Estaline, James Bond e um PSD no campeonato dos pequenos pela notoriedade

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/08/2021)

Recebo, com frequência, mails de uma agência de comunicação sobre candidaturas autárquicas do PSD. O que quer dizer que o mesmo interlocutor me dá notícias de Vladimiro Feliz e Suzana Garcia, confundindo a identidade dos dois só porque a agência, que devia ser quase invisível, é a mesma. O amadorismo exibe, no entanto, o que parece ser o problema da comunicação política do PSD: os marketeiros ganharam a liderança da campanha autárquica do partido. E quando isso acontece o desastre é mais do que certo.

O marketing (apesar de ter passado brevemente pela publicidade, prefiro “propaganda”, mas a palavra ganhou má-fama) e a assessoria de comunicação são úteis na política. Comunicar exige especialização e profissionalismo como me tenho de fartado de escrever e dizer sobre a pandemia. Mas a função é auxiliar, não substitui a direção política. E de política a generalidade dos publicitários e assessores de comunicação sabe raspas.

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No Seixal, para atacar o executivo comunista, o PSD faz cartazes com a cara de Estaline, Mao Tsé-Tung (saberão os publicitários que o PCP nunca foi maoístas?) e Che Guevara, com trocadilhos divertidos com “dar um bigode”, charutos e “Mao, Mao, Maria”. A coisa foi até um pouco mais longe quando a candidatura decidiu “renomear” ruas do concelho, destacando-se, por exemplo, a “Rua em Memória das vítimas das FP-25” em lugar da Rua Movimento das Forças Armadas, a “Rua 25 de Novembro” em substituição da Rua 1º de Maio ou a “Rua Major-General Jaime Neves” em substituição da Rua General Humberto Delgado. Ao que parece, as coisas estão em contradição.

Começaram por dizer que era uma “ação concertada com vista a começar[mos] desde já a limpar o comunismo das ruas do Seixal”. Depois, perante a insustentabilidade do PSD tratar Humberto Delgado, o MFA e o 1º de Maio como símbolos do comunismo (como disse, a maioria dos publicitários sabe pouco de política), deram a desculpa de que eram ruas repetidas no concelho. Tanto faz, o objetivo de ser notícia estava conseguido. O assessor de uma agência de comunicação achou importante comunicar a colunistas, talvez na esperança de que alguém como eu escrevesse um texto indignado e criasse tração numa campanha que tem de competir por espaço mediático com centenas de outras.

As provocações funcionam como memes para as redes sociais, se se dirigirem, como geralmente acontece nas redes, aos convencidos, procurando tornarem-se virais através deles. Ninguém acredita que os muitos não comunistas (e até anticomunistas) que votam CDU nas autárquicas porque apreciam o seu trabalho deixarão de o fazer por causa de um discurso hiperideológico mais dirigido ao meio social e cultural dos publicitários que conceberam aqueles cartazes do que aos seixalense que poderiam votar PSD. Mas esta é uma guerra pela notoriedade em campanhas que se fazem cada vez nas redes e nos media.

Em Oeiras, um PSD esvaziado por um Isaltino Morais que Rui Rio quase apoiou tenta disfarçar a ausência de propósito da sua candidatura com outdoors “jovens” e mais ou menos absurdos. O absoluto desconhecido Alexandre Poço, vindo diretamente da JSD e disponível para o frete autárquico, aparece em pose de James Bond, fingindo ter uma arma na mão e dizendo que para ele não há missões impossíveis, a mais evidente confissão de que considera aquela missão impossível.

A agência de comunicação, esquecendo que a candidatura é do candidato e não sua, explica em “press release” que “os outdoors demonstraram ser diferentes e disjuntivos, provocando alguma controvérsia pela distinção da comunicação política”. Quando o mágico explica o truque percebemos que se esqueceu da sua função.

No site, a candidatura pergunta: “Por que raio devo votar no Poço?” “Porque vai plantar árvores por cada voto que tiver” ou “Autocarros à borla, curtes?” E termina, sempre pensando que está a falar com malta da JSD: “Pah, se ainda não estás convencido, já nem sei.” Preparado “A Dar Tudo por Oeiras”, Alexandre Poço apresentou a estreia do primeiro vídeo da campanha em que salta de avião. Porque é “um político diferente”.

Não é difícil perceber o objetivo desta campanha. Ninguém em Oeiras alguma vez ouviu falar do líder da JSD. Eu próprio não escreveria uma linha sobre ele se não fossem aqueles cartazes. O objetivo é, como no Seixal, a notoriedade. Não para vencer, mas para que o líder da jota não seja humilhando. Só que o PSD tem, com isto, um problema. A Iniciativa Liberal pode transformar o partido num produtor incessante de “memes”. Dirige-se a um nicho de mercado e a fase em que se encontra é essa. Assim como o Chega pode atacar o MFA e o 1º de Maio. Dirige-se a um nicho de mercado politicamente ressentido. O PSD é um partido com história e de poder e o mimetismo das estratégias de pequenos estreantes corrói a sua identidade nacional. Não é uma questão moral, é mesmo uma questão de marketing, se quiserem.

