A questão presidencial(2)

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 30/10/2015)

Pacheco Pereira

             Pacheco Pereira

1. A candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa é a mais importante candidatura à direita pelos apoios recebidos, embora o candidato a tente colocar num terreno mais centrista. Não penso que o faça por mera táctica eleitoral, mas pela compreensão de que a combinação entre a forte deslocação do PSD para fora do terreno da social-democracia, a sua aliança no âmbito de uma frente de direita com o CDS, e a subsequente radicalização da vida política, não correspondem ao seu pensamento sobre a política e a sociedade portuguesa.

2. Marcelo é conservador em muitas matérias, mas está muito mais próximo da matriz social-democrata do PSD do que a actual direcção do partido. E quando digo muito mais próximo é muitíssimo mais próximo. Uma das raízes do seu pensamento é a doutrina social da Igreja, uma das fontes doutrinais do pensamento de Sá Carneiro e uma componente genética do PPD. É igualmente mais liberal no plano político do que no plano económico, e isso também representa uma inversão da posição de Passos que ama mais as empresas do que a liberdade.

3. Mesmo se, no seu comentário televisivo contínuo e noutras intervenções, tem tido demasiados silêncios e omissões sobre a distância que tem em relação a estes anos da troika e de Passos e Portas, percebe-se que tem maior fidelidade à matriz do PSD e que o incomoda a ligeireza com que ela tem vindo a ser abastardada pela actual direcção do partido.

4. Marcelo compreende também muito bem que a radicalização à direita, criada pela frente PSD-PP, junto com sectores de interesses económicos e sociais que se uniram unha com carne com este Governo, lhe cria grandes dificuldades ao reduzir o seu espaço político e ao dar à sua candidatura um tom que não é a que ele deseja. Marcelo vai tentar fugir dessa pressão à direita, reposicionando-se sempre que tiver oportunidade num espaço central, como já fez ao criticar o discurso de Cavaco excluindo da vida pública o PCP e o BE e, por arrasto, o PS se se aliar com eles.

5. Marcelo não pode contrariar frontalmente Passos e Portas, e aqui por razões tácticas, mas irá refugiar-se em instâncias que o protegem: quer no terreno institucional, dentro do limbo constitucional; quer no do “afecto”, desprovido de conteúdo político. O facto de esta radicalização à direita, ter pela primeira vez suscitado um movimento de unidade à esquerda é para Marcelo um mau sinal, porque vai projectar sobre as presidenciais os conflitos abertos e as feridas do confronto entre o PSD-PP e o PS-BE-PCP, fazendo com que uma segunda volta eleitoral lhe possa ser muito difícil.

6. Pelo contrário, o PS fez tudo para lhe facilitar a vida ao tornar-se agnóstico em matéria presidencial, quando precisava de ter a fé toda num único candidato. Já o disse e repito, é um dos sinais maiores da crise do PS, o ter abandonado aos adversários, na verdade, a Marcelo, o jogo todo. Marcelo precisa dele para ser eleito à primeira volta e precisa muito de ser eleito à primeira volta, para evitar que a “tempestade perfeita” que se vive na política portuguesa, não lhe desabe em cima da candidatura.

7. Como ele próprio já o disse, Cavaco deixou-lhe a pior das heranças, ao determinar que a questão central das eleições será se demite ou não um governo PS-BE-PCP, e se dissolve o parlamento para haver novas eleições, mesmo havendo uma maioria de governo, ou não. Este dilema vai ser o centro da campanha que vai ter que fazer, longe da que desejava fazer.

Ao proceder como procedeu, Cavaco Silva mobilizou toda a direita para a exigência de que o primeiro acto do novo Presidente seja fazer eleições, e os seus eleitores do ex-PAF não lho vão pedir, vão exigi-lo. O clamor será tal que Marcelo, que em condições normais não o faria sem haver uma grave crise de natureza institucional, pode ter que o fazer, mobilizando com esse acto toda uma frente de esquerda que se sentirá não só vitimizada, mas em risco de ser excluída do sistema político.

Não vai ser bonito de ver, com responsabilidade directa de Cavaco que envenenou toda a campanha de Marcelo e condicionou os passos iniciais da sua presidência caso ganhe.

8. No entanto, embora ninguém ligue a isso, a candidatura de Marcelo tem aquilo que chamei uma “mancha ética” que não vai ser fácil de apagar tanto mais que a ela se deve muito do seu putativo sucesso. Que diríamos nós, que diria Marcelo, de alguém que usasse abusivamente dos recursos da sua profissão não só para se colocar numa vantagem em relação aos seus pares, como para deliberadamente os prejudicar numa qualquer competição? O problema não é o facto de Marcelo ter um espaço televisivo ímpar, que conquistou com o seu mérito de comunicador. O problema é que pelo menos nos últimos dois anos, em bom rigor quase sempre, o ter usado até ao limite para promover a sua candidatura e para argumentar contra a daqueles que poderiam ser seus adversários eleitorais. Usou o seu comentário contra Durão Barroso, Santana Lopes e Rui Rio, quando pensava que estes podiam ser seus adversários eleitorais, colocando-se sempre como observador desinteressado. Ninguém acreditava nisso, mas a cumplicidade que este tipo de silêncios gera não é sadia na vida pública portuguesa.

9. E não adianta comparar Marcelo com qualquer outra pessoa que faça comentário e que tenha uma carreira política que beneficie do acesso ao pódio televisivo, porque nem toda a gente que comenta a política pretende ter uma carreira política e eleitoral, ou há contraditório ou é um comentário de representação partidária que já quase ninguém ouve. Claro que foi a TVI que lhe permitiu isso, e Marcelo é em primeiro lugar o candidato da TVI. E sabemos porque a TVI o fez, o que também faz com que Marcelo seja um candidato que foi patrocinado.

10. Deixemos para outra altura outro tipo de patrocínios, igualmente perigosos para o fair play eleitoral, como seja o modo como muitos jornalistas portugueses são completamente acríticos face a Marcelo, para não dizer mais.

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