CRÓNICA DE UM ORÇAMENTO ANUNCIADO

conselho_ministroBarítono Coelho olhou em volta, para a grande mesa em forma de ferradura, polvilhada de estações de trabalho SUN as quais, apesar de obsoletas, ainda iam cumprindo o seu papel. Foi contando as cabeças, lápis azul afiado em riste, e concluiu que estavam todos, os ministros. Não havia faltas a marcar. E foi dizendo grave:

– Meus senhores, está aberto o Conselho de Ministros, com um único ponto na ordem de tra­balhos: aprovar o Orçamento Geral do Estado para 2015.

Paulo Tropas levantou o dedo de imediato para pedir a palavra e foi dizendo, suave, mas com alguma rispidez encoberta na voz:

– Sugeria ao colega que a ordem de trabalhos fosse discutir e aprovar o Orçamento e não ape­nas aprovar o Orçamento. A ser só para aprovar era melhor termos reunido por teleconfe­rên­cia como fizemos no Conselho de Ministros que liquidou o Banco do Santo Espírito. E ele­vou um pouco mais o tom, martelando as vogais: – Alguma vez temos que começar a cortar nas gorduras do Estado.

Todos se entreolharam, tentando medir para que lado haviam de cair, e um silêncio embara­çoso percorreu a sala. Até que, uma voz feminina quebrou o impasse. Era Luisinha Queque:

– Colegas, não temos tempo para discutir, as contas estão feitas, os cortes estão sabiamente disfarçados, e não posso gastar nem mais um cêntimo. São as ordens que tenho vindas da Flan­­dres. Ponto. E empertigou o nariz olhando todos e cada um à vez e terminando em Tropas. Este então respigou, como se impulsionado por uma mola:

– Colegas, eu tenho a minha face a salvar. Prometi que baixava os impostos. Prometi que subia as reformas. E desculpem: eu não me quero suicidar nas eleições, até porque não sei fazer mais nada além de campanhas, visitas e almoços com investidores estrangeiros. Para quem é neófito nas lides políticas e eleitorais (e olhou de soslaio para Luisinha Queque), não custa continuar a penalizar os eleitores. Não alinho nisso. Ponto.

No lado direito da mesa, ao lado de Tropas, Sério de Lima esboçou um sorriso enigmático. Esperava-se uma palavra de Barítono e esta surgiu:

– Bem, de facto não temos tempo, mas vamos fazer como na Assembleia da República. Eu vou fazer de Assunta DeLux, e vou dar um minuto a cada um para comentar a proposta de orça­men­to. E como por artes mágicas, ei-lo de cronómetro em punho. Quem começa?

Jurídico Maduro antecipou-se a todos e foi debitando: – Bem a Europa não nos dá a folga insti­tucional que os Tratados deviam prosseguir no âmbito de uma juridicidade mais solidária, pelo que devíamos seguir uma postura noemática de reivindicação. Como o meu ministério está bem, nada mais tenho a comentar e por isso em relação ao orçamento, I’m out.

Barítono Coelho ficou meio confuso, e foi inquirindo na passada: – Isso significa que o colega não vai aprovar o orçamento?! Jurídico foi lesto a esclarecer: – Colega Barítono, claro que vou aprovar. Só quis dizer que estou fora da discussão porque não há nada a discutir.

Então, Miguel dos Fogos antecipou-se e disse: – Eu por mim, que tive um verão nublado e chu­voso, que poupei uns milhões largos em helicópteros e corta-fogos, queria pedir para desviar as verbas poupadas para as polícias, e para poder comprar tinteiros para as impressoras das esquadras e para novos fardamentos. Como não aumento a despesa tenho todo o direito a essa alteração. I’m in.

Barítono Coelho ficou de novo confuso, e foi inquirindo na passada: – Isso significa que o cole­ga não vai aprovar o orçamento?! Miguel dos Fogos foi lesto a esclarecer: – Colega Barítono, claro que vou aprovar. Só quis dizer que estou dentro da discussão e que quero gastar nas polícias o que poupámos nos fogos. Ainda estava com o fogo entaramelado na língua e já Luisinha Queque retorquia:

– Colegas, eu não vou permitir desvios. Devo anunciar que o orçamento já está aprovado pela Tia Ângela, pelo Mário Bazuca e pela Cristina Hermès. Não sei porque estamos a perder tempo. Vai-me dar uma trabalheira passar as verbas dos fogos para as polícias e não sei se a folha que o Mago Gaspar me deixou o permite.