Ao contrário do que fazem com grandes empresas, os publicitários não se preocupam com a imagem daquela marca a longo prazo. Os candidatos pagam-lhes para esta eleição. Neste caso, candidatos sem qualquer possibilidade de vencer eleições, apenas desesperados para se salvarem de uma humilhação. Candidatos que jogam num campeonato muito abaixo do do partido. Mas, com a sua estratégia, que até lhes dá mais visibilidade do que outras campanhas sérias do PSD, degradam o próprio valor do partido, reduzindo-o à campanha dos pequenos.

Mas a secundarização do PSD não se resume a concelhos onde é irrelevante. Em Lisboa, os marketeiros tiveram uma ideia brilhante: fazer um cartaz igual ao de Fernando Medina, subsistindo a cara do presidente da Câmara pela de Carlos Moedas e “Mais Lisboa” por “Melhor Lisboa”. A brincadeira deu direito a noticias, mas a IL veio por cima e, com o rosto do seu candidato anónimo e de recurso, escreveu “mais e melhor dos mesmos?”. Como costuma acontecer quando imita o Chega, o PSD foi derrotado pelo pequeno IL.

Não é por serem cinzentos que os grandes partidos não fazem este género de campanhas. É porque o seu eleitorado é demasiado heterogéneo, a sua dimensão não lhes permite ter o mesmo jogo de cintura e elas funcionam para furar a invisibilidade, não para as pessoas imaginarem aquele candidato como presidente da Câmara. A campanha do PSD de Lisboa está a conseguir fazer esquecer a aura sóbria com que Moedas chegou a esta candidatura. Porque os marketeiros sabem de marketing, não sabem de política. São bons quando os políticos lhes dizem o que querem, não quando os políticos os ouvem para saberem o que querem.

O PSD contratou maus assessores de imprensa e publicitários? Não sei. Provavelmente são excelentes. Algumas das ideias são giras, o que tem valor político nulo. O problema é mesmo do cliente. As agências de comunicação não servem para definir a linha política ou para defenderem o legado de um partido. São contratadas à peça. Quando a sua cultura ganha centralidade num partido sabemos duas coisas: que o partido está desesperado e que a liderança está ausente. A secundarização do PSD, como campanhas típicas de partidos que precisam mais de notoriedade do que de credibilidade, não será causa da sua crise. É consequência. Quando ninguém manda, mandam os que lá estão. E estão lá publicitários maravilhados com o seu arrojo.


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PSD – A diabolização da Maçonaria com o Opus Dei a disfarçar

(Carlos Esperança, 22/07/2021)

A reboque de uma proposta do PAN, o PSD, por lutas internas, veio defender que todas as associações deveriam ser declaradas, dado que as leis devem ser gerais e abstratas, evitando a discriminação de entidades.

Não sei se pensou nos sindicatos judiciais, certamente mais influenciadores da conduta dos seus membros do que as associações visadas, Maçonaria e Opus Dei, ou em outras, desde as associações de diabéticos, alcoólicos anónimos e jogadores de xadrez a sócios de clubes desportivos, bombeiros voluntários, associações de moradores e tantas outras.

Quem conheceu a ditadura, onde o Opus Dei era legal e a Maçonaria proibida, sabe que é o ataque à liberdade e ao livre-pensamento que, ao arrepio da CRP, procura cobertura legal. Aliás, o nazismo tinha nos judeus e maçons inimigos de estimação.

O PSD conhece bem as perseguições a que alguns maçons, que lhe deram credibilidade, foram sujeitos. Nem o nome honrado do seu ex-presidente Emídio Guerreiro demoveu o partido de se juntar aos inimigos da liberdade.

Os deputados proponentes sabem que, ainda que seja declarada a inconstitucionalidade da lei, fica o labéu contra associações de livres-pensadores e permanecerá incólume a prelatura pessoal de João Paulo II, espécie de al Qaeda sem bombas, da Igreja católica.

A maçonaria é agredida por ter organizado a Revolução Liberal, o 31 de Janeiro, o 5 de Outubro e ser uma vanguarda na defesa dos direitos humanos em sucessivos momentos históricos.

É evidente que o nome do Opus Dei só consta para encobrir o ódio ao livre-pensamento, uma homenagem serôdia a Pio IX e à sua encíclica «Syllabus errorum», um catálogo de condenações, desde o panteísmo ao naturalismo, do racionalismo ao socialismo, sem ter esquecido o comunismo, a maçonaria e o judaísmo.

