Ou mentiu a Bruxelas. Ou mentiu aos portugueses

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 29/01/2015)

nicolau

O debate parlamentar desta manhã ficou marcado pelas acusações da direita à pouca confiabilidade das linhas orientadoras do Orçamento do Estado para 2016, ancoradas na carta da Comissão Europeia ao Governo a pedir mais explicações, na avaliação da UTAO e nas sempre muito isentas análises das agências de rating. Mas para quem foi buscar lã, Passos Coelho saiu tosquiado, com a sua ausência de resposta à acusação de que garantiu a Bruxelas que os cortes nos salários e a sobretaxa do IRC eram definitivos – ao contrário do que nos disse a nós, portugueses.

Não é que não desconfiássemos ou não soubéssemos mesmo. Sempre que o ex-primeiro-ministro, Passos Coelho, aparecia com o seu ar seráfico a anunciar mais um corte salarial dos funcionários públicos, mais uma redução das pensões, mais uma sobrecarga fiscal ou outro ónus da mesma jaez, dizia-nos sempre, para nos sossegar os espíritos, que se tratavam de medidas provisórias. Tudo era provisório. Os cortes salariais seriam devolvidos – mas a sua devolução foi sempre empurrada com a barriga para datas posteriores às que foram sendo anunciadas. Os cortes nas reformas seriam corrigidos – mas sempre num amanhã que não chegava. E o “enorme” aumento de impostos que Vítor Gaspar lançou sobre os portugueses também seria revertido logo que as condições o permitissem – condições que nunca o permitiram.

Não é, pois, que não desconfiássemos. Qualquer economista de meia tigela percebe que os grandes cortes de despesa pública de que o anterior Governo tanto se orgulha concentram-se, no essencial, em cortes de salários e de pensões que foram sempre anunciados como provisórios. E a melhoria das contas públicas assentou em grande parte na subida substancial da receita fiscal, também ela anunciada como provisória.

A margem é estreita? É. O orçamento tem vários riscos? Tem. Mas talvez seja bom lembrar que nos quatro orçamentos elaborados por PSD e CDS houve oito (repito: oito!) orçamentos retificativos e Bruxelas teve sempre de puxar para cima as metas acordadas para o défice e ignorar mesmo a descida exigida de meio ponto anual no défice estrutural. Porque é que devemos acreditar mais na fiabilidade dos orçamentos de Passos e Portas do que no de António Costa e Mário Centeno?

O que nós não sabíamos é que Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque deram a entender ou garantiram mesmo aos seus pares na Comissão Europeia e no Eurogrupo que os cortes seriam definitivos, assim como a subida dos impostos. É claro que os importantes senhores da Comissão e do Eurogrupo, sempre tão atentos quando as coisas não lhes agradam, não se preocuparam minimamente em saber se o que Passos e Maria Luís diziam externamente coincidia com o que garantiam internamente. Ou se souberam não se importaram nada com a duplicidade do discurso. Como eles sobejamente sabem, os portugueses são um povo manso e de brandos costumes que aceitou de mão estendida e cerviz dobrada o brutal ajustamento que lhes foi imposto durante quatro anos, baseado em erros económicos grosseiros, cálculos financeiros mal feitos, desigualdade de tratamento com outros países como sobejamente demonstra o recente relatório de avaliação do ajustamento por parte do Tribunal de Contas Europeu.

Agora, que o atual Governo quer cumprir uma promessa do anterior, a par daquilo que está nos eu próprio programa, aqui d’El-Rey, que o orçamento não é sustentável, que há demasiado otimista, que as hipóteses em que assenta não são realistas e por aí fora. Os referidos senhores bem se podem limpar à toalha com que a França, Itália e Espanha ignoraram olimpicamente os seus ais nos orçamentos que elaboraram para este ano. A margem é estreita? É. O orçamento tem vários riscos? Tem. Mas talvez seja bom lembrar que nos quatro orçamentos elaborados por PSD e CDS houve oito (repito: oito!) orçamentos retificativos e Bruxelas teve sempre de puxar para cima as metas acordadas para o défice e ignorar mesmo a descida exigida de meio ponto anual no défice estrutural. Porque é que devemos acreditar mais na fiabilidade dos orçamentos de Passos e Portas do que no de António Costa e Mário Centeno?

