A dignidade de Juncker

(Pedro Santos Guerreiro, in “Expresso Diário”, 19/02/2015)

Pedro Santos Guerreiro

          Pedro Santos  Guerreiro

“Pecámos contra a dignidade dos cidadãos na Grécia, Portugal e muitas vezes na Irlanda”.

Ou a Comissão Europeia é uma instituição irrelevante e Jean-Claude Juncker um papagaio inútil, ou a crise na zona euro começou a mudar esta noite de rumo. A afirmação de que a troika pecou contra a dignidade dos cidadãos dos países intervencionados é muito mais do que uma confissão de arrependimento ou de fracasso, é uma declaração política que desentala a negociação com a Grécia, entala o governo português e confronta a Alemanha.

Reconhecendo falta de “legitimidade democrática” à troika, o presidente da Comissão Europeia afirmou: “Pecámos contra a dignidade dos cidadãos na Grécia, Portugal e muitas vezes na Irlanda também”. E prosseguiu que podia parecer estúpido, uma vez que tinha defendido (e praticado) a política que agora criticava. “Mas temos de aprender as nossas lições do passado e não repetir os mesmos erros”.

Esta declaração separa antes de unir. Separa a Comissão Europeia da Alemanha, não se percebendo ainda qual delas ficará isolada. Racha a troika ao meio, pois o FMI há de discordar frontalmente de Juncker. Abre espaço político para a negociação em curso com a Grécia. E cria um problema político a Passos Coelho, que fica numa posição bastante embaraçosa de defender a mesma política económica que (até) a Comissão Europeia considera violadora da dignidade dos cidadãos portugueses.

Todos percebemos desde muito cedo que a negociação da Grécia não é com a troika, mas com a Alemanha. Juncker meteu o pé na porta. Veremos se fecha ou abre.

A reação do CDS, apressada e patética, mostra bem esse embaraço: Nuno Magalhães fez uma interpretação mirabolante das palavras de Juncker para dizer que o CDS defende o mesmo desde sempre e que a situação atual portuguesa era a contrária, a de quem tinha fugido do protetorado. Marques Guedes ao menos não foi sonso: apelidou como infelizes as declarações de Juncker, não escondendo portanto o desagrado. E Pedro Passos Coelho há de explicar amanhã no Parlamento que não, que não houve ofensa nenhuma à dignidade dos cidadãos portugueses com a troika, pois pecado foi falir e ter de pedir apoio externo.

Todos percebemos desde muito cedo que a negociação da Grécia não é com a troika, mas com a Alemanha. É precisamente entre os dois países que o discurso se radicalizou, num ambiente hostil que dificilmente poderá gerar um consenso que mantenha a Grécia no euro. Juncker, que há de estar a ser chamado de traidor por Merkel, baralhou o jogo a favor da Grécia. Começando por separar-se da Alemanha, a Comissão Europeia pretende unir a Grécia. E essa disposição pode virar a negociação para um resultado de cedências e conquistas recíprocas que mantenha a unidade da zona euro. Ou isso ou a Comissão Europeia é uma representação do nada, que pesa peso que uma pluma em cima de um cachalote. Não é impossível.

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