amiúde artigos do Daniel Oliveira, mas este sobressai pela argúcia da análise e pelo elencar inteligente que faz da história recente do país e também de algumas causas que determinaram o desenlace dessa mesma história. Estátua de Sal)


Em Portugal, por um hábito de autoflagelação que quase roça a megalomania, temos a ideia de que somos dominados por uma trágica elite política. É verdade que, por razões históricas, a nossa elite (e não apenas a política) sempre foi de uma atávica mediocridade. Porque somos um país desigual, porque a nossa elite económica é tradicionalmente rentista (do ouro do Brasil aos fundos comunitários, passando pelo condicionalismo industrial).

E porque a nossa elite é desprovida de patriotismo, no que se distingue do povo mas não se afasta, se quisermos ser justos, da generalidade das elites económicas das outras nações.

Como o país é pequeno e muito pobre – com poucos leitores de livros e jornais, poucos cinéfilos, com poucos amantes do que seja mais do que mero entretenimento –, também a nossa elite cultural vive em circuito fechado, asfixiada na sua própria pequenez. O que muitas vezes a desligou do seu próprio povo, confundindo o deslumbramento provinciano com o que vem de fora com cosmopolitismo.

Tudo isto – a pobreza, a desigualdade, o rentismo, a pequenez – se replica na elite política. Mas, se retirarmos este clima geral em que a nossa política se desenrola, a juventude da nossa democracia (o que contribui para a fragilidade das nossas instituições públicas) e a nossa pequena dimensão, não considero que a nossa elite política seja hoje pior do que a que podemos ver em Espanha, em França ou na generalidade dos países. Basta perceber como Durão Barroso chegou ao topo do poder europeu, como a elite política britânica geriu o processo que levou ao Brexit, como a política francesa está entregue ao que de mais medíocre existe no país ou como Espanha vive há meses numa crise política sem saída para perceber que os pecados que nos atribuímos a nós mesmos são largamente partilhados.

Este hábito de nos atribuirmos característica únicas (sobretudo as negativas, mas não só) tem sido, aliás, responsável por erros grosseiros na análise da crise em que vivemos há anos. Apesar das responsabilidades que nós próprios temos em vários dos nossos atrasos e erros, é preciso viver a leste do mundo para nos atribuir a total responsabilidade do que aconteceu ao país desde 2008. Foram cometidos erros grotescos nos EUA e na Europa (e nós temos a nossa parte de responsabilidade pelo que se faz na União), e nós, assim como a generalidade dos países com o nosso tipo de economia, fomos as vítimas mais fáceis. Resumir a história do resgate e do que se lhe seguiu a Sócrates e Passos é ter sobre o nosso atual poder para nos governarmos enormes ilusões.

Apesar de termos uma elite económica rentista, uma elite cultural deslumbrada e estrangeirada, uma elite política ligada a instituições democráticas frágeis e jovens, conseguimos fazer, no último meio século, o caminho que a generalidade da Europa teve dois séculos para trilhar. Em apenas duas décadas, perdermos um império, integrámos centenas de milhares de ex-colonos, saímos de uma guerra de 12 anos, construímos uma democracia parlamentar pluripartidária, erguemos um Serviço Nacional de Saúde que inverteu de forma absolutamente extraordinária quase todos os indicadores de saúde, alfabetizámos o país e fizemos crescer exponencialmente o sistema educativo público e as universidades, acabámos praticamente com as barracas, construímos infraestruturas em todo o país, entrámos no espaço europeu e tornámo-nos, com todas as nossas fragilidades, num país moderno. Quem negar isto nega o que qualquer estrangeiro que aqui tenha vindo no final dos anos 60 vê a olho nu. Quem fez tudo isso foi o povo português. Mas se atribuímos à elite política um bom quinhão dos nossos erros também é justo dar-lhe um quinhão de crédito pelas nossas vitórias.

