Onde antes estava Deus, a direita coloca hoje a “realidade”

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 30/12/2015)

Autor

            Pacheco Pereira

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Um dos absurdos mais divulgados pela teorização radical de direita e que teve um recente acolhimento numa frase presidencial, é colocar no lugar de Deus aquilo a que chamam a “realidade”. Poucas coisas mais arrogantes passam hoje por ser “pensamento” do que o modo como se faz uma apropriação de algo tão complicado, a “realidade” – se é que ela existe –, para blindar meia dúzia de preceitos de mau economês e pior política, associados a um neo-malthusianismo que deixaria Malthus a corar de vergonha.

A frase de Cavaco Silva poderia ter sido escrita num desses blogues onde se mistura uma espécie de pedantismo de think tank de direita com um enorme revanchismo social e político, e constitui mais um ataque ao Governo actual feito pelo Presidente da República. Diz a frase que “a governação ideológica pode durar algum tempo, faz os seus estragos na economia, deixa facturas por pagar, mas acaba sempre por ser derrotada pela realidade (…)”. A “ideologia económica”, na zona euro, “só resiste como modo de vida de comentadores, de analistas políticos, de articulistas que fazem o deleite de alguns ouvintes, de alguns leitores, em tempos de lazer” (…). “Na governação concreta, o que domina é o pragmatismo”.

A frase é idêntica, no seu modo de pensar, a outra que o Presidente proferiu há uns anos: “Duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar.” Sublinhe-se o “sérias”, ou seja, conformes com a “realidade” e que não são os poetas (na sua variante actual os “comentadores, de analistas políticos, de articulistas que fazem o deleite de alguns ouvintes, de alguns leitores, em tempos de lazer”), que, como Platão (que odiava a democracia) não deveriam poder entrar na cidade. Sublinhe-se o “lazer”, mais uma variante da fábula preferida da direita radical, a da cigarra e da formiga.

Na verdade, colocar a “realidade” onde antes estava Deus, (ou Deus, Pátria e Família), já é um downgrade. Deus sozinho ficava melhor, o “Deus que está do nosso lado”, o “Deus” da guerra justa contra os infiéis, o “Deus” de que emana a Razão Suprema, logo, que é inquestionável, incontornável, de que não há “alternativa”… Ficava melhor se se invocasse que “Deus está do nosso lado” do que dizer que “a realidade está no nosso lado”, mas a maneira de pensar é a mesma.

Quando a gente escava um pouco, ou seja, fica radical no bom sentido filosófico, percebe-se que a “realidade” é uma mistura dos “mercados” como Deus ex machina, com a aceitação sem pestanejar do poder da burocracia da Europa mais a maioria conservadora dos partidos do PPE, personificados pelos alemães, com a prisão por dívidas, na sua nova variante da ditadura dos “credores”, e uns preceitos de economia que se tem titulado de “neoliberal” – classificação que evito a todo o custo porque me arrepia o uso da palavra liberdade, em qualquer conjugação, muito menos para definir uma espécie de determinismo “inevitável” que é, isso sim, uma ideologia autoritária e antidemocrática.

A “realidade” é a escolha do que lhes serve e o envio para as trevas infernais do radicalismo daquilo que os incomoda e os confronta. Mas não é só isso, é também outra coisa, é a contínua degradação da democracia, através do desprezo pela lei como a Constituição (de facto, as Constituições fazem-se contra a “realidade”), e da perda do poder do voto, a favor de instâncias não controladas, supranacionais, como hoje é a União Europeia, ou dos interesses que vivem nos “mercados”. Ou será que é “ideologia” perguntarmo-nos sobre os interesses que estão presentes nos “mercados”? Para eles é, porque os “mercados” são manifestação visível da mão de Deus, ou seja da “realidade”.

Há várias coisas que ficam fora da “realidade”, mesmo quando muitos economistas da escola do Diabo mostram como são desastrosas para a economia e condicionam mais a vida humana, que é a medida do sucesso da economia em democracia. Mas eles não pensam nos homens em concreto, eles pensam nas empresas em abstracto, ou melhor nos “mercados” anónimos e sem face, e pensam também, e não é pouco, no seu conforto social em particular. O deles e dos seus.

Por exemplo, a “realidade” não contempla a desigualdade, esse perigoso conceito da doutrina social da Igreja e da social-democracia. Falas de desigualdade, és um perigoso comunista. A “realidade” não contempla a pobreza nem o aumento da pobreza, mas falar disso é o que torna a Cáritas uma agressiva organização bolchevique. A “realidade” não contempla a degradação dos serviços públicos mais básicos, na saúde, nas escolas, nos tribunais, cujo custo económico é enorme, com perda de qualidade da mão-de-obra (com a degradação do ensino), com uma justiça desigual e ineficaz, com mortes escusadas por esse eufemismo que transformou “cortes” em “poupanças”. Mas dizer isso torna-te aquilo que, no passado, foi Cavaco Silva, um tenebroso keynesiano que usou o dinheiro do Estado para acabar com as barracas.

Não, não é verdade que “duas pessoas sérias com a mesma informação têm de concordar”, porque senão não havia a diferença que faz a democracia. E o problema destas mistelas ideológicas com a “realidade” é que põem em causa a democracia, são a forma pós-crise actual do autoritarismo.

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5 pensamentos sobre “Onde antes estava Deus, a direita coloca hoje a “realidade”

  1. não há conhecimento de algum economista ter sido um bom dirigente de uma nação todos eles se pautaram pela mediocridade . mas isso é apanágio da sua profissão . guarda livros diplomados. mas como somos um país que gosta de repetir erros. repetimos o mesmo erro duas vezes uma foi com o salazar outra com o cavaco…

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  2. Ainda falta um mês para o mandarmos de ida para o « lazer» de Boliqueime com o nosso carro e motorista à altura.. Não há duvida que alguém anda a viver além das minhas possibilidades.

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  3. Isto é que é ser Radical no sentido etimológico da palavra, ir às raízes… JPP é brilhante como sempre, mas aqui é especialmente acutilante. Apetece dizer bravo!

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