O grande desapontamento

(Daniel Oliveira, in Expresso, 15/08/2015)

         Daniel Oliveira

                        Daniel Oliveira

Fez no mês passado 70 anos que os britânicos deram ao Labour, bem mais socialista do que o atual e que até então nunca fora o partido mais votado, uma vitória esmagadora, afastando Churchill do poder. A proposta era simples: se todas as energias e recursos de um país puderam ser mobilizados para vencer uma guerra, seria possível fazer o mesmo para garantir educação, saúde, habitação e emprego a todos. Contrariando a profecias de Hayek, que tão ferozmente se opôs ao programa trabalhista, o reforço do papel económico e social do Estado foi, nas décadas seguintes, o sustentáculo das democracias na Europa. Dirão que as condições eram muito diferentes. Em algumas coisas eram piores: a dívida pública, indicador que tem sido usado para justificar tantos cortes, era, no Reino Unido de 45, superior a 200% do PIB.

Há uns anos ouvi, em Bruxelas, Richard Wilkinson, autor de “O Espírito da Igualdade”, fazer esta afirmação provocatória: “o sonho americano é na Dinamarca”. Lembrei-me desta frase quando li, esta semana, um artigo do jornalista Nicholas Kristof, em “The New York Times”. Negando o mito, ele chama aos EUA a “terra das limitações”. Porque 42% dos filhos dos mais pobres permanecem entre os mais pobres. Na Dinamarca essa percentagem é de apenas 25% e no Reino Unido de 30%. E é por isto mesmo que sou europeísta. As escolhas que se fizeram na segunda metade do século XX, e que começaram naquele ano de 1945, garantiram que a Europa fosse o lugar menos injusto para viver em todo o mundo. E só um bloco poderoso e unido poderia garantir que esta conquista resistiria à globalização económica. Infelizmente, mais de 70 anos depois de uma Europa federal ter sido sonhada por Altiero Spinelli nas fileiras da resistência italiana aos nazis, o que sobra dela é este título de jornal: “Alemanha ganhou €100 mil milhões com a crise na Grécia”. A União tornou-se um instrumento de dominação e o europeísmo que sobra é antieuropeísta.

Dizer, como diz António Costa, que “a Europa é inegociável”, é repetir uma frase feita sem perceber que se está a fugir do único debate que conta. Depois do vergonhoso bullying contra a Grécia, só quem desistiu de fazer política pode fingir que está tudo na mesma. É impossível ir a votos ignorando que o contexto europeu mudou radicalmente. Claro que podemos acreditar que uma milagrosa unanimidade alterará tratados blindados; que, contra a vontade da maioria dos alemães ou finlandeses, o euro virá a ser um pouco melhor para nós e um pouco pior para eles; que outros governos com menos convicção e apoio popular do que o grego resistirão à chantagem financeira. Também muitos cristãos acreditaram no fazendeiro William Miller, quando ele anunciou o regresso de Jesus a 22 de outubro de 1844. E a verdade é que depois do “Dia do Grande Desapontamento”, quando Cristo não compareceu, a fé manteve-se para alguns e assim nasceu a Igreja Adventista do Sétimo Dia. A fé não foi abalada pelos acontecimentos. Mas, valha a verdade, os acontecimentos também não foram abalados pela fé. É por isso que não há lugar para fé em política.

Porque a política aprende com os factos para agir sobre eles. Podemos desejar utopias realizáveis, não podemos deixar de reagir à realidade. Para sacrifícios quotidianos em nome de amanhãs que cantam já chegou o comunismo.

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