Aí Barítono, num gesto de autoridade apaziguadora, interrompeu: – Colega Luisinha, este seu minuto já acabou, veja lá o que pode fazer na folha de cálculo. Quem é o próximo? Avançou Santinha Cristas:

– Bem, no meu ministério está tudo a correr bem. Muitos jovens agricultores têm despontado e nem temos tido que importar estudantes para as vindimas. A azeitona saiu carnuda e nutrida e o vinho tinto tem sido vendido aos árabes em toneis que seguem as normas de qualidade ISO9001. O setor está moderno e florescente. Devido aos dotes negociais do Paulo Tropas te­mos trocado pipas de vinho do Douro por barris de petróleo. O orçamento está escorreito, mas temos que baixar os impostos. Por isso, I’m in.

Barítono Coelho ficou outra vez meio confuso: – Isso significa que a colega não vai aprovar o orçamento?! Santinha Cristas, suave e aveludada, respondeu prontamente: – Colega Barítono, claro que vou aprovar. Só quis dizer que não quero mais dinheiro do orçamento. E terminou, desta vez enfática: – Mas que se devem baixar os impostos, lá isso devem!

Luisinha Queque revirou os olhos e empinou o nariz: – Colegas, quero que notem bem que não é comigo que estão a brincar: não irritem a Tia Ângela!

Barítono olhava para o teto como se procurasse uma ideia salvadora quando Sério de Lima se perfilou. Normalmente era ouvido com atenção redobrada. – Caros colegas, eu vou ser breve neste meu minuto. A indústria está a erguer-se, mas as exportações deixaram de crescer. Se as empresas não vendem, vão despedir, cobramos menos impostos, pagamos mais subsídios de desemprego. Lá se vai a consolidação orçamental e temos que pedir ao Engº. Sócrates para chamar de novo a Troika. Assim, só vejo uma solução: aumentar o consumo interno para as empresas venderem mais. Logo temos que baixar os impostos. Por isso, I’m in.

Barítono Coelho, desta vez teve que ajeitar os óculos aos quais ainda não se habituara bem e que, por vezes, lhe resvalavam pelo nariz abaixo: – Isso significa que o colega não vai aprovar o orçamento?! Sério de Lima, martelando as sílabas: – Colega Barítono, claro que vou aprovar. Só quis dizer que o desemprego nos estraga os números do deficit e que o Tribunal Constitucional não nos deixaria nunca abolir o subsídio de desemprego. É por isso que se devem baixar os impostos!

Desta vez Luisinha Queque considerou a provocação séria de mais, rapou do tablet onde trazia a folha de Excel do Mago Gaspar, executou meia dúzia de fórmulas de rajada e vociferou:

– Não há folga para baixar impostos. Qual foi a parte que não percebeu? Quero informar o Sr. Ministro Sério de Lima que não haverá aumento de despesa com subsídios de desemprego se o consumo interno não subir. A solução que encontrámos é simples: processamos os subsídios mas como não há dinheiro pagamos em Títulos do Tesouro a resgatar no prazo de 20 anos. Como os desempregados não sobreviverão tanto tempo, nada haverá a pagar de imediato pelo que o déficit não será afetado. A isto se chama gestão criativa da despesa, Sr. Ministro. E empertigou mais uma vez o nariz olhando um Ministro atónito, branco e sem fala.

De repente, o ambiente na sala tornou-se mais pesado. Barítono Coelho batia com o lápis na mesa. Tropas não levantava os olhos das folhas A4 que sempre o acompanhavam: ainda não era hora de avançar. Até que Barítono Coelho prosseguiu: Quem mais se quer pronunciar? Avançou Paulo Gestor:

– Bem, a saúde não está bem. Não há médicos, não há enfermeiros, não há pensos, não há dinheiro para os remédios de ponta, e o pior mesmo é que já começa a não haver dinheiro para pagar aos privados. Os hospitais estão em colapso, e temos de contratar mais 1000 médicos cubanos. Só vejo uma solução: ou privatizar os hospitais todos e perder as eleições, ou aumentar os impostos para pagar a saúde pública. Por isso, I’m In.

Barítono Coelho acorreu com presteza: – Isso significa que a colega não vai aprovar o orça­mento?! Paulo Gestor nem hesitou: – Colega Barítono, claro que vou aprovar. Só quis dizer que temos que aumentar a despesa com a saúde de imediato, pelo menos até às eleições, e ganhando-as podemos então privatizar o que resta do SNS à vontade.

Desta vez, Luisinha Queque sorriu deliciada. E de novo o silêncio percorreu a sala. Olhavam todos para os écrans das estações de trabalho. Barítono, olhou para o cronómetro e, de repente ouviu-se uma voz. Era Paulinha de Truz:

– Bem, eu tenho que reconhecer que a Justiça parece que foi vítima de mau-olhado. Tudo tem corrido mal e devo informá-los que temos que atuar depressa: Preciso de tribunais novos, de substituir contentores, de mais funcionários judiciais, e mais que tudo de um CITIUS novo. Só vejo uma solução: ou privatizar os tribunais todos e perder as eleições, ou aumentar os impostos para pagar a Justiça. Por isso, I’m In.

