A mordaça de Cavaco Silva

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Cavaco Silva tem uma mordaça. Dá pelo nome de “luta político-partidária”. Mordaça que lhe permite não estar cá, e não falar sobre nada que aflija o País e os portugueses. É evidente, que os partidos políticos emitem, por norma, opinião sobre o que vai ocorrendo no país, concordando ou discordando uns dos outros, atacando-se ou coligando-se. Ou não fossem organizações empenhadas na (res)pública, no funcionamento da sociedade e na sua desejável transformação.

Assim sendo, tudo o que interessa ao país, pode ser sempre rotulado como fazendo parte da “luta político-partidária”, o que permite que Cavaco Silva nunca tenha opinião sobre os desnortes deste governo de zombies, desta governação moribunda que ele vai insuflando a sopros continuados de oxigénio.

Os portugueses morrem nas urgências? Cavaco não diz nada porque isso é assunto para comentadores e faz parte da “luta político-partidária”.

Os portugueses passam fome? Cavaco assobia o fado de Boliqueime.

A Justiça escreve o guião dos folhetins do Correio da Manhã? Cavaco não lê jornais e não dá por nada.

A Procuradora Geral da República diz que o Estado está tomado por redes de corrupção? Cavaco não faz parte do Estado, nunca o viu mais gordo, e o professor Marcelo que escalpelize o tema na sua homilia dominical.

Os portugueses são penhorados pelo Estado por não pagarem dívidas privadas, como é o caso das portagens das SCUT – o que deveria ser considerado manifestamente inconstitucional porque a máquina do Estado não pode ser “emprestada” a custo zero a privados? Cavaco não paga portagens e portanto não corre o risco de lhe penhorarem a casa da Coelha.

O Sindicato do Ministério Público diz que a tutela da PJ deve ser transferida do Ministério da Justiça para não depender do poder político que nomeia as chefias da Judiciária e controla os meios que põe ao dispor dos investigadores podendo, desse modo, pré-formatar as investigações? Cavaco está a banhos e deve achar que o dito Sindicato é um porta-voz da oposição.

O Banco de Portugal deixa na miséria os pequenos aforradores que compraram papel comercial do BES, muitos deles influenciados pelos sábios conselhos do Presidente, que achou por bem incentivá-los dizendo que o BES era um rochedo de solidez? Cavaco deixa o tema aos partidos – que curiosamente também não lhe pegam -, já que não corre o risco de ter prejuízos pessoais porque só comprou papel do BPN e vendeu-o a tempo, antes do descalabro.

O Primeiro-Ministro interfere na Justiça, condenando um ex-primeiro ministro – ainda nem sequer acusado, quanto mais julgado -, e fazendo um atentado público ao princípio basilar da presunção da inocência, pedra angular de qualquer sistema de Justiça numa sociedade civilizada? Cavaco não percebeu as alusões de Passos, nem sabe quem foi José Sócrates, nem sabe que está detido, e achou que Passos Coelho estava a contar uma história para embalar crianças.

O Primeiro-Ministro não pagou à Segurança Social, foi processado por dívidas fiscais várias, diz que não conhece as leis, e veio a pagar, e apenas em parte, só quando empurrado pelas notícias dos jornais? Cavaco considera o tema um assunto menor, uma quezília de vão de escada, uma espécie de folhetim de pacotilha onde navega a luta político-partidária.

Cavaco Silva, foi chefe de partido. Foi Primeiro-Ministro, mas trata o debate político como se este fosse um jogo de sueca ou bisca lambida, do qual se deve afastar para não conspurcar a sua imaculada figura.

Não foi para isso que os portugueses o elegeram, nem é isso que se espera de um Presidente da República. Cavaco não sabe o que é a República, à qual supostamente preside. Estão bem os partidos quando tomam posição e debatem a coisa pública. É da sua função.

Está mal Cavaco Silva quando se limita a gerir, seletiva e de forma conivente, os seus silêncios. É que não é necessário falar para se fazer luta-político partidária. Há silêncios que valem mil palavras porque são os silêncios dos cúmplices, dos culpados, jamais o Silêncio dos inocentes. Esse era um título de filme em que, curiosamente, o personagem central também era Aníbal. Ou melhor, Hannibal Lecter, psiquiatra e canibal.

 Estátua de Sal

07/03/2015

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