Mas voltemos à vaca fria. Passos Coelho ou enganou os seus pares em Bruxelas ou enganou os portugueses. Não há outra possibilidade. Mas dado o seu histórico – cumprir escrupulosamente e para além do exigido todos os contratos com os credores externos e rasgar todos aqueles que existiam internamente com os cidadãos portugueses – conclui-se sem grande margem para dúvidas que Passos enganou os seus concidadãos. Ou, para usar uma palavra de que não gosta, mentiu aos seus concidadãos. E isso fica para memória futura. Ponto final.

37 pensamentos sobre “Ou mentiu a Bruxelas. Ou mentiu aos portugueses

    • O Programa “MENTIR Á FRENTE” (antes) “ FAZER
      O CONTRÁRIO” (depois)
      59- nós não assinamos o PEC4 porque basta de austeridade.

      1-Nós estamos impacientes ( o Farsola e as suas 59 mentiras)
      2- … Se o problema é que o estado o governo está a prometer alienar participações como quem vende os anéis para ir buscar dinheiro…
      3- …Nós não podemos aumentar esta receita aumentando mais impostoshttp://viriatoapedrada.blogspot.pt/2015/10/as-mentiras-de-passos-coelho.html

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      • O nosso problema é ”NÃO HÁ DINHEURO” disse-o propositadamente não é herro porque isso é umano, quanto a mim não se elimina a doença enganando o resultado das análises, porque continuamos doentes, essa é que é a verdade, nós por acreditarmos em ideologias defendemos os partidos mas com esse acto defendemos mentirosos, canalhas, criminosos, bandidos, ladrões, assassinos…etc.,etc. inadvertidamente. E o problema de Portugal não é um problema ideológico mas sim financeiro que transcende todas as ideologias e todas elas baseiam a sua economia na produtividade (atchimmmmm), umas para redistribuírem os dividendos por quem precisa (deixa-me rir, musica de Jorge Palma) e outras para se aproveitarem dos mesmos para engrandecerem as fortunas pessoais (eles comem tudo, eles comem tudo…,musica de Zeca Afonso) agora de que lado é que nós estamos que ainda não percebi……..estamos do lado do NÃO HÁ DINHEIRO e isso é que é grave, porque andam todos a gastá-lo uns de uma maneira e outros de outra e depois…….há que pagar quer se queira ou não.

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    • Concordo plenamente com a sua afirmação de que a comunicação social moda os factos à vontade de não se sabe muito bem quem… mas na minha opinião a comunicação social não é a principal culpada, os principais culpados são os eleitores que se deixam levar pelo que lhes dizem por preguiça de se interessarem pelo seu próprio futuro.. acho que deveria haver uma consciencialização de cada um para se informarem do que realmente passa e basearem-se em factos no lugar de se basearem no que ouvem…. E mais digo, apesar de acreditar no que é dito neste blog talvez por essa tal preguiça não tinha conhecimento deste caso, e apesar de ser talvez uma coisa “actual” penso que deveria ser do interesse de todos que existissem endereços que comprovassem esta teoria, de forma a que no futuro em que este assunto já se encontre esquecido quem aqui vier ler possa realmente tenha os fundamentos do que aqui foi escrito..

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  1. No momento que estávamos (ainda estamos) as medidas tinham de ser tomadas. PC cumpriu toda programação necessaria e transmitiu ao povo português a esperança de ser passageira. Com o atual “governo pirata” tudo irá agravar e mandam essas conversinhas, “mentiu ou não mentiu” para perdermos o foco à questão Basica, precisamos ser financiados e temos que obedecer regras até a econmia crescer e sermos auto-suficientes.

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  2. Um artigo muito meridiano de Nicolau Santos, que põe os pontos nos ii.
    Objetivamente, Passos Coelho enganou a Europa ou os portugueses, e não é difícil de adivinhar quem enganou, visto que se propunha sempre ir além da troika (Será que não enganou uns e outros?). O seu governo foi incompetente e perdeu-se a conta ao número de orçamentos retificativos que apresentou no Parlamento, sob o olhar complacente de Bruxelas. Maria Luís, enquanto deputada, na sua última fila, ainda não abriu a boca.
    E agora os grandes círculos financeiros vêm fazer ameaças de descida de rating perante um Governo que já teve de apagar fogos que o de Passos Coelho deixou arder, como o BANIF?
    O que Passos prometeu à Europa em termos de tornar definitivos os cortes não vale nada. Foi feito em surdina, não está escrito, nem foi ratificado por nenhum parlamento.
    Os senhores da Europa e da alta finança parem com as ameaças e deixem o atual governo português mostrar o que vale.

