Duas pesadas heranças: a de 2011 e a de 2015

(José Pacheco Pereira, in Publico, 06/05/2015)

Pacheco Pereira

                 Pacheco Pereira

A táctica eleitoral da coligação PSD-CDS é só uma: levar a votos em 2015 a herança da bancarrota de Sócrates e nunca, jamais, em tempo algum, permitir que se faça o julgamento de 2015 da herança governativa de Passos Coelho-Portas. A estratégia da coligação PSD-CDS é manter na vacuidade do seu programa eleitoral as mesmas políticas de 2011-5, escondendo deliberadamente o seu conteúdo impopular através de fórmulas ambíguas e da mentira por omissão.

O contexto das eleições, o seu tempo e o modo, muito ajudados pelo Presidente da República, é que estas se façam com meia dúzia de números positivos sofríveis (mais números do que séries), fazer apenas as comparações estatísticas que valorizam esses números (exemplo: “o melhor ano de exportações de sempre”, o que é falso), ocultar pelo silêncio tudo o que corre mal, desemprego, penhoras, falências, pobreza, caos nos hospitais e escolas, etc.

Contam para esta operação com a fragilidade da memória mediática, sempre a de ontem e nunca a de anteontem, que ajuda a moldar o passado às interpretações utilitárias do presente. Acresce que muito do editorialismo nos jornais, os comentários televisivos em canal aberto, o peso da imprensa económica, os novos think tanks conservadores, dentro e fora das universidades, financiados pelos interesses económicos, ajudam a esta tarefa de esquecimento e legitimação. Os partidos da coligação, as suas agências de comunicação e os seus órgãos de comunicação e participação orientada nas redes sociais estão de tal maneira comprometidos com o sucesso desta coligação, que reagem pavlovianamente a tudo o que a belisque. Veja-se o modo como Sampaio da Nóvoa foi de imediato sujeito a um fogo de barragem, mesmo antes de se mexer e o mesmo se passou com o spinorientado a propósito do programa do PS e da ocultação de eventos negativos como a lista VIP no fisco, rapidamente “ilibado” por um relatório da IGF, feito por uma sua antiga assessora, de que não se conhece o conteúdo probatório.

É também por isso que existe hoje um consenso, no qual participo, sobre os malefícios das PPP, parte do “passado” de 2011, e ninguém pára para pensar como serão vistas daqui a meia dúzia de anos as privatizações deste Governo, parte do “passado” de 2015. Não tenho grandes dúvidas de que, com o passar do tempo, e à medida que se for sabendo mais sobre as privatizações da EDP, REN, PT, CTT, e talvez a TAP, a concessão dos aeroportos à ANA, e que começarmos a sentir os seus efeitos perversos, as veremos com a mesma indignação e recusa com que hoje vemos as PPP. Uma nota de passagem: fala-se menos dos swaps do tempo de Sócrates, porque a ministra das Finanças e outros membros do Governo estiveram implicados nas suas negociações…

Não digo isto porque tenha havido privatizações, mas pelo modo como os interesses do Estado não foram acautelados em áreas estratégicas para a nossa soberania e que vão manietá-lo ou impor-lhe custos proibitivos para o futuro, deixando que Estados estrangeiros, a começar pelo chinês, ou dinheiros angolanos de obscura origem, tenham em Portugal a energia, a rede de distribuição, uma parte da comunicação social e das telecomunicações, e uma parte considerável da banca. Faz parte da pesada herança do “passado” de 2015 aquilo que, numa das suas frases descuidadas, Passos Coelho disse sobre a sua indiferença quanto à natureza e nacionalidade do capital que vinha para Portugal. A frase é uma variante muito adequada de Deng Xiaoping: “Não importa se o gato é preto ou branco, desde que ele cace os ratos. Resta saber quem são os ratos.

Se o PS fosse outro e não estivesse manietado pela sombra incómoda do preso n.º 44, pelas grilhetas europeias e pela procura pomposa da respeitabilidade e da “confiança” (dadas pelo “outro”), mimetizando o discurso da coligação com os mesmos pressupostos, embora com nuances nas medidas, esta táctica de apenas falar do país de 2011 e silenciar o país de 2015 poderia ser contraproducente. Assim não é. Do ponto de vista do conflito de “narrativas”, a coligação tem vantagem. Deu-se a transformação do PS num partido de secretaria, que se manifesta essencialmente através de declarações à imprensa, intervenções parlamentares em que não brilha, apoio a uma central sindical que se péla por fazer acordos “responsáveis” e vê o mundo do trabalho perder força todos os dias como se não fosse com ela, da participação nas internacionais europeias do socialismo em que não se conhecem nem posições, nem diferenças e por aí adiante. Se o PS não estivesse tão acomodado, já há muito teria percebido que vai a caminho de um desastre.

