Falta política, sobram pecados e outras moralidades

(António José Teixeira, in Expresso Diário, 19/02/2015)

António José Teixeira

António José Teixeira

Será que, afinal, há bluff no desafio que a Grécia está a colocar à Europa? Há bluff grego, quando Varoufakis, o especialista em teoria de jogos, já tinha prometido não cair em tentação? Há bluff europeu na voz arrependida de Juncker? A história destes dias parece mais sombria do que esperançosa. O problema é político. Apenas, e só, político. Depois da Grécia, há eleições na Estónia, Finlândia, Reino Unido, Dinamarca, Polónia, Portugal e Espanha. Há erros que não se querem reconhecer, calvários difíceis de renegar, radicalismos a censurar. Por vezes, de onde menos se espera, há mea culpa. Aconteceu com o Fundo Monetário Internacional, estranhamente envolvido na união económica e monetária europeia, voltou a acontecer ontem com Jean-Claude Juncker. O presidente da Comissão, até há pouco líder do Eurogrupo, reconheceu finalmente que houve erros graves nas imposições colocadas aos países sobre assistência financeira. «Pecámos contra a dignidade dos cidadãos da Grécia, de Portugal e muitas vezes também da Irlanda», confessa Juncker. No mesmo dia, o ministro das Finanças alemão elogiava Portugal, «a melhor prova de que os programas funcionam». Por estranho que possa parecer, nada disto é necessariamente divergente. A decadência europeia destes anos faz-se de muita irracionalidade. Pretensa moralidade, pouca racionalidade, seja económica ou política. A linguagem do pecado aplicou-se, e aplica-se, aos latinos do sul, repetidamente olhados como preguiçosos e gastadores pelos do norte e do centro. Ao mesmo tempo que confessa o «pecado», Juncker tem consciência do risco da confissão pública. Sabe que pode parecer «estúpido» (sic), mas é por uma boa causa: «É preciso não repetir os mesmos erros.» A nuance de Juncker, depois do ultimato aos gregos, é aquela ideia do «somos todos pecadores», à maneira do «somos todos Charlie». Solidariedade que, como Merkel propagandeava ainda ontem num comício, não pode funcionar «apenas num sentido». Todos pecadores, mas têm de cumprir as regras… Insustentáveis, contraproducentes? Pouco importa. O triunfo de uns radicais, mesmo que esclarecidos, não pode ser premiado. Seria um mau exemplo, uma ameaça de contágio. Schauble é pouco dado ao eufemismo: «Sinto muito pelos gregos. Elegeram um governo que se comporta de forma irresponsável.» Anda muito pecado à solta, e outros tantos castigadores, quando precisámos muito de combatentes pela lucidez.

A dissonância de Juncker e Schauble é pouco convincente. Seria útil se fosse consequente. A Europa precisa urgentemente de discutir ideias

Poderíamos estar a viver uma fratura ideológica. Liberais, democratas-cristãos, sociais-democratas, verdes, comunistas… Pontos de vista diferentes, contrastantes, clivagens bastantes sobre o projeto europeu. Puro engano. Os mais distraídos dirão que a direita é a culpada desta deriva austeritária e que a solidariedade com as vítimas da crise financeira se situa à esquerda. As aparências iludem. O preconceito sobre os latinos do sul não distingue família política. Quando Rui Tavares era deputado europeu, eleito numa lista do Bloco de Esquerda, contou-me que se tinha confrontado com o mesmo preconceito no seio das famílias políticas de esquerda com que se relacionava. Não se vislumbram grandes clivagens. O holandês que preside ao Eurogrupo é um socialista, tal como o francês que é comissário europeu para a economia. Os parceiros de coligação dos cristãos-democratas na Alemanha são os sociais-democratas. Politica e economicamente, em pouco ou nada se distinguem. Pensam pouco, discutem pouco, desistiram de um papel histórico exigente. São os homens e mulheres dos grandes eufemismos do ajustamento. Abdicaram dos princípios que nortearam a construção europeia. Dissolveram a diferença, o contraste, a alternativa, a capacidade de negociação e entendimento. Negaram a política. Refiro-me sobretudo aos sociais-democratas e socialistas, em boa parte executores dos programas de liberalização económica desenhados pelo capitalismo financeiro. Falhos de programas de esperança, comprometidos com a estagnação, vão assistindo, impotentes, ao crescimento de forças radicais. Não deixa de ser irónico que algumas medidas de inteligência e bom senso venham dos apelidados «irresponsáveis» e que, afinal, os responsáveis se limitem à intransigência cega, incapazes sequer de argumentar e debater. O pior que podia acontecer à Europa é ficar tolhida entre o pecado e a punição. Agora também paralisada pelo calendário eleitoral, corre riscos sérios de desagregação, desde logo porque o uníssono de Bruxelas é tão aparente como empobrecedor. A dissonância de Juncker e Schauble é pouco convincente. Seria útil se fosse consequente. A Europa precisa urgentemente de discutir ideias, fazer política e envolver os cidadãos. Também os gregos. Também os portugueses, agora olhados como meninos do coro.

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