A hora de André Ventura não chegou

(Boaventura Sousa Santos, in Brasil247, 31/01/2026)


A ideia da fragilidade da democracia portuguesa assombra os democratas portugueses por várias razões.


André Ventura (AV) é o líder da extrema-direita portuguesa. Com alguma razão, diz que na segunda volta das eleições presidenciais (8 de fevereiro) é ele o candidato da direita tout court. De fato, na segunda volta os dois candidatos são ele e António José Seguro (AJS), antigo secretário-geral do Partido Socialista (2011-2014), que se apresenta como candidato do centro-esquerda, humanista, progressista. Muitos antigos dirigentes e conhecidos militantes da direita moderada têm manifestado o seu apoio a AJS, o que mostra que só formalmente e por um período curto AV se pode designar líder da direita. Dados os evidentes sinais de rejeição de AV, é muito provável que AJS ganhe as eleições e seja o próximo Presidente da República portuguesa.

Prognosticar que a hora de AV não chegou é relativamente fácil. As grandes questões são duas: a hora de AV ainda não chegou ou não chegará nunca? E se a resposta for a de que ainda não chegou, a segunda questão é: O que deve ser feito para que nunca chegue? Claro que esta última pergunta só é feita por quem, como eu, não queira que Portugal volte a ser governado pela extrema-direita. Foi apenas há 52 anos que Portugal pôs termo a um regime de extrema-direita que durou 48 anos. O grande líder desse longo e trágico período foi António de Oliveira Salazar, a personagem a que AV tem apelado, afirmando que “Portugal precisa de três Salazares”. Portanto, quem estiver de acordo com o que esta frase revela fará a pergunta oposta à minha: O que deve ser feito para que a hora de AV chegue o mais rapidamente possível?

A questão existencial

A questão de saber se a hora de André Ventura chegou ou não é uma questão existencial para os democratas portugueses porque, ao longo da sua mais recente carreira política e tendo em conta os dirigentes de que se rodeou ou que a ele se chegaram, AV tornou-se um perigo para a sobrevivência da democracia portuguesa.

No subconsciente coletivo dos democratas portugueses domina a ideia de que a democracia portuguesa é muito frágil e que pode ser facilmente destruída por qualquer pulsão autoritária. Aliás, é bem possível que AV esteja bem ciente desse subconsciente coletivo e jogue com ele. Sabe que com a sua demagogia assusta os democratas, mas, ao mesmo tempo, alimenta a pulsão autoritária que o pode levar ao poder.

Significa isto que AV seja fascista? Não. Significa apenas que as mudanças que diz querer levar a cabo e a retórica violenta com que as formula faz crer que ou deseja impor uma ditadura ou está conscientemente a correr o risco de soltar forças autoritárias que podem vir a impor a ditadura, inclusive contra a sua vontade. Por isso, o perigo de AV para a democracia é duplo: reside no que ele controla e no que ele solta e não controla.

De onde vem o subconsciente coletivo dos democratas portugueses?

A ideia da fragilidade da democracia portuguesa assombra os democratas portugueses por várias razões. Em termos estritamente quantitativos, Portugal da época pós-revolução francesa só há pouco tempo contabiliza mais tempo em democracia do que em ditadura. Há uma sensação de instabilidade que contraditoriamente aumenta com a estabilidade da democracia. Os últimos cinquenta anos da história portuguesa não têm precedentes em termos de convivência democrática. Em 1974, Portugal regressava à Europa de que partira no século XV e regressava a uma Europa que, graças a duas Guerras Mundiais, se tinha convertido num lugar seguro para a democracia e livre do vírus do fascismo. São três as razões principais pelas quais a energia ascendente e democrática se tem vindo a enfraquecer e com isso a assombrar o subconsciente coletivo dos democratas.

A Troika forever

A partir da crise financeira de 2011, algo começou a abalar os termos de referência da convivência democrática no contexto europeu. Portugal foi ferido na sua autoestima pela Troika (Comissão da União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) ao ser tratado como um país mal governado, incapaz de exercer eficazmente a sua soberania, ao contrário dos países mais desenvolvidos da Europa. Aliás, foi tratado por dois destes, a Alemanha e a Holanda (o Primeiro-Ministro Mark Rutte chegou a dizer “não se pode gastar tudo em mulheres e álcool e depois pedir ajuda”), com alguns laivos de racismo, do tipo daquele racismo insidioso que sempre tem dominado as relações entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos. A tragédia agravou-se quando o novo Primeiro-Ministro, Passos Coelho, não só se propôs seguir o receituário troikiano, como decidiu aumentar a dose austeritária. Com um certo masoquismo, aceitava-se a punição e declarava-se a rendição. Era uma pulsão autoritária de tipo novo que adotava o miserabilismo salazarista de maneira anti-salazarista. Enquanto Salazar manobrava com o seu servilismo, Passos Coelho exultava com ele.