Barítono Coelho brusco, mas ainda assim em tom compreensivo: – Isso significa que a colega não vai aprovar o orçamento?! Paulinha de Truz balbuciou: – Colega Barítono, claro que vou aprovar. Só quis dizer que temos que aumentar a despesa com a Justiça de imediato, pelo menos até às eleições, e ganhando-as podemos então privatizar os tribunais, e se calhar até o próprio Tribunal Constitucional.

Todos se entreolharam apreciando o brilhantismo da ideia e uma onda de simpatia gerou-se na sala em torno da tão criticada ministra Paulinha. Luisinha Queque sorriu mais uma vez. E de novo o silêncio os rodeou. Até que nova voz se levantou. Era Nuno Gralha:

– Bem, a educação não está mal porque até poupámos em ciência, em professores, em bolsas, em escolas, já que um país pobre não pode dar-se a tantos luxos. Demos um grande contributo para o ajustamento. Reconheço que falhámos na formação da matemática básica, mormente na aplicação das fórmulas para colocar os professores. Mas isso não é mais que um pequeno detalhe do processo. O MEC não precisa de mais dinheiro e, colega Barítono, escusa de me perguntar se vou aprovar o orçamento, porque vou mesmo. Como disse a colega Luisinha nem sei porque perdemos tanto tempo a discuti-lo, pelo que I’m out.

Barítono Coelho, rodou o lápis entre os dedos e foi dizendo: – Alguém mais se quer pronunciar? Paulo Tortas sopesou o molho de folhas A4 e levantou o dedo antes de começar. Levantou-se da cadeira mesmo. Gostava de olhar a plateia de cima para baixo:

– Colegas, não vim para aqui discutir as fórmulas da colega Luisinha Queque e do Mago Gaspar. Num Conselho de Ministros deve-se discutir a política, na política e pela política – disse lapidar. E passou para nova página A4, continuando: – Qual deve ser o objetivo de um político em democracia? Ganhar eleições. E que hipóteses temos agora de derrotar o Abrenúncio Costa? Nenhumas se não baixarmos os impostos. E que hipóteses teremos de continuar a privatizar o que ainda resta se não ganharmos eleições? Nenhumas. Pelo que – e virou nova página A4 – aqui quero deixar irrevogavelmente expresso que só aprovarei o orçamento se reduzirmos o IRS, se aumentarmos as pensões mais baixas, se acabarmos com os cortes da função pública, e ainda – e fez uma pausa para criar suspense na sala – e ainda, se aumentarmos o salário mínimo para 800€. Tenho dito.

Barítono Coelho, estava lívido. Pediu um copo de água que bebeu tão sofregamente que quase se engasgava. A sala entrou em grande burburinho. Luisinha Queque colocou a carteira a tiracolo e fez menção de se levantar. Barítono travou-a e deu 3 murros na mesa, tão violentos que o monitor da SUN ia tombando na alcatifa. Todos se calaram. Luisinha antecipou-se a Barítono e disse:

– Quer-me o Sr. Ministro de Estado explicar onde vai buscar o dinheiro para isso tudo? E os olhos esverdeados chispavam lume.

– Tropas, calmo, e com o traquejo de velha raposa de múltiplos debates foi respondendo:

– É simples. O Abrenúncio Costa foi o bilhete da lotaria que nos saiu. Se tivéssemos que enfren­tar o Tó Zé Queixinhas, era tudo fácil e não tínhamos que abrir os cordões à bolsa. Como é contra o Abrenúncio só temos que ameaçar a Tia Ângela com as alianças à esquerda que ele vai fazer (mesmo que não vá) e com a implosão do sistema político-partidário, como já foi adiantando o Acabado Silva. Acham que não é ameaça que a assuste?

Estavam todos siderados. Ele era genial, o Tropas. Era de mestre.

Barítono coçava a cabeça, afagando a calvície nascente. O burburinho continuava. Barítono deu outro murro na mesa e disse: – Meus senhores, está encerrado Conselho de Ministros. Vamos todos para casa, meditar, e no fim-de-semana, haverá um Conselho de Ministros Extra­ordinário, sem pagamento de horas extra para dar o exemplo à populaça.

E virando-se para Parques Guedes que estava encarregue de fazer as atas e que tinha estado sempre calado a tomar apontamentos: – Olha Parques, diz para a Imprensa que o Conselho de Ministros discutiu o perigo do ébola entrar no país, concluindo que o vírus não gosta do tom de pele dos portugueses e que foi aprovada a portaria que regula as multas a aplicar aos donos dos papagaios não registados.

Palácio de São Bento, 10 de Outubro de 2014.

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