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  3. Alguns agentes partidários agem como se a Europa fosse algo lá muito longe, cuja única fonte do que se passa no nosso país fossem as palavras do primeiro-ministro português. Não estivesse cá a troika a inteirar-se permanentemente do que se passava e do que se passa. Mas uma coisa é certa, os cortes teriam e terão que durar mais tempo porque estamos muito longe da saúde financeira que permitia o nível de despesas anterior. O orçamento para 2016, a ficar como está, para a infelicidade de todos nós, vai ser a porta de entrada de uma nova troika.

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  4. Cá por mim estou esperando, sentada, que o actual governo reponha salários e reformas a quem o anterior as quitou. Será que é capaz? Vamos ver quem é mesmo o verdadeiro. Porque não me parece ter sido essa a tónica que marcou a assembleia de hoje. Estão a querer tapar o sol com a peneira?

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  5. Os objectivos de alguns articulistas, pecam pelos mesmos vícios e repetem-se no tempo: em alguns casos, começaram em 1974 em Angola, com as algumas crias tresmalhadas dos colonos, a insultar Portugal, os próprios progenitores e a arrasar os interesses nacionais, regressados a Portugal agarrados às fraldas das mamãs e alguns, hoje ,pendurados no jornalismo e já crescidinhos, mantêm a mesma tendência para lançar a confusão e a anarquia !

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  6. Vamos ver quem mais mente. Eu cá estou esperando, sentada, que este desgoverno reponha os meus valores que ajudaram no pagamento da dívida contraída por um anterior governo (PS, mas legítimo). Mas estão querendo tapar o sol com a peneira? Se assaltaram o poder não deixando sequer que, o governo eleito pelo povo, concretizasse a tarefa que muito bem tinha iniciado, como dizem que mentiu. Mas o que marcou a assembleia de quita feira foi outra postura bem mais interessante! A língua foge para a verdade!

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  7. O Nicolau apontou aqui alguns factores que levaram Portugal a ter arregaçado as calças.
    Esqueceu o mais importante de todos, que foi mesmo o determinante: a CORRUPÇÃO.

    Esquecimento estranho este…

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  8. Amável Cardoso quem será ? Algum fidalgote de brasão comprado no Jerónimo Martins.
    Quanto ao Sr. Nicolau Santos é um conhecidíssimo articulista em que tenho confiança há muitos anos

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  9. Este artigo é provavelmente o melhor sexo oral que um jornalista fez a um governo…
    Só acredita nisto quem quer ou tem memória curta, somos realmente um país de brandos costumes agora manso meu amigo só se for o senhor.

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  10. Claro que o anterior governo andou sistematicamente a enganar as contas . As incompetências ajudam quando os amigos burocratas de Bruxelas são da mesma índole

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  11. Excelente texto! Só é pena que a grande maioria, sabendo que foi miserávelmente enganada, voltou a votar neles! Por isso, nã o creio que haja “memória futura”

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  12. Isto é o que eu chamo total falta de pertinência. Aceita-se a mentira do presente justificando-se com a mentira do passado. Como admete PPC mentiu mas todos sabiamos que tinha mentido. Agora AC mente sobre o fim da austeridade, sobre o regresso definitivo às 35 horas na função publica, sobre a reposição definitiva dos salarios, sobre o fato que aumento do salario minimo não impedira muita gente de aceder a um emprego, etc…
    Esta é a mentira que conta porque coloca o Pais e a trajetoria das contas publicas numa mentira que trara mais desgraça para Portugal. E o pior é que ha muito quem acredita que esta mentira não o é.
    Ha uma diferença entre dizer verdades e discutir a verdade que conta. Fale-nos da “vaca quente” e esqueça a vaca fria.