Desde então, Portugal nunca mais recuperou as energias ascendentes que tinham emergido com a revolução do 25 de Abril de 1974. Houve um momento de esperança no meio da tragédia. Durante a pandemia do coronavírus, Portugal foi um dos países que melhor procurou proteger a sua população. Fê-lo porque tinha ao seu dispor, ainda que já em crise, a grande arma democrática do pós-1974: o Serviço Nacional de Saúde, que durante um breve período foi considerado um dos melhores do mundo. Acontece que a pulsão democrática que se instaurara em 2011 impediu que se tirasse a única conclusão capaz de fortalecer a democracia: reforçar o SNS para o tornar mais robusto de modo a continuar a ser a expressão viva do que é um serviço público ao serviço de todos. Pelo contrário, a degradação do SNS agravou-se depois da pandemia e o fantasma da pulsão autoritária ganhou mais força.

Uma nova geração de políticos de centro-esquerda ou de direita dita moderada foi emergindo e, quase sem distinção, não se deram conta de que toda a austeridade é autoritária porque é sempre seletiva e atinge sempre aqueles que mais precisam de serviços públicos robustos. A miséria moderna nasce sempre de paredes meias com a opulência moderna. Não há pobres, há grupos e classes sociais empobrecidas porque há grupos e classes sociais enriquecidas. A geração Troika ficou conosco depois de a Troika externa ir embora. Assim se foram corroendo as expectativas democráticas dos portugueses.

Houve muitos mini-André Venturas antes do André Ventura. E mais virão depois dele. Estão a ser incubados tanto na Iniciativa Liberal como no Chega. São dois partidos gêmeos, uma vez que as propostas que qualquer deles propõe só podem ser implementadas em ditadura.

A idade de ouro salazarista

A segunda razão do específico subconsciente coletivo dos democratas portugueses é a insidiosa reabilitação do passado salazarista. Precisamente a partir da mesma altura da Troika, tornaram-se mais audíveis as vozes que visavam reabilitar o regime ditatorial, separando-o sutilmente da figura do ditador. Conhecidos cientistas sociais que há anos mantêm colunas de opinião semanais nos jornais de referência foram construindo a ideia de que o ditador Salazar foi um dos grandes estadistas portugueses do século XX. E fizeram-no recorrendo aos meios de comunicação cada vez mais capturados pelas forças políticas de direita de modo a inculcar essa ideia no subconsciente dos portugueses. A repressão, a censura, a tortura, a guerra colonial, a miséria foram desaparecendo do imaginário português sobre Salazar. A austeridade seletiva, que foi o seu modo de governar, foi subliminarmente substituída pela figura austera do ditador.

As realidades do país da época do salazarismo evaporaram da memória dos portugueses. Em 1970, eu estava a trabalhar para o meu doutorado na Universidade de Yale. No dia 31 de agosto escrevi no diário: “Uma notícia do NYT (New York Times) traz-me à realidade do país que deixei para trás: ‘auxílio americano a Portugal em queijo, leite e farinha (distribuído pela Caritas) vai ser suspenso: 350.000 crianças dependem dessa alimentação. Triste país o meu’. E dois dias depois, também no NYT: “crise da indústria de conservas de sardinha em Portugal: mais um foco de emigração do Algarve para Gibraltar”.

Isto não é o produto de trabalho sociológico, é apenas um registro jornalístico que põe a nu o que era Portugal em 1970, quatro anos antes da Revolução de Abril. A idade de ouro dos empresários da reabilitação do passado era afinal uma idade de fome e chumbo para a maioria dos portugueses que nela viviam e morriam.

