O PR e a irreflexão de Marcelo

(Carlos Esperança, 15/06/2021)

O PR não governa, mas Marcelo, na sua obsessão mediática, tudo faz para fingir que as decisões boas são da sua autoria e as más do Governo.

Descoroçoado com o estado da sua direita, enquanto a fascista sobe, sabe que é ele a única oposição credível, que se esforça por manter, enquanto não aparece um líder a galvanizar as hostes que deram maiorias a Cavaco e levaram Passos Coelho a S. Bento.

Marcelo sabe de tudo, comenta tudo, e está simultaneamente na rádio, nos jornais, nas televisões e redes sociais, num excesso alheio às prerrogativas da função e aos estragos que faz entre banhos de multidão, da Guiné à Madeira, de Belém ao resto do Mundo.

Que diga da seleção de futebol, onde não joga, “nós somos os melhores do mundo”, não prejudica ninguém, mas que afirme perentório que, “comigo o país não volta atrás, no confinamento”, insistindo “comigo nunca mais”, revela uma insensatez, que nenhum virologista subscreve, e obriga António Costa a prevenir o país contra os riscos que ainda corre.

O narcisista Marcelo, sem competência para avaliar a pandemia, não se conformou com a sensatez do PM, sobre quem recaem todas as responsabilidades, e não hesitou, ele que não comenta assuntos internos no estrangeiro, a advertir, autoritário, a partir da Hungria, onde se deslocou em viagem de lazer, “Por definição, o Presidente nunca é desautorizado pelo primeiro-ministro. Quem nomeia o primeiro-ministro é o Presidente, não é o primeiro-ministro que nomeia o Presidente”, num exagero de quem dá posse a quem depende da AR.

Não sei se Marcelo, de quem há muito se espera a encomenda de vichyssoise para o PM, tem consciência de que a pressa de levar a direita ao poder pode comprometer o futuro do país, mas é tempo de ser avaliado com isenção na pertinaz intromissão nas funções do Executivo.

Não falta quem atire setas ao Governo nos arraiais da direita antidemocrática.


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Os sargentos Cotrim de Figueiredo e Tiago Mayan Gonçalves e o arraial da IL

(Carlos Esperança, 14/06/2021)

Que os sargentos da Iniciativa Liberal (IL) usem a liberdade de manifestação dos partidos políticos é um direito que a CRP lhes consente, mesmo contrariando as recomendações da Direção Geral de Saúde.

Que condenassem a festa do Avante, onde se cumpriram as recomendações sanitárias, e organizassem o seu arraial de forma anárquica, perigosa e provocatória, é a incoerência de quem julga que o dinheiro pode tudo.

Que, por palavras, manifestassem as divergências políticas em relação a António Costa, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa, Rui Rio, Eduardo Cabrita, Augusto Santos Silva, Fernando Medina e Marta Temido, era a afirmação ideológica, mas usar as caras como alvo das flechas foi uma pulsão assassina de quem, à semelhança da Inquisição, os quis matar em efígie, na impossibilidade de o fazer fisicamente.

Já, na apoteose da diversão, ao escolherem como alvo das setas o político, jornalista, escritor e médico argentino-cubano, “Che” Guevara, o guerrilheiro assassinado em 9 de outubro de 1967, que faria no dia de hoje 93 anos, manifestaram a vocação assassina do sargento Mario Terán Salazar que, antes dos disparos ainda ouviu da vítima:

– “Acalme-se, vai matar um homem.”

Cotrim de Figueiredo e Tiago Mayan Gonçalves não se preparam para governar, treinam para carrascos. E não têm como o seu ídolo, o sargento Mario Terán Salazar, alguém que lhes diga “acalmem-se, vão matar homens e mulheres sem os quais não há democracia”.

Ao dispararem sobre a imagem de um guerrilheiro assassinado a sangue frio, treinaram para escrever os nomes num rol de psicopatas.

