O governador revisita o PEC IV

.(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 07/03/2016)

nicolau

As coisas são o que são e não voltam para trás. Mas o pedido de ajuda internacional, a que Portugal recorreu em 2011, é uma história ainda muito mal contada. Em entrevista ao Expresso, o governador do Banco de Portugal lança alguma luz sobre o assunto – e dá razão aqueles que dizem que podíamos ter tido outro tipo de apoio dos nossos parceiros internacionais.

Sim, o PSD de Passos Coelho e o CDS de Paulo Portas fizeram uma enorme barragem comunicacional em torno do PEC IV, que chumbaram, levando com isso à demissão do governo Sócrates, à convocação de eleições e a um pedido de ajuda internacional de 78 mil milhões de euros, acompanhados de condições draconianas que lançaram o pais para três anos de recessão, a falência de milhares de empresas, a emigração de mais de meio milhão de pessoas e a restrição drástica dos apoios sociais do Estado.

O PSD de Passos e o CDS de Portas sempre insistiram que o PEC IV não levava a lado nenhum, estava condenado e que Portugal já não tinha nenhuma saída, porque estava falido. Mas a grande questão é saber se Portugal poderia ter beneficiado dessa ajuda internacional noutros moldes e com condições menos desfavoráveis – e se esse plano estava em preparação. Por outras palavras, a grande questão é saber se Portugal poderia ter feito o ajustamento com muito menos dor social do que aquela que foi imposta ao povo português. E a resposta é cada vez mais afirmativa. Sim, podia.

É bom lembrar na altura que já tinha havido o resgate da Grécia e da Irlanda. E que Bruxelas e Berlim não queriam mais resgates, porque temiam que isso alastrasse a países como a Espanha e Itália, fazendo implodir a zona euro. Portugal era, pois (pensava-se na altura), a barreira que se tornava necessário defender para proteger aqueles países do ataque dos mercados.

Contudo, uma ação concertada de pressão política (o chumbo do PEC IV pelo PSD de Passos e o CDS de Portas) e económica (juntando o governador do Banco de Portugal e os presidentes dos cinco maiores bancos nacionais) levou a que o então ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, à revelia do então primeiro-ministro, José Sócrates, fizesse o pedido de ajuda nas condições dos que se tinham realizado anteriormente e muito mais penalizadoras do que se fosse seguido o caminho que estava em preparação.

Como um dos arautos e mentores do pedido de ajuda, Carlos Costa diz que Teixeira dos Santos fez o que tinha de fazer para “evitar um risco muito maior, o de cessamento de pagamentos por parte da República”. Contudo, quando questionado sobre se o PEC IV não teria evitado o resgate, o governador afirma que esse é um quadro que não é possível hoje desenvolver (o que é uma evidência…) mas admite: “O que havia na época era uma vontade de ensaiar uma via alternativa aos programas que tinham sido aplicados na Grécia e na Irlanda” (sic). E mais à frente: “Isso explica porque é que o BCE e a Comissão Europeia se empenharam tanto na aprovação de um plano desta natureza”, ou seja, no PEC IV. E além disso, “explica a boa vontade da chanceler alemã em relação ao PEC IV. Nessa altura havia claramente uma vontade europeia de talhar uma pista diferente”. Mais ainda: “foi talvez a única vez em que houve uma declaração conjunta da Comissão Europeia e do BCE, com a simpatia de outros atores, em relação à necessidade de se avançar com um programa de ajustamento diferente”.

E para que não restem dúvidas, Carlos Costa ainda adianta: “O que posso dizer é que houve uma vontade de seguir caminhos que não eram exatamente os seguidos até então, mas isso implicava uma grande coesão interna em torno do programa, uma determinação para atingir as metas – que seriam as mesmas – e seguramente o consenso europeu, que não foi testado”.

Por outras palavras, o que Carlos Costa diz é que esta via alternativa só não se aplicou a Portugal porque não houve esse consenso interno – ou seja, o PSD de Passos e o CDS de Portas chumbaram esse caminho alternativo (quanto às metas, seriam as mesmas mas o caminho para lá chegar seria diferente; e o consenso europeu obedeceria à sra. Merkel e à Comissão Europeia).

Perguntar-se-à: Passos não sabia do que se estava a passar? Não sabia que Bruxelas e Berlim estavam a gizar um caminho alternativo para Portugal? O próprio Cavaco Silva não sabia disso? É bom lembrar que o presidente da Comissão Europeia era Durão Barroso. O que só nos pode levar a concluir que tanto Cavaco como Passos sabiam, com grande probabilidade, do que estava em andamento mas que, concertados ou não, contribuíram, cada um à sua maneira, para derrubar o governo de Sócrates, o presidente apelando aos jovens para virem para a rua manifestar-se contra os caminhos que estavam a ser trilhados pelo país, Passos decidindo chumbar o PEC IV no parlamento.

Daqui podem retirar-se duas conclusões: a primeira é que Cavaco e Passos agiram porque acharam que o país estava a ir por maus caminhos, que Sócrates estava a agir contra o interesse nacional e que iríamos entrar em rutura de pagamentos a curto prazo; a segunda é que Cavaco e Passos, um por despeito e irritação, outro porque queria chegar depressa ao pote, pensaram sobretudo em si e nos seus interesses, ignorando deliberadamente que havia a possibilidade de uma via alternativa ao pedido de ajuda tradicional como tinha sido aplicado na Grécia e Irlanda. O leitor escolha. Eu já tenho dados mais que suficientes para optar contra a versão “verdadeira” que até agora foi vendida.