A política do ódio, o nacionalismo excludente e a esquerda suicida

O fantasma que assombra o subconsciente coletivo dos democratas portugueses é alimentado por um terceiro fator. Consiste no modo como, no curto período de uma geração, o estilo de convivência que existia entre as diferentes forças políticas e entre os cidadãos se alterou profundamente. A cultura da exclusão tomou o lugar da cultura de inclusão. Isso ocorreu a muitos níveis. A desigualdade social, que era uma manifestação de injustiça, passou a ser uma fatalidade, uma culpa dos excluídos ou até mesmo uma condição da prosperidade coletiva. Um país com uma longa tradição de emigração assumiu-se como país anti-imigração. Um país com uma forte componente islâmica na sua cultura tornou-se islamofóbico. Uma cultura de fronteira propensa ao interculturalismo tornou-se xenófoba. Um país com uma baixa taxa de criminalidade e sem ameaças externas converteu a segurança na sua grande prioridade, reforçada pela subserviência ao bunker político de Bruxelas que inventou uma ameaça externa (a russofobia) para reinventar a sua sobrevivência enquanto classe política parasitária.

Esta energia descendente, porque destrutiva, consome as mentalidades e as relações sociais, sobretudo as juvenis, corrói os laços de solidariedade entre gerações, alimenta o narcisismo e transforma a egolatria na única forma de altruísmo. As forças políticas que sempre estiveram ao lado dos excluídos (classes de trabalhadores com trabalho e de trabalhadores sem trabalho, povos e populações discriminadas), que sempre propuseram a inclusão das grandes maiorias e que mais recentemente se tornaram mais sensíveis à discriminação sexual, racial e cultural, estão hoje reféns da política do ódio e da balcanização das consciências que ela produz.

Para que a hora de AV nunca chegue

Os três fatores que alimentam o subconsciente coletivo dos democratas portugueses são suficientemente evidentes para mostrar que os democratas têm de mobilizar-se para que a hora de AV nunca chegue. Devem estar conscientes de que se nada fizerem, essa hora chegará. Sem o disparo de um tiro. Os tiros virão depois e as balas entrarão tanto no corpo como na alma. Por agora, as forças de esquerda ainda não souberam identificar onde estamos. Se não soubermos onde estamos, nunca saberemos para onde vamos ou devemos ir. Torna-se evidente que para lutar contra a pulsão autoritária que hoje AV e amanhã a AV&Co representam é preciso ir contra a corrente. Ora, as esquerdas sempre foram na corrente da divisão. Enquanto não aprenderem a ir na contracorrente da união, os minutos da hora AV vão contando.

Fonte aqui

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Foi tudo um desastre – a tempestade e o Governo

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 31/01/2026, Revisão da Estátua)


Num país às escuras, com telhados no chão e pessoas desesperadas a pedir ajuda, o Governo de Luís Montenegro escolheu a invisibilidade. A ministra da Administração Interna desapareceu. O ministro da Defesa, Nuno Melo, simula trabalho.

E enquanto em Lisboa se simula, no terreno morre-se. Um homem de 73 anos morreu hoje ao cair de um telhado que tentava reparar no concelho da Batalha, distrito de Leiria, depois de ter ficado sem telhas. Esta morte foi ausência do Estado aliada ao desespero.

Em 2018, com o furacão Leslie, de menor intensidade do que aquele que vivemos agora, o Exército colocou a funcionar 18 geradores em apenas três dias. Hoje, segundo a informação pública disponível, há muitos geradores em “prontidão”… mas apenas três a funcionar (segundo o Jornal Observador, 31 de Janeiro, 16h). Três. Enquanto o Governo recusa geradores da União Europeia e mantém os do Exército parados, os autarcas imploram por geradores nas redes sociais.

Na tragédia de Pedrógão, os militares estiveram presentes. 641 militares, 150 viaturas e mais 250 militares da Marinha na distribuição de água e alimentos. Agora, numa catástrofe com milhares de ocorrências, o que temos? Oficialmente, três destacamentos de engenharia: um na Marinha Grande, dois em Ferreira do Zêzere. Cada destacamento com operadores de maquinaria e um sargento. Quatro máquinas por destacamento. A Marinha informou que tem 11 viaturas no terreno e disponibilizou cinco geradores. (54 militares). Nuno Melo diz que há 200 militares no total, mas não contabiliza, não diz onde, nem a fazer o quê, mesmo depois de pedido diretamente pelo Observador e pelo Expresso. Silêncio. E é isto.

O Exército admite ainda ter cinco destacamentos iguais em “prontidão”. Em prontidão para quê? Para assistir? Para montarem um cenário para a fotografia, com os militares alinhados, e no segundo em que o Nuno Melo vira costas desmobilizam tudo — deixando a população a olhar, abismada, para mais uma performance de teatro barato, ao nível do outro que “apagava” fogachos com raminhos (a sério, isto aconteceu mesmo). É ação que se exige. Não ilusionismo e simulação.