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  13. Isto é o que eu chamo total falta de pertinência. Aceita-se a mentira do presente justificando-se com a mentira do passado. Como admete PPC mentiu mas todos sabiamos que tinha mentido. Agora AC mente sobre o fim da austeridade, sobre o regresso definitivo às 35 horas na função publica, sobre a reposição definitiva dos salarios, sobre o fato que aumento do salario minimo não impedira muita gente de aceder a um emprego, etc…
    Esta é a mentira que conta porque coloca o Pais e a trajetoria das contas publicas numa mentira que trara mais desgraça para Portugal. E o pior é que ha muito quem acredita que esta mentira não o é.
    Ha uma diferença entre dizer verdades e discutir a verdade que conta. Fale-nos da “vaca quente” e esqueça a vaca fria. Porque a vaca quente, não sei se se apercebeu, esta muito quente.
    Mas claro, poderemos sempre dizer que a culpa é da UE, da Troika ou dos credores…

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  14. António Costa e João Galamba querem convencer os portugueses que em Bruxelas confundiram cortes temporários com permanentes. Onde julgam que se encontram? Na tasca do Zé? Tudo, mas tudo sem excepção, assume a forma escrita, detalhada e burocrática em Bruxelas. Não há o diz que disse, o percebi mal, foi um mal-entendido. Existem sim, políticos deste calibre baixo e indecoroso.

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  15. Apenas um grupo de observações/questões
    1- Dizem que são as finanças de Portugal que estão ‘doentes’: não será antes a nossa estratégia de produzir riqueza que está doente? Não é com aumento de impostos que se vai lá no longo e médio prazo: é com mais actividade económica, mais oportunidades, mais emprego, mais educação, mais justiça
    2- Justiça: em cima refiro justiça. Um sistema de justiça eficaz é um dos pilares de soberania e democracia de um país. O nosso sistema de justiça não funciona: é lento, ineficiente, inoperante e, as multas e/ou penas aos GRANDES prevaricadores são tão baixas que para estes: o crime compensa (não me refiro ao ‘mexilhão’, que está sempre a contar tostões)… ou seja, a culpa ou morre solteira ou chega demasiado tarde
    3- Reinventar a roda: quem chega ao poder , qualquer que seja a côr, parece gostar de desfazer o trabalho já feito: em vez de construír sobre o que existe (melhorar o que está bem, corrigir o que está mal)
    4- Qualidade e Formação dos Governantes: Como garantir que os governantes nomeados sejam, de facto, especialistas nas matérias em causa?; (especialista implica: experiência prática, conhecimento da realidade e conhecimento técnico), por forma a evitar danças de cadeiras: temos variados políticos que já lideraram as mais variadas pastas….. ?
    5- Participação, Cidadania e Comunicação Social (vulgo, ‘média’): É dificil estimular o cidadão comum com o tipo de informação que circula: é quase tudo opinião e demagogia. Para o cidadão comum é dificil compreender muitas das questões económicas e financeiras em cima da mesa- aliás, também o é para o cidadão mais ‘educado’. Os meios de comunicação social parecem incapazes de ‘traduzir’ para linguagem comum essas questões- a comunicação social parece ter perdido a sua componente pedagógica, produzindo cada vez mais ‘opinião’…. e lá porque se fala bem, não quer dizer que não se esteja a dizer um disparate pegado. Enfim, opiniões não são factos: a degradação da qualidade da informação prestada pelos serviços começou nos EUA, mas em qualquer parte é crescentemente um meio de desinformação, propaganda, e de degradação das línguas, quer na forma escrita, quer na forma falada.
    6- Corporativismo e elitismo: Em Portugal transparece a ideia de que os partidos consideram que: advogados/juristas, ecomonistas e gestores são os únicos capazes de contribuír para a boa governação do país….
    o Salazarismo acabou, mas o corporativismo e o elitismo continuam.
    7- Atitude: Liderar e mandar não é a mesma coisa………. Desculparem-se erros presentes com os erros do passado é indesculpável…. ser agressivo e malcriado gera antagonismo em vez de criar oportunidades para o diálogo e busca de consenso…. São os nossos políticos um bando de crianças egocêntricas?
    8- Renovação: é dificil injectar partidos e governos com novo sangue: existe o preconceito de que: quem vai para a política ou é mal formado ou é cilindrado e perde o prestígio profissional conquistado…
    9- Europe: Não podemos ser os ‘yes man ‘ da UE: aqui sim, temos que decidir o que queremos da UE, quanto queremos da UE e impormo-nos: a UE recebe impostos de todos os seus estados membros, inclusivé Portugal: o $$ nã cai do céu. Sem UE a Alemanha não tem força no mundo, e muito menos França e, eles sabem.
    Não estou com tempo para ‘corrigir o Português’ (sorry): e de faCto, recuso o acordo ortográfico bilateral entre Portugal e Brasil.

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