“Azedume, amargura e ressentimento”?

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 17/08/2015)

Pedro Santos Guerreiro

                 Pedro Santos Guerreiro

Retirado do site do PSD: “Na parte do discurso que ‘arrancou’ mais palmas, Passos Coelho pediu ainda aos portugueses para que decidam com «a cabeça e com o coração», colocando de parte qualquer «azedume, amargura e ressentimento».”

Azedume porquê? Amargura com o quê? Ressentimento em relação a quem?

Por a economia portuguesa ter crescido em média 0,3% nos últimos 15 anos?

Por termos uma taxa de desemprego nos 12% que só voltará aos níveis pré-crise daqui a 20 anos?

Por termos uma dívida pública acima dos 120%, primeiro escondida dos números depois falhada nas metas?

Por termos austeridade permanente em sucessivas medidas temporárias?

Por termos impostos elevados, reformas e salários do Estado cortados, ao contrário do garantido em campanha?

Por termos o salário líquido reduzido mas também o salário bruto cada vez menor, um em cada cinco assalariados a receber o salário mínimo?

Por termos esbanjado fundos estruturais em estradas vazias, túneis incompletos, PPP ruinosas?

A declaração de Passos Coelho, sendo sobre a coligação PSD/CDS, aplica-se também ao PS. Os portugueses têm tudo menos “azedume, amargura e ressentimento” em relação aos três partidos do Centro. Reelegem-nos sempre, em alternância.

Por termos um ex-primeiro-ministro preso, um ex-banqueiro suspeito, um ex-político e ex-banqueiro de pulseira?

Por vermos bancos que eram geridos por políticos e com políticos quebrarem e precisarem de dinheiro do Estado?

Por ouvirmos promessas eleitorais que não são cumpridas, sempre seguidas de aumentos de impostos?

Por todos os compromissos políticos de redução do défice orçamental falharem, ano após ano?

Porque votaremos sabendo que semanas depois haverá um novo Orçamento do Estado que terá mais austeridade do que o anunciado?

Porque não havia alternativa? Porque o mundo mudou? Porque na verdade nunca nada muda?

A declaração de Passos Coelho, sendo sobre a coligação PSD/CDS, aplica-se também ao PS. Os portugueses têm tudo menos “azedume, amargura e ressentimento” em relação aos três partidos do Centro. Reelegem-nos sempre, em alternância. E voltarão a eleger um deles agora, ou uma coligação liderada por um deles, como mostram as sondagens. Até porque a dramatização da maioria absoluta vai dominar todo o discurso eleitoral do PS e da coligação PSD/CDS, provavelmente concentrando votos em prejuízo dos partidos emergentes ou mais pequenos.

Este texto não é uma lista extensa e mal disposta de perguntas, é uma lista pequena e factual de razões de incredulidade. Não tanto com o pedido de Passos Coelho em si mesmo. Mas pela infantilização do eleitorado que ele pressupõe quando, no fundo, o eleitorado sabe bem ao que vai. Só não vai ao engano porque o engano contido nas propostas eleitorais está assumido pelos votam. “Com a cabeça e com o coração.”

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5 pensamentos sobre ““Azedume, amargura e ressentimento”?

  1. Mas será impossível o entendimento?
    Desta ou de outra forma, desde as sucessivas tentativas de domínio Castelhano sobre a coroa Portuguesa, desde a emigração em massa para o Brasil, ex-colónias, EUA e Europa fora, desde a contínua fuga perante o desespero da falta de perspectivas, para o melhor e para o pior, passando pelos mais variados contratempos da nossa longa História, com pequenos interregnos, mal se diga, ou não, o período mais acolhedor para cá viver, creio ter sido no pós-adesão à CEE.
    Com altos e baixos, é certo – até à recente chegada da Troika.
    Agora, mais objectivamente que nunca, os ditames centro-europeus – do centro-esquerda ao centro-direita, que sempre concentraram em si as decisões do que definia a “Europa” como Continente, vão-se dissolvendo numa sempre acolhedora filosofia católico-marxista – dê lá o resultado que isso der.
    A verdade é que, nós, como Povo, Portugueses, nada podemos fazer por via do voto. Está provado pelo Grexin.
    Provado isso – o trago amargo manter-se-á durante muitos e dolorosos anos de habituação ao diktat.
    E é por habituação que retornaremos à Europa a várias velocidades, contra ventos e marés, remando e colhendo os frutos de um sonho que a História sempre nos explicou nos compêndios.
    Com Reis, Presidentes, Clérigos coniventes ou pré-históricos esfomeados, não haja dúvida que a Geografia é que gera a capacidade de inter-relacionamento de povos, é a que proporciona trocas comercias, de cultura e tudo o mais.
    De resto, não existe ninguém capaz de promover milagres onde só existe descrença – essa, que se cultiva em terra infértil, que é agora o “Far West” europeu. Porque nem os descobrimentos tiveram a virtude de nos deixarem o bom exemplo de ensinar e cultivar cá o que aprendemos lá.
    Pobre País, de pouca gente, que quer, vê e não pode.
    Sabe, faz, mas não cá.
    Parte, mas não volta.
    Fica, resigna-se e…
    vota no que há, à falta de melhor.
    E se melhor não há, é porque não há mesmo.
    Fogem para longe, num pequeno Mundo, esfera deformada, de larga linha equatorial, onde morreremos e aceitaremos a sorte de por ele termos passado.
    Do qual temos a moral esperança de um dia cá podermos voltar para uma revisitação.
    E como somos célula de um corpo deformado que, também ele, morrerá – o Planeta, sejamos sensatos e governemos com sensatez, argúcia e respeito.
    É esse o mundo que não temos, mas é mundo com que sonho.
    O Mundo impossível.

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  2. “Por termos um ex-primeiro ministro preso, um ex-banqueiro suspeito…” O ex-primeiro ministro preso está, segundo se sabe, detido em prisão preventiva, uma vez que ainda não foi acusado de nenhum crime, nem julgado, não está oficialmente preso, quanto ao ex-banqueiro “suspeito” o mesmo está detido em prisão domiciliária o que à luz da lei é precisamente igual à situação do ex-primeiro ministro, pelo que só compreendo o critério diferenciador da sua prosa, por um ser José Sócrates e o outro Ricardo Salgado. Critério esse que é todo um programa de intenções…

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  3. Reblogged this on Astrolábio and commented:
    Este texto de autoria de Pedro Santos Guerreiro (PSG) no Jornal Expresso e transcrito no blog “A Estátua de Sal” revela bem o estado de sítio a que chegou a política em Portugal. Entre arriscar — coisa que o português continua a ter medo — e continuar a votar em mais do mesmo, o português comum prefere ser o típico treinador de bancada, que diz sempre mal da equipa mas ao mesmo tempo continua a apoiá-la entusiasticamente.

    Esta é uma entre várias razões pelas quais não me vou dar ao trabalho de votar nas próximas eleições legislativas. Nas presidenciais, logo se vê.

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