Dizem que a decisão de chamar mais militares e meios não cabe apenas ao ministro da Defesa ou ao primeiro-ministro. Invocam o artigo 53.º da Lei de Bases da Proteção Civil: o pedido às Forças Armadas parte da ANEPC, a solicitação do comandante operacional nacional. Mas estão a brincar com quem? O presidente da ANEPC, José Manuel Moura, que substituiu Duarte Costa, foi nomeado por este Governo. O mesmo Governo que afastou Duarte Costa, alguém que tinha feito um trabalho amplamente reconhecido na ANEPC. Agora fingem que a cadeia de comando é um labirinto burocrático intransponível?

As pessoas precisam é de telhados, de estruturas provisórias, de salvaguardar os seus bens das chuvas que se avizinham, de ter geradores nas aldeias a funcionar, de meios de comunicação nas juntas de freguesia, de engenharia militar para estabilizar casas, proteger edifícios, salvar bens, permitir regressos seguros.

Em vez disso, vemos idosos em aldeias isoladas, sem água, sem eletricidade, sem comunicações, sem acesso a medicamentos, a subir a telhados. Onde está o comando político? Já sei. Está em “prontidão”. Vão mas é passear!!!

O Observador tentou contactar o Estado-Maior-General das Forças Armadas para obter explicações sobre a gestão miserável dos meios militares após a tempestade Kristin. Não obteve qualquer resposta até às 16 horas. Tudo invisível. Tudo “existe”, mas não se contabiliza. Tudo “está a ser feito”, mas não se diz o quê.

Foi tudo um desastre. A tempestade e o Governo. A prontidão máxima chegou tarde demais. Não houve comando político claro, nem coordenação séria a nível central. Multiplicaram-se sinais de improviso. Não existiu reunião atempada da Comissão Nacional de Proteção Civil e não houve ativação dos instrumentos de emergência quando já se percebia a dimensão do impacto. A comunicação de risco resumiu-se ao mínimo burocrático: um SMS… para fazermos download de um PDF. A sério?

Neste momento, o Governo governa através da sua agência de comunicação. A estratégia é conhecida: desviar culpas. Dizer que a culpa é dos ladrões que roubam geradores e gasolina. Que a culpa é das pessoas que não fizeram seguros ou que não leram as letras pequenas dos contratos. Que estão a fazer tudo o que é possível (sem dizer o quê). Que ninguém podia parar a tempestade (sem explicar que essa não é a questão). Que não é altura para criticar nem fazer aproveitamento político (quando é? quando as pessoas perderem tudo?) É sempre o mesmo guião desta gente…esperar que a tempestade passe e, pelo caminho, esperar que a indignação também passe.

Mexam-se…Quando Passos Coelho precisou de reunir o Conselho de Ministros para privatizar a TAP após a entrada em gestão, fê-lo em dois dias. Para ajudar a população, este Governo demorou 4 dias. Rápidos para interesses económicos. Lentidão para proteger pessoas. Há uma altura em que deixamos de cair nestes truques.

Aposto que o Conselho de Ministros vai aparecer com o “plano” do costume…muitas linhas de empréstimo para a banca lucrar e as pessoas se enterrarem em dívidas. O Estado é o nosso seguro maior — aquele que, quando tudo falha, devia assumir o custo e proteger as pessoas. Mas não. A solução deles é privatizar até o azar.

Este é, sem exagero, um dos piores governos que Portugal já teve. Depois de Passos Coelho, parecia impossível descer tanto. Desceram. Um Governo que não existe para governar, mas para pagar favores à sua clientela e simular ação com vídeos, frases feitas e fugas à responsabilidade.

Quem hoje segura as populações são as estruturas locais, os autarcas, os muitos voluntários, a proteção civil no terreno – muitos deles herança de ciclos anteriores. Ao nível central, há desnorte, incapacidade e uma verdade incómoda; Esta gente nunca pensou que, ao chegar ao governo, teria mesmo que governar.

