FAZER SANGUE

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 15/08/2015)

Clara Ferreira Alves

                            Clara Ferreira Alves

Enquanto os insultados republicanos tentam sacudir o adesivo Trump grudado na respeitabilidade, os democratas aplaudem o circo.

Ferguson estava a arder 36 horas depois. A cidade do Mississípi tem sido o centro dos confrontos raciais mais violentos das últimas décadas nos Estados Unidos mas não parece, se olharmos para as cadeias de televisão, que a violência seja tema presidencial. Porque nas 36 horas a seguir ao debate na Fox News entre 10 candidatos republicanos, o único tema foi o que Donald Trump teria ou não teria dito sobre o sangue de Megyn Kelly. Megyn era a moderadora do debate e quando chegou a vez de Trump disparou à queima-roupa. Trump, que tem sobre as mulheres uma opinião cavalar, é o homem que disse sobre Ivanka Trump: “Se não fosse minha filha provavelmente sairia com ela.” Megyn perguntou se ele continuava a ter opiniões sobre mulheres: caras de porco, criaturas repugnantes, animais estúpidos, etc. Trump replicou: só sobre Rosie O’Donnell. Rosie O’Donnell, com quem teve uma polémica, é uma atriz e comediante lésbica.

E não se falou mais noutra coisa. “The Donald” não resistiu a uma tweetada e fez o que decidira não fazer, hostilizar a Fox News. Acusou Megyn de lhe fazer perguntas inconvenientes e ultrajantes. Dos olhos dela saía sangue, da boca dela saía sangue, saía sangue de qualquer lugar… Os comentadores políticos mais importantes da América discutiram acaloradamente se Trump se queria ou não referir ao sangue… coiso… de Megyn Kelly. As notícias desapareceram, o mundo desvaneceu-se, afinal ele queria dizer que Megyn estava… ou não? Claro que não, disse Trump, já assustado com a coisa. Carly Fiorina, a única mulher candidata republicana, foi chamada à CNN para comentar e o pivot saiu-se com uma tirada cómica: acha que Trump queria referir-se… como dizer… nem sei se consigo dizer isto em televisão… Fiorina salvou-o. Se quer perguntar-me se acho que Donald Trump queria dizer que Megyn Kelly devia estar com o período, acho que sim. E elaborou sobre o machismo no local de trabalho, incluindo o dela, como CEO (despedida, recordou o pivot alvoroçado) da Hewlett-Packard. Estabeleceu-se a doutrina e achou-se palavra menos árdua do que menstruação. O período. A palavra menstruação só foi usada com largueza pelos comediantes dos talk-shows, e Jimmy Fallon fez uma imitação delirante de Trump onde usou e abusou do termo. Curiosamente, a única pessoa na política que não disse uma palavra sobre o assunto foi Hillary Clinton. Os Clintons, que no mesmo debate Trump acusou de terem ido ao seu casamento porque lhes ordenou e porque deu uma mão-cheia de dinheiro à Fundação Clinton, não se pronunciaram. Apesar de se saber que Bill Clinton não resistira a telefonar a Trump (antes de ser insultado). Et pour cause… enquanto os insultados republicanos tentam sacudir o adesivo Trump grudado na respeitabilidade, os democratas aplaudem o circo. Como o ciclo das notícias não para, ao mesmo tempo que Trump fazia picadinho dos nove opositores (existem 38 candidatos republicanos declarados) o espetáculo era ampliado pelos media. Trump está muito à frente em todas as sondagens, o que prova não só o poder do entretenimento na política como atesta a necessidade que os media têm de um candidato colorido que aqueça os espectadores.

Hillary não viu o debate em direto porque a essa hora estava numa recolha de fundos, a grande especialidade Clinton, no feudo democrata da Califórnia e no ninho de Hollywood. Enquanto o país político, largamente ignorado pela maioria dos americanos que não votam, discutia o sangue da Megyn que queria o sangue de Trump, Hillary aparecia numa selfie de Kim Kardashian com Kanye West ao fundo. Entre o reality show da família Kardashian e o reality show da família Trump e as famílias reais Bush e Clinton à compita, rola a América na irrelevância de uma contracultura estimulada e dilatada pela tecnologia. Entre as selfies e as redes sociais não escorre grande pensamento e a campanha, enquanto Trump nela se mantiver (e tem dinheiro para se manter), será uma arena donde saltam interpretações do que diz que disse. Ele domina o vazio como ninguém.

Passada a crise financeira, que pôs a política em primeiro plano por causa dos resgates e estímulos, e no final de um mandato de Obama que reconstruiu a economia e conseguiu concretizar ou torpedear metas republicanas (apanhar Bin Laden, criar um sistema público de saúde, aumentar o emprego, apoiar o casamento gay, etc.), a América regressa ao seu destino: prescindir da política e da regulação e deixar o mercado tomar conta do sistema. A política serve-se como espetáculo numa sociedade que só respeita o espetáculo e paga-se como espetáculo. Uma campanha é uma batalha sanguinária de milhões de dólares e só chega ao fim quem os cativar. Um Donald Trump jamais será nomeado, apesar do tempo de antena, porque o sistema tende para o equilíbrio, mas deixará uma marca. A democracia é, em 2015, exclusivamente mediática. Antes de ser democrática.

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Um pensamento sobre “FAZER SANGUE

  1. A contradição? é que a sociedade americana se mantém a frente, em nível de vida, prosperidade, domínio económico… e todas as sociedades que são defendidas pelos nossos excelentes , inteligentes bem pensantes “cerebros” das causas justas, vão ou falindo(Venezuela, Cuba, Grecia..) ou degenerando em rosbife de porco (China, Coreia, Russia). Nada que desanime a nossa esquerdalhada de pacotilha.

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