Que os olhos não vejam o que a política faz

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/09/2015)

menino

A diferença entre pessoas politizadas e as que não o são não é apenas serem mais ou menos informadas sobre os temas da política. É a capacidade de olhar para os problemas para além da experiência pessoal das suas consequências. As pessoas despolitizadas tendem a basear as suas posições políticas baseando-se quase exclusivamente nos seus interesses. A politização permite um processo de construção racional sobre os problemas e um enquadramento ideológico que dá coerência ao pensamento para lá da experiência individual. As pessoas politizadas não são mais generosas. Longe disso. Apenas aprenderam a pensar para lá das suas circunstâncias.

A politização também permite que se tenha uma relação mais racional e menos sensorial dos problemas. Uma pessoa politizada pode preocupar-se sem precisar de se comover. Isto é por vezes confundido com insensibilidade. E por vezes até é mesmo insensibilidade. As convicções podem fazer isso a uma pessoa. A despolitização tem o efeito exatamente inverso e ainda mais perverso. A prioridade dos problemas, que é geralmente egoísta, apenas é subvertida quando qualquer coisa tem um efeito emocional de tal forma forte que perturba esse egoísmo. O problema dos outros só se torna mais importante que os nossos quando é visível e impressionante. É por isso que um cidadão despolitizado é tão fácil de manipular.

A imagem arrepiante da criança síria espalhou-se pelos canais de televisão, jornais, redes sociais. E de repente o sofrimento atroz de centenas de milhares de pessoas passou a ser mais do que uma notícia. Foi preciso pessoalizar. Pior: foi preciso que fosse uma criança. Foi preciso chegar à mais terrível das imagens para humanizar o problema. A insensibilidade perante uma das maiores tragédias que a Europa presenciou desde a II Guerra era tal que só mesmo a mais repugnante das imagens podia acordar os espíritos adormecidos.

As seleções fizeram minutos de silêncio. Pedro Passos Coelho esqueceu-se que, em 2014, não aceitou em Portugal um único dos 45 sírios e eritreus que nos foi destinado e interessou-se pelo assunto. David Cameron recuou depois de tratar os refugiados como “peste”. O mundo comoveu-se e os políticos que se têm mostrado totalmente indiferentes ao sofrimentos destas pessoas tiveram de mudar o discurso.

Gostaria de acreditar que é uma mudança. Mas cheira-me que se trata apenas de um intervalo. Mais: que haverá um esforço para despolitizar o tema dos refugiados. Dir-se-á, sobre o primeiro que tentar falar da política para os refugiados e criticar os que têm transformado a Europa numa fortaleza, que está a explorar o sofrimento das pessoas para fins políticos. Como se o sofrimento das pessoas não tivesse nada a ver com política.

Um excelente exemplo disto mesmo é uma edição recente do “Daily Mail”. Numa página, a foto da criança e a referência a uma “tragédia épica”. Noutra, a imagem de centenas de refugiados a chegar a Inglaterra, sem rostos, uma turba indistinta, com o título: “Não aguentamos esta maré”.

Num lado a comoção com o sofrimento individual. No outro a insensibilidade perante o problema coletivo em que a vítima é transformada em perigo. O que o tabloide britânico está a fazer é política: tu sentes uma coisa perante um caso concreto mas não podes deixar de pensar no geral. Só que o faz, e isso é a parte desonesta da coisa, manipulando sentimentos: como antídoto para a compaixão damos-te o medo. Porque sabem que não foi a morte da criança que comoveu a Europa que constrói muros que deixem o sofrimento do lado de fora. Foi a imagem da criança morta. Crianças, têm morrido muitas nesta tragédia. E adultos. Gente desesperada que foge de horrores inimagináveis. O intervalo só se fez porque a imagem obrigou as pessoas a verem o que querem que fique para lá dos muros de indiferença que, na maior parte dos países europeus, defendem.

Os campos novamente

(António Guerreiro, in Publico, 28/08/2015)

António Guerreiro

     António Guerreiro

Os campos, sob a forma de centros e lugares de retenção, voltaram à Europa e disseminaram-se por toda a fronteira do Sul da União Europeia. São espaços geridos pela polícia, subtraídos à ordem jurídica normal, que funcionam como diques para reter o enorme caudal dos “fluxos migratórios”. A situação está fora de controlo e assemelha-se àquela “explosão” que se deu no coração do continente europeu entre as duas guerras mundiais, assim descrita por Hannah Arendt em O Imperialismo, num capítulo em que a filósofa analisa o declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem: “[As guerras civis] desencadearam a emigração de grupos que, menos felizes do que os seus predecessores das guerras de religião, não foram acolhidos em nenhum sítio. Tendo fugido da sua pátria, viram-se sem pátria; tendo abandonado o seu Estado, tornaram-se apátridas; tendo sido privados dos direitos que a sua humanidade lhes conferia, ficaram desprovidos de direitos”. E num artigo de 1943, We Refugees, escrito para um jornal judeu de língua inglesa, Arendt terminava em tom de exaltação, como se tivesse acabado de identificar um novo sujeito da história: “Os refugiados representam a vanguarda dos seus povos”. Mas o refugiado que Arendt definiu a partir do modelo do apátrida — produto de uma dissociação entre as fronteiras administrativas do Estado e a realidade política dos homens — implicava, como o nome indica, a ideia de refúgio, tanto geográfico como jurídico: os refugiados judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, conseguiram embarcar para a América tinham um destino que os orientava à partida e contavam com a vontade política de uma protecção.

Os actuais “migrantes” que se lançam ao mar para alcançarem o território europeu são, pura e simplesmente, “deslocados”, fogem da guerra e da miséria, na esperança de conseguirem encontrar um lugar, uma direcção, um sentido.

Verdadeiros refugiados na Europa, no sentido jurídico da Convenção de Genebra de 1951, são uma ínfima parte deste fluxo de forçados migrantes que, mal entram em território europeu, são ainda menos do que párias: são uma massa incontrolada de indesejáveis estrangeiros, assaltantes contra os quais a fortaleza europeia não consegue erguer muros eficazes nem fazer valer as suas armas de dissuasão. À nossa frente, está a passar-se algo que não queremos olhar: o regresso a formas de brutalização e barbárie, a instauração de espaços anómicos onde, novamente, “tudo é possível”. Sem conseguirmos vislumbrar soluções para o problema, desistimos também de uma vigilância capaz de nos lançar este alerta: os campos que regressaram à Europa, em grande número e por todo o lado, muito embora não sejam regidos pelo regime de excepção que presidiu à tanatopolítica — à política da morte — dos regimes totalitários, não nos dão garantias de que nenhum descarrilamento terá lugar e nenhuma inclinação criminosa latente poderá seguir o seu curso. Não podemos hoje ignorar que há uma lógica terrível imanente ao campo como figura: ele acaba por desenvolver uma zona cinzenta onde todas as situações-limite, à margem de todos os direitos, se tornam possíveis. A imensa bibliografia sobre o que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, tanto os testemunhos dos sobreviventes como as descrições e análises historiográficas, mostram que uma biopolítica humanitária, como aquela que se tenta difundir na projecção pública dos campos actuais, também esteve presente nos campos de retenção nazis, antes da instauração dos campos de extermínio. A fé na história e na razão, como sabemos, é a última religião de doutos muito imprudentes.