Quanto aos políticos portugueses que perfuraram com setas, de Jerónimo de Sousa a Rui Rio, foi a democracia que visaram no tiro ao alvo e no gozo alarve de eliminarem os adversários no arraial de Santo António.

Foi um arraial de perversidade de dois facínoras perante o ar alarve dos sequazes, entre sardinhas e bifanas.


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‘O Príncipe’ na ilha da Páscoa

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 12/06/2021)

Quando analisamos as mudanças no sistema partidário seria prudente procurarmos os padrões e não inovações, mais aparentes do que reais. António Costa (A.C.) é claramente o político luso que nas últimas décadas mais estritamente segue as regras prudenciais expostas por Maquiavel para os governantes que querem conservar o seu lugar.


O seu discurso tem a planura do campo tático, onde é o mestre incomparável. Não tem rugosidades utópicas nem tabus ideológicos. É um pragmático em estado puro, pronto a colaborar com toda a gente, à esquerda e à direita, desde que o interesse nacional e a continuidade governativa possam coincidir. Quando construiu a geringonça, nos tempos em que o diabo da austeridade parecia poder regressar para vingar qualquer erro, A.C. soube mudar o estilo mantendo a substância. A tal ponto que o seu ministro das Finanças foi alcandorado a chefe do Eurogrupo.

Hoje, neste intervalo entre a pandemia e a presumível turbulência social que o fim das moratórias – combinado com o eventual regresso das regras europeias do tratado orçamental – tenderá a provocar, A.C. e o PS resistem, tenazmente, às mudanças no sistema partidário. Mesmo sem grande crescimento eleitoral, o PS poderá ganhar lugares no parlamento pela erosão que o Chega e a Iniciativa Liberal irão causar sobre o desmoralizado eleitorado do PSD.

O que enerva o PSD é o PS fazer precisamente o que ele também praticou quando foi governo. Servir as clientelas habituais. As que, sem perderem o mantra da crítica do Estado, não faltam “ao pré e ao rancho”, à luta pelo seu lugar na mesa do orçamento. Foi assim, vitaminado pelos fundos estruturais, que o PSD de Cavaco Silva chegou a ter 51% dos votos expressos do eleitorado. Dando prova do seu sentido de oportunidade, e da sua inegável tenacidade e resiliência (que qualificam o homem e não a sua política), A.C. bateu-se sem desânimo pela “bazuca” europeia. Com ela, o governo fica com um extraordinário instrumento para o exercício da governação.

A distribuição das verbas do PRR – que o instituto Bruegel acaba de considerar o menos ambientalmente ambicioso dos 14 planos europeus até agora estudados – confirmará lealdades e selará compromissos. A tradição rentista da nossa elite económica esmaga tanto a retórica “verde” como a fantasia de mercados abertos e flexíveis, que os revivalistas liberais pregam para o seu auditório imaginário.

A.C. segue, serenamente, os avisados conselhos de Maquiavel, fugindo àquele que é o mais perigoso caminho na política: ousar transformar.

Escreve o Florentino: “Porque o introdutor [de “novas ordens”] tem por inimigos todos aqueles que beneficiavam das ordens antigas e por tíbios defensores todos aqueles que beneficiariam das novas…” (O Príncipe, VI, §5, tradução Diogo Pires Aurélio).

Mas será que, neste mundo tão pejado de ameaças – desde a perigosa navegação da nau europeia aos impactos brutais da cascata de consequências da crise ambiental e climática – não seria necessário apostar em novos setores e atores preparando economia e sociedade para enfrentar os inescapáveis desafios das próximas décadas? A resposta seria positiva se o seu ângulo fosse estratégico e não tático. A história de como os europeus, chegados à ilha da Páscoa em 1722, encontraram os restos de uma civilização que se autodestruiu porque acelerou uma economia de devastação ambiental, em vez de mudar de rumo, poderia ser útil. Mas já não cabe neste artigo.

Professor universitário


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