Na verdade, no confronto entre dois “passados”, o de 2011 e o de 2015, o de 2011 permanece mais oneroso, em parte porque foi realmente oneroso, mas também porque a crítica ao “passado” de 2015 precisa de ser feita com uma verdadeira alteridade de discurso e não com as meias-tintas do PS. Podia-se dizer que isso acontece com o PDR, BE, o Livre, mas não é verdade. Em todos estes casos há um excesso de umbiguismo e sectarismo que impede a existência de uma verdadeira oposição a este Governo. O PDR não se sabe o que quer e, entre a tentação do populismo e um real boicote comunicacional de que é vítima, permanece num limbo cujo futuro dependerá das eleições de 2015. É pouco. O BE está numa crise quase terminal e nada é pior do que se ser baço depois de se ter brilho. Sobrevive de algumas personalidades no Parlamento, como Mariana Mortágua, mas fora disso é mais uma organização contracultural do que um partido político. O Livre/Tempo de Avançar roubou imensos quadros ao BE, mas está enredado em procedimentos burocráticos internos, que entretêm a tribo, mas que nada significam para fora. Quer o BE, quer o Livre estão também presos em variantes de esquerda do europeísmo que os impedem de dar a devida atenção à gravidade da crise da democracia que vem da União Europeia. A facilidade com que deixaram cair os gregos mostra também pouca firmeza de posições e a incompreensão das ameaças europeias.

O PCP é uma excepção a este puro umbiguismo, mas escapa-lhe apenas pela sua dimensão e composição social e não pelo fechamento do seu discurso. O PCP há muito abdicou de fazer um discurso para fora de si próprio e o que tem feito é explorar, com sucesso, aliás, um crescimento e uma consolidação interior às suas próprias fronteiras. É um monólito pesado e firme, que solidifica uma resistência social por via sindical, que muitas vezes é incómoda para o Governo, mas que tem como efeito bloquear também qualquer movimentação mais ampla. É duro e inflexível, mas não é útil para que em Portugal haja movimentações populares mais amplas do que o seu próprio terreno e, por isso, Portugal não é a Grécia, nem a Espanha, nem a Itália.

O resultado é que muitos portugueses não se sentem representados no sistema político. Esses portugueses foram os alvos do “ajustamento” dos últimos anos. Uma parte importante é aquilo a que se chama “classe média”, mas não só. São todas as pessoas com quem um governo que as desprezava actuou de má-fé. Esses portugueses são de esquerda e de direita, para usar as classificações tradicionais, e não são só “de esquerda”. Tratados como o sendo pela linguagem sectária do PCP ou do BE, ficam alienados e isolados, pasto do populismo, ou, ainda pior, da apatia e anomia política. E são esquecidos pelo PS, que tem medo de, ao falar por eles, cair no anátema de ser um Syriza nacional.

Este Governo e esta coligação não mudaram – esta é a herança de 2015. Estão mansos, em modo eleitoral, mas são os mesmos e, acima de tudo, não conhecem outras soluções senão as mesmas que aplicaram com zelo ultratroikista. Os seus alvos não mudaram, os seus amigos não mudaram, a sua ideia de um Portugal singapuriano não deixou de existir, bem pelo contrário. A sua visão da economia tem os trabalhadores apenas como força de trabalho que deve ser barata, cordata e não fazer greves. Debaixo dos 600 milhões do PEC estão os cortes nas pensões em pagamento. Debaixo do palavreado sobre a “reforma do Estado” estão despedimentos e cortes salariais e por aí adiante. E é por isso que não há programa eleitoral: há Linhas de Orientação para elaboração do Programa Eleitoral que não são “linhas”, nem de “orientação”, nem “elaboradas”, nem “programa eleitoral”. Dizem apenas: votem na avozinha e não vejam o lobo mau por baixo do disfarce.

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