No entanto, é quase impossível identificar um político com responsabilidades executivas (deixemos de lado, nesta análise, quem esteve sempre na oposição ou em lugares de mera arbitragem) de quem as pessoas não digam, quase unanimemente, o pior possível. Todos foram ladrões, aldrabões, incompetentes, vigaristas, oportunistas, impreparados. Aliás, a nossa elite económica é especialmente vocal nesta caracterização que obviamente se deixa a si própria de fora.

Nunca votei na votaria em António Guterres. Porque tenho importantes discordâncias políticas com ele, não porque alguma vez o tenha considerado impreparado. Aliás, irrita-me esta ideia que o nosso voto é uma mera seleção de competências, como se todos estivéssemos de acordo sobre o que é melhor para o nosso país. Não voto em incompetentes com os quais tenho afinidades políticas, mas também não voto em competentes de quem discordo. Voto naqueles que desejam o mesmo que eu e o conseguem levar à prática. Mas a caracterização geral que se fazia de Guterres nada tinha a ver com as suas convicções. Eram perfis morais, de caráter e de competência. Guterres era a “picareta falante”, o homem que nem sequer sabia de cor o PIB, aquele que só dialogava e que pôs o país no “pântano”. Era pouco mais do que um bimbo impreparado, um homem ambicioso e sem convicções.

Passaram uns anos, fomos lendo na imprensa que fazia um bom mandato no ACNUR (há, claro, quem discorde), e o seu perfil foi sendo redesenhado. Duas ou três coisas correspondiam a características que já eram evidentes, mesmo para os que, como eu, dele discordavam: que era um homem com uma cultura (geral e política) rara na elite política portuguesa, que estava marcado pela ética social da Igreja que teve sempre efeitos em algumas das suas opções políticas e que, independentemente da sua legítima ambição pessoal, se movia num quadro de vontade de prestar um serviço público. O reconhecimento geral destas qualidades de António Guterres só foi possível, em Portugal, depois do carimbo de qualidade vindo de fora. E esta é o nosso mais perturbante traço psicológico coletivo: o brutal sentimento de inferioridade que nos leva a depositar nos outros avaliações que estaríamos mais preparados para fazer. Não estou a falar apenas da forma como avaliamos os nossos concidadãos. Estou a falar, por exemplo, da reação de muitos à chegada da troika, que seria capaz de fazer o que nós não conseguimos.

Uma das maiores críticas que tenho a fazer a Guterres prende-se com as suas opções europeias: o ter-nos enfiado no euro com uma negociação técnica e política que foi, nos seus resultados, trágica; e o ter avançado nesta opção determinante para o nosso futuro enquanto pátria sem achar necessário qualquer debate nacional. Mas sejamos justos: António Guterres não foi mais do que intérprete de um sentimento geral, sobretudo do sentimento da nossa elite política, cultural e económica. Mas também do povo. Ninguém, por aqueles dias, estava disponível para outro debate que não passasse pelas frases feitas do costume: aprofundar a integração europeia e estar no pelotão da frente. É para mim duvidoso que já tenhamos atingido, como povo, a autonomia democrática para fazer debates fora destes chavões.

Guterres, um homem com uma carreira internacional brilhante (não foi, como Durão, convidado por um poderoso para fazer o papel de jarra) e com um perfil político e técnico muitíssimo acima da média, foi, até ter redesenhado no estrangeiro a sua imagem aos olhos dos portugueses, a personificação do “pântano”. Esse pântano correspondia, e nós ainda não o sabíamos, ao fim de um ciclo de desenvolvimento nacional e aumento da qualidade de vida que marcara o início da democracia e a primeira década de uma integração europeia convergente. Esse pântano não era só nosso, como o tempo veio a mostrar. Era do mundo ocidental, da Europa em particular e especialmente das suas periferias. Mas a incapacidade de discutir política sem que a fulanização esmague o debate mais abstrato e complexo das ideias leva-nos a atribuir aos traços de caráter e de personalidade dos atores políticos o que são, na realidade, as tendências de momentos históricos. E a ver em homens com muitas qualidades todos os defeitos do nosso tempo. Isto não desculpa as responsabilidades individuais de cada político, que pode sempre ajudar a torcer a História. Mas ajuda a pôr as coisas, as desse e as deste tempo, em perspectiva.

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