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O Lago dos Cisnes da política portuguesa

(Luis Rocha, in Facebook, 31/01/2026, Revisão da Estátua)


“António Leitão Amaro, ministro da Presidência e um dos braços direitos do primeiro ministro, publicou ontem nas suas redes sociais um vídeo em que o próprio aparece a ser filmado de vários ângulos e em várias situações aparentemente a gerir a situação de calamidade que se vive no país devido à depressão Kristin..”, in revista Sábado. Ver aqui.


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Temos um novo trend na política portuguesa que é transversal às ideologias e atravessa com entusiasmo militante todo o espectro partidário, da esquerda piedosa à extrema-direita ressabiada. Chama-se Síndrome de Prima Ballerina. É aquela pulsão incontrolável para subir às pontas dos pés, esticar o pescoço e tentar parecer um bocadinho mais alto, mais importante, mais indispensável, enquanto o palco arde, o público está em pânico e o cenário desaba.

Enquanto milhares de pessoas enfrentavam um Inverno sem eletricidade, sem aquecimento, sem água potável e a viver no meio de destroços, tivemos o Ministro da Presidência a fazer filmes promocionais. Não filmes informativos, não comunicados sóbrios, mas pequenos trailers de vaidade com mangas arregaçadas, ar compenetrado, telefone colado à orelha, música invisível de fundo e aquele olhar treinado de quem quer parecer ocupado mesmo quando não está a fazer a ponta de um corno. Tudo pago, como sempre, pelo dinheiro dos contribuintes.

Não é preciso possuir uma mentalidade escandinava, ou ter frequentado seminários de ética pública em Helsínquia, para perceber os vários níveis de rusticidade transpostos neste ato. Basta um mínimo de decência. Em qualquer sociedade civicamente adulta, este pateta estaria, à hora a que escrevo, a despejar as gavetas do gabinete para uma caixa de cartão, escoltado por um segurança que lhe diria, com ternura: “é por aqui Sr. Leitão”.

Mas no entanto estes pliés, croisés e effacés não são exclusividade de ministros. Nada disso. A estranha dança também acontece na política de proximidade, na politicagem autárquica, essa incubadora de vaidades em ponto grande. Por motivos que não vêm ao caso e que não interessam rigorosamente nada, sigo dezenas, talvez centenas, de páginas de câmaras municipais e juntas de freguesia nas redes sociais. E garanto que o número de bailarinas em pontas daria para um recenseamento nacional da vaidade.

Autarcas que gerem páginas institucionais onde publicam loas à sua pessoa, com fotografias cuidadosamente enquadradas, frases ocas sobre “trabalho incansável” e “proximidade às populações”. Depois, num momento de puro narcisismo sem pudor, repostam nos seus perfis pessoais essas mesmas loas, escritas por eles próprios enquanto vestiam o chapéu institucional. É uma espécie de ato masturbatório político permanente, uma campanha eleitoral contínua disfarçada de serviço público. Tudo normal. Tudo aceitável. Tudo feito com dinheiro público e com um sorriso de missão cumprida.

E depois há ainda uma ala mais rançosa, aquela que cheira a naftalina ideológica e a ressentimento social. Os politiquinhos e politiquinhas da extrema-direita, especialistas em fotos em pose de estado, ou, como gosto de lhes chamar, poses de Agência Funerária. Fotografias solenes, olhares vazios, braços cruzados, acompanhadas de textos que exaltam o seu “bom coração”, a sua “alma gentil” e o seu “amor à pátria”. Intercalam estas pérolas com posts racistas, xenófobos e fascistas, como quem muda de passo numa coreografia mal ensaiada. O cisne branco de manhã, o corvo negro à tarde.

Tudo isto acontece sob o olhar complacente de uma população cansada e de uma cidadania anestesiada, que já aceita como normal que um cargo público seja usado como palco pessoal. A política transformou-se num casting permanente, onde quem não aparece, não existe, e quem aparece demais acha que governa melhor.

Ou eu estou a atravessar uma crise de meia-idade, hipótese que não excluo, ou este mundo ensandeceu de vez. Talvez as duas coisas.

Mas enquanto continuarmos a confundir serviço público com performance, governação com branding pessoal e crise real com oportunidade de storytelling, o Lago dos Cisnes da política portuguesa continuará cheio de primas bailarinas em pontas, convencidas de que estão a fazer arte quando, na verdade, só estão a fazer figurinhas.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas:

https://sicnoticias.pt/…/2026-01-30-ministro-leitao…

https://rr.pt/…/nao-era-o-objetivo-desejado…/457467

https://www.cmjornal.pt/…/leitao-amaro-apaga-video-de…