O Costa do Castelo

O Costa do Castelo é um filme português de 1943, realizado por Artur Duarte, tendo nos principais papeis, entre outros,  António Sacramento, António Silva e Curado Ribeiro, e faz parte da época de ouro do cinema português, anos 30 a 40 do século passado, caracterizada, no essencial, pelo grande sucesso de obras de comédia de cariz musical e popular.

Os enredos eram simples:  decorriam quase sempre dos anseios de ascensão social da pequena burguesia urbana que, por milagre inesperado de amor ou fado, se aproximava e apropriava dos sucessos, prestígios e estilos de vida de outras classes melhor posicionadas na hierarquia social.

A que propósito recordamos este filme? Trata-se apenas de uma pequena divagação metafórica.

Ontem António Costa venceu as eleições primárias no PS com quase 70% dos votos expressos. E tal vai merecer-nos algumas reflexões:COSTA

  • O processo das primárias é inédito, no quadro da escolha dos agentes políticos em Portugal, e apesar dos incidentes mais ou menos feios da campanha, pode dizer-se que foram um sucesso em termos de participação cívica;
  • A eleição de Costa deveu-se mais às escolhas dos simpatizantes do que dos militantes ou quadros do partido;
  • Tal só demonstra que o país, alinhado ou não com o PS, votará em tudo o que for mudança, seja a mudança do governo, seja a mudança da própria oposição como agora se viu, e fá-lo-á de forma expressiva;
  • Provavelmente, dificilmente a partir daqui, poderão os restantes partidos furtar-se a um processo de legitimação interna das liderança que não passe por um processo de eleições primárias ou algo semelhante;
  • O que será difícil avaliar, para já,  serão quais os motivos subjacentes à escolha dos eleitores de Costa. Algumas hipóteses de trabalho:
  • Votaram contra Seguro porque o achavam mau ou pouco convincente. Alguns sim.
  • Votaram em Costa porque o achavam mais capaz de derrotar a coligação governamental nas eleições de 2015. Muitos sim.
  • Votaram em Costa porque acham que a oposição a este governo foi débil, pusilânime, e que pelas malfeitorias que nos infligiram, já deviam ter sido apeados, o que não aconteceu por falta de energia e de liderança de Seguro. Muitos sim.
  • Votaram em Costa porque acham que ele irá reverter muitas das ações de esbulho de salários e pensões, de desvalorização do trabalho, empreendidas por este governo. Muitos sim.
  • Votaram em Costa porque, no cenário de catástrofe que assola o país, no contexto das baias da dívida que nos esmaga e dos ditames de Bruxelas que nos espremem, acham ser o mais capaz para liderar um amplo bloco de forças sociais e políticas (à direita e à esquerda do próprio PS), capaz de renegociar a dívida, seja no que toca aos juros ou aos prazos de pagamento, e capaz também de discutir e obter de Bruxelas uma qualquer flexibilização dos limites do deficit público. Alguns sim, creio.
  • Finalmente haverá os que votaram em Costa por todas estas razões. Seguramente uma grande parte.
  • É óbvio, que cada um dos eleitores de Costa, saberá melhor que ninguém os motivos da sua escolha. Aquilo que não é ainda claro é a forma como o ganhador Costa irá ou não satisfazer as motivações que presidiram à escolha de cada um dos seus eleitores. Porque a política é a arte de optar em cenários de objetivos contraditórios, será mais que certo que não poderá satisfazer todos que o elegeram com igual parcimónia.
  • E não se trata de não ter esclarecido as suas propostas, como o acusaram os comentadores de serviço da propaganda governamental, ou os apoiantes de Seguro.
  • Meia dúzia de coisas que disse são mais que um programa político para uma geração: acabar com desemprego jovem; apostar na excelência científica e na tecnologia; valorizar os rendimentos do trabalho; financiar as empresas para as colocar ao serviço de políticas ativas de emprego; combate à pobreza infantil e juvenil; e sobretudo restituir a esperança ao país e o futuro à nação.
  • A questão que está por esclarecer é como se propõe levar à prática tal programa político, tendo em conta as restrições de contexto político, monetário e orçamental que limitam a ação dos decisores públicos no atual cenário da integração europeia que o país subscreveu.
  • Porque, como diz o provérbio: O diabo está nos detalhes, e são os detalhes que Costa terá que esclarecer com urgência e com a clareza possível do momento.
  • Porque a sua legitimidade, é neste momento, avassaladora, perante um governo ferido por casos, contestado desde as ruas até ao seu próprio seio, envolto em trapalhadas e tiros no pé, sem estratégia nem norte, sem ação consequente ou desiderato que vá para lá de privatizar mais umas quantas coisas antes de ser sepultado.
  • Mas o tempo urge. O PS que passe para lá dos formalismos e acelere o calendário: se Costa fica na Câmara de Lisboa; se vai a diretas, se haverá congresso, se ainda é ou não é secretário-geral, é pouco relevante.
  • O relevante é que diga a quem o elegeu, e de passagem ao país, o que vai fazer, o que quer fazer, com quem conta hoje e com quer vir a contar amanhã, que nos conte e reconte qual o rumo para o seu percurso, que passe do plano das opções políticas gerais e que aterre na definição dos detalhes.
  • E que não diga que ainda não é hora. Os portugueses comem e vivem todos os dias, e vivem cada vez pior, dia após dia.
  • É que aquilo que diga já hoje, influenciará de imediato a ação do governo ainda em funções, levando-o a temperar as suas opções e mitigando, pelo menos isso, os estragos que ainda pode provocar ao país.
  • É isso que se espera, para já, de António Costa.

Como aconteceu com Simplício Costa, no final do Costa do Castelo, que se reconciliou com um amor perdido e durante anos desaparecido, assim António Costa consiga reconciliar o país com a coragem que perdeu e com a esperança que lhe sido negada pela atual governação. A bem dum povo antigo que vai sobreviver e honrar a sua História, e que irá continuar a escrever o seu próprio futuro porque é esse o querer das suas gentes.

29-09-2014

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