10 pensamentos sobre “O governador revisita o PEC IV

  1. Conclui-se que o PSD e o CDS queriam mais o poder do que o interesse do Pais. A febre do poder embota a inteligência e a razão e esta febre é a da ambição em derrotar o governo nem que para isso todos os portugueses sofram e o Pais passe por uma humilhação desnecessária ! Eis a verdade a irromper, de mansinho, mas com bases sólidas, em provas, em testemunhos. Portas é o “independente” feito gente, e funcionou sempre com o maquiavelismo que lhe é conhecido. Passos é o “discípulo” que quis ultrapassar o mestre que depois ostracizou !
    Aguardemos que a história faça o seu avisado caminho !!!

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  2. Essa versão que nos foi vendida foi desmentida antes do chumbo do PEC IV Há um jornalista do NEW YORK TIMES que escreveu um artgo com o titulo Portugal’s unnecessary Bailout, onde comparava o caso de Portugal com o caso espanhol e italiano que estavam em pior situação financeira que Portugal. Houve outros economistas que escreveram no mesmo sentido, mas a gula pelo poder de Passos e Portas e o desejo de vingança de Cavaco passaram por cima dos interesses do país e dos portugueses que tiveram que viram as suas vidas reduzidas à miséria.

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  3. Penso isso desde a campanha para as eleições legislativas na sequência do chumbo do PEC IV … as reuniões politicas e financeiras coordenadas pelo PR (que agora vai à vida com toda a tolerada acumulação das suas várias reformas e outras mordomias) tudo pago pelo OGE (agora já chegarão para pagar as “despesas” que não tem…) reuniões preparatórias que foram noticiadas com pouco relevo mas que a história se ocupará no futuro de corrigir a “estória” da chamada da troika e o período negro que se seguiu foi uma “golpada” … o estado de direito democrático foi suspenso (com maior visibilidade a partir de 2013) porque a Constituição da Republica de 1976 não foi formalmente suspensa… no que diz respeito ao cumprimento dos direitos fundamentais do cidadão “a golpada” culminou com a detenção e prisão sem culpa formada do ex-1-º ministro José Sócrates!
    A ditadura de Salazar foi um estado de direito formal porque Salazar quando subiu ao poder suspendeu o art.º 8 da Constituição de 1933 que incluía precisamente os direitos e liberdades fundamentais …

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  4. O caro NS tem pudor em apontar o autor maior que, como diz, por despeito rancoroso e mesquinhez intolerante preferiu deitar o governo abaixo e correr com Sócrates pondo-se à frente e ao comando da pandilha restante; sem o seu aval nenhum dos outros intérpretes manhosos tinha tomates para contrariar Bruxelas.
    Foi precisamente na manhâ que Sócrates tinha o apoio garantido em Bruxelas que a casa do presidente do “superior interesse nacional” emite um comunicado a dizer que não sabia de nada e logo de seguida o passos, que titubeava pela voz do relvas que sabia da conversa de 4 hora 4 entre Spocrates e passos na noite anterior, de repente dá em comunicar ao povo que também não sabia de nada e a partir daí o grupo, na realidade anti-superior-interesse nagional, entrou em conluio perfeito para a estocada final em Sócrates sem olhar a meios e custos para o país e o povo portugues.
    Provavelmente só a História irá dar a total e verdadeira razão a Sócrates mas, entretanto, é este que foi preso, humilhado e destruido na praça pública, ainda e sempre, sobre o comando e supervisão da mesma pandilha que, esses sim, chafurdaram com todas as imensas patas e bocas no pote onde os portugueses tiveram de colocar bens de vidas de trabalho.
    Infelizmente a História só reparará a honestidade, ética e patriotismo indestrutíveis de Sócrates mas quem viveu à custa de mentiras e bodes expiatórios para maltratar o país e o povo, esses, viverão como satisfeitos nabados do assalto ao pote sabendo que a justiça vai prescrever.

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  5. Que eu me lembre foi por causa de José Socrates (já várias vezes chamado do pior Primeiro Ministro alguma vez existente em Portugal) e foi o próprio PS que negociaram com a Troika as tais condições draconianas do resgate de Portugal. Voltamos aquela teoria que a austeridade de direita é má e a de esquerda não é má. Realmente a memória dos portugueses é muito curta e estou a ver que se tivéssemos mantido José Socrates no poder o País poderia hoje estar orgulhoso de ter um novo Aeroporto um ou vários TGVs sei lá eu um monte de investimentos (altamente produtivos, lol) que ainda hoje e num futuro longínquo estaríamos a pagar. De igual modo e para manter o povo feliz podia-se dar aumentos de 3% todos os anos aos funcionários públicos e assim garantir um estabilidade social ao agrado de todos. Haja pudor e como diz o Medina Carreira só se pode viver com o dinheiro que se tem e não se pode alimentar rogabofes. Já me tinha esquecido, claro que a culpa é da direita, só podia

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  6. Hoje temos a certeza de que a estratégia da direita já vinha desde o tempo da “inventona de Belém”, Nicolau Santos…! E o ódio à pessoa de José Sócrates era de tal ordem que mesmo o PCP e o BE , que se sentiram “invadidos” pela dinânima reformista que o Governo Socialista estava a consegui, optaram pela COLABORAÇÃO VERGONHOSA COM A DIREITA ! .. QUANDO PENSO, QUE BASTAVA ESTES DOIS PARTIDOS TEREM-SE ABSTIDO…! Mas a verdade é que temos um povo dificil, pouco educado/instruido para formar uma opinião pública – que prefere embarcar nas patranhas de todos os media (que estão nas mãos da direita pura e dura (não duvidem)…! Basta ver como o “lider de Massamá” continua com uma % confortável nas sondagens de hoje …!

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  7. Pois, não resisto a adicionar as culpas de António José Seguro que foi incapaz de combater a narrativa da direita permitindo a diabolização do governo Sócrates. “Uma mentira repetida à exaustão acaba por tornar-se verdadeira”

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