Sem coragem para condenar os grandes nomes da maçonaria que, desde a Revolução Liberal até hoje, se distinguiram na defesa da liberdade, o PSD preferiu juntar-se aos que desde o Estado Novo destilam ódio contra uma associação cívica cujo pluralismo divide o voto dos seus membros por todos os partidos democráticos.

E, por mais estranho que pareça, levou consigo apoios surpreendentes. Hei de voltar ao assunto, sobretudo ao Opus Dei onde os nomes honrados de Mota Amaral e do insigne cientista português Pinto Peixoto se misturam com os mais execráveis fascistas, desde o santo fundador ao padre Hugo de Azevedo primeiro padre O.D. em Portugal.


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A matriz fundamental da direita

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 27/06/2021)

Alexandre Abreu

(Numa escala de 0 a 20, daria 20 valores a este texto, por ser quase impossível dizer tudo em tão poucas palavras. Assim sendo, dedico-o ao comentador mais assíduo deste Blog, RFC de seu nome. Pode ser que se faça luz nalgumas trevas do seu espírito, e que não seja só São Paulo a ter a sua Estrada de Damasco… 😉

Estátua de Sal, 27/05/2021)


A terceira convenção do Movimento Europa e Liberdade que se realizou nos últimos dias foi excelente para separar o essencial do acessório. À primeira vista, estiveram lá representados projetos políticos com diferenças importantes entre si: do liberalismo na economia e nos costumes ao reacionarismo saudosista do Estado Novo e do passado colonial, da democracia cristã ao novo radicalismo trauliteiro. Na prática, porém, uma e só uma preocupação animou esta convenção: o regresso da direita ao poder. Para isso, ninguém como Camilo Lourenço para chamar a atenção para a plataforma comum que a todos anima: privatizações (não que restem muitas por fazer…), redução dos impostos, redução da despesa social, negócios privados à sombra do Estado. Que não haja dúvidas: independentemente das diferenças mais ou menos superficiais em torno de outras questões, é mais o que une do que o que separa. E o que une é a sua natureza de classe: menos redistribuição do rendimento e mais abertura de mais esferas da vida social (saúde, educação, pensões,…) à rendibilidade privada.

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Neste sentido, é sintomático que a sensibilidade de direita que mais se apresentou em extinção neste congresso tenha sido a democracia cristã, com as suas influências da doutrina social da Igreja e a sua combinação de conservadorismo político e cultural com uma política económica com preocupações sociais. Os tempos não estão para isso: do ponto de vista da direita contemporânea, a democracia cristã erra em toda a linha, sacrificando o essencial e retendo o supérfluo. É também por isto que o CDS, representante original da democracia cristã portuguesa no período democrático, está hoje moribundo e é também por isto que a democracia cristã está praticamente extinta mesmo dentro do CDS. Os estados de alma do “manifesto dos 54” estão por isso condenados a perder para o pragmatismo das alianças que se mostrarem necessárias, como Rui Rio já deixou abundantemente claro. Foi Ventura e não Poiares Maduro quem empolgou esta convenção, porque é o primeiro e não o segundo quem permite vislumbrar uma via de regresso ao poder. As direitas divergirão no que calhar mas estarão de acordo no que se impuser, como exemplificado pela perfeita sintonia das propostas da Iniciativa Liberal e do Chega em matéria fiscal: redução máxima da progressividade no limite da constitucionalidade, beneficiando ao máximo os mais ricos e desprovendo o Estado dos recursos necessários para os serviços públicos e apoios sociais.

Exasperada com o afastamento do poder, não chega à direita que o PS se encarregue de salvaguardar os seus interesses em aspetos tão cruciais como a legislação laboral, ou que a integração europeia (da mesma Europa que o MEL sabiamente saúda na sua designação) inviabilize políticas mais progressistas em múltiplos domínios. Isso não chega porque a direita e os interesses que esta defende querem mais: mais redução dos impostos que limitam a desigualdade, mais desmantelamento da regulação que protege a parte mais fraca na relação laboral, mais recursos públicos ao serviço dos lucros privados na educação e na saúde.

Tudo na convenção do MEL foi sintomático. A sua organização por destacados representantes da direita dos negócios. A participação dos costumeiros representantes da direita do PS. A mitificação sebastianista de um Pedro Passos Coelho que, sem que sequer disso se apercebam, é o principal responsável pela erosão eleitoral da direita na última década. Mas acima de tudo o facto de, sempre que necessário, a direita tirar as luvas e unir-se em torno da sua matriz fundamental: a salvaguarda e aprofundamento do privilégio.


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