Em vez dos sindicatos, os motins

(Daniel Oliveira, in Expresso, 01/05/2015)

         Daniel Oliveira

                       Daniel Oliveira

A sindicalização caiu 41,8 pontos percentuais nos últimos 34 anos. Temos 665 mil sindicalizados (em 1979 eram 1,5 milhão) para 4,5 milhões de trabalhadores e 770 mil desempregados. Se, em 1978, 61 por cento dos trabalhadores eram sindicalizados, hoje são apenas 19 por cento. É como se os sindicatos tivessem sido varridos do país. Os dados foram referidos num artigo de Manuel Carvalho da Silva, Elísio Estanque e Hermes Augusto Costa, publicado em “O Futuro da Representação Política Democrática” (Nova Vega), um livro organizado por André Freire. A tradição sindical portuguesa não ajuda. Temos sindicatos partidarizados; a CGTP tem uma estratégia exclusivamente conflitual e a UGT exclusivamente negocial; o sector industrial perdeu peso nos sindicatos enquanto o sector público tem uma representação relativa desproporcionada. Mas, apesar de haver um crescimento do sindicalismo na China, onde se vive um tipo de capitalismo muito particular, ou uma resiliência na Alemanha, onde os sindicatos participam na cogestão das grandes empresas, a crise é estrutural e extensível a quase todo o Ocidente.

A perda de direitos dos trabalhadores é causa e consequência da decadência do sindicalismo. É causa, porque a precarização das relações laborais, a perda de vínculo ao destinatário final do trabalho e o crescente isolamento de cada trabalhador dificultam a representação sindical. Os sindicatos que temos, tal como os partidos que temos, foram pensados para um tempo em que a realidade social era mais estável e fácil de mediar. E para um tempo em que o conflito social e político se fazia à escala nacional e o capitalismo era dominado pelo sector produtivo. A globalização permitiu uma harmonização por baixo dos direitos laborais. A financeirização do capitalismo tornou a propriedade difusa, volátil e caprichosa. É consequência, porque partir a espinha aos sindicatos foi um elemento central da contrarreforma social e laboral a que assistimos e que, lendo as propostas dos economistas do PS, não é programa exclusivo da direita.

A crise do sindicalismo é paralela à crise dos partidos e de todas as organizações de representação social. É uma crise da democracia. Não me refiro ao estado de crise permanente, que é constitutivo da própria democracia.

Falo de uma crise que pode corresponder ao seu estertor. Custa dizer, mas dificilmente esta realidade globalizada, precária e atomizada terá forma de representação democrática. E isso sente-se apenas de forma mais aguda e rápida nas classes subalternas: os trabalhadores. As promoções do Pingo Doce, no 1º de Maio, fazendo da data histórica uma humilhação dos trabalhadores, transformados em desesperados consumidores de bens essenciais, e a greve egoísta dos pilotos da TAP, dando a um sindicato o papel de representante de candidatos a uma privatização, são apenas a manifestação quase anedótica da tragédia que vivemos. Não tenho saída para isto. Sei que não há paz social e política sem representação institucional do conflito. Quando o conflito é desinstitucionalizado e chutado para fora do sistema, não deixa de existir. Apenas fica latente. Acabará por se manifestar de forma descontrolada e incontrolável. Em vez dos sindicatos, os motins.

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2 pensamentos sobre “Em vez dos sindicatos, os motins

  1. «Em vez dos sindicatos, os motins.» Sem dúvida. Mas os amotinados perdem sempre. Os grevistas, hoje em dia, também – porque a relação de forças é tal que muitos trabalhadores pura e simplesmente não se podem dar ao luxo de fazer greve.

    Entre a greve de rotina e o motim espontâneo tem que haver um meio termo. Quando os patrões dos hipermercados ousaram pela primeira vez investir milhões para garantir um símbolo de força – a abertura das lojas no dia 1 de Maio – os sindicatos deviam ter começado a delinear a estratégia para que esse atrevimento não se repetisse no ano seguinte. Para que fosse materialmente impossível repeti-lo.

    Espero que para o ano não haja um único hipermercado aberto no dia 1 de Maio. Trabalhar para isso é o dever mínimo de qualquer sindicalista. Obrigar uma loja a fechar por um dia não pode ser assim tão difícil para quem se disponha a agir no limite da legalidade, que é onde se situa a linha vermelha traçada pelos patrões.

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  2. Até que enfim alguém se atreve a dizer aquilo que muitos pensam e não dizem. O Daniel tem razão a palavra greve caiu no naquela que diz mais uma greve dos comunistas e já ninguém nos resultados e os próprios governos já nem ligam a isso. Parte dos nossos dirigentes sindicais perderam a credibilidade e só eles não vem essa realidade. O que era à quarenta anos hoje é diferente. Os sindicatos pensaram sempre da mesma maneira. O mundo tem mudado e todos temos que se adaptar e arranjar novos meios de intervenção. Esta greve da TAP no meu entender está a ser um falhanço e sem saída para os trabalhadores e estão a fazer um grande favor ao governo. E vamos se me engano.

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