O triunfo da morte

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/04/2022)

Miguel Sousa Tavares

(Começo por dar os meus rasgados elogios ao Miguel Sousa Tavares. Contra o unanimismo acéfalo e a critica dos inquisidores ainda há quem saiba pensar e tenha coragem de enfrentar a turba. Sim, porque a turba se exalta perante os “trânsfugas” e já parte para a ameaça, eu que o diga. Bem hajas, MST.

Estátua de Sal, 09/04/2022)


Alguma coisa de estranho se deve estar a passar comigo: eu olho para as notícias e as imagens de Bucha e a minha primeira e única reacção é pensar: “É preciso evitar a todo o custo que isto se volte a repetir. É preciso parar imediatamente com esta guerra sem sentido, com a destruição de cidades e casas, com a morte de civis e crianças, em nome de nada que o justifique. Como é possível, estarmos a assistir a isto, dia após dia, sem que os dirigentes mundiais façam o possível e o impossível para acabar com este pesadelo?”

Mas parece que só eu e uma minoria de ‘pacifistas’ — que agora é um termo pejorativo — pensamos assim. Logo após a difusão das imagens mostradas pelos ucranianos à imprensa ocidental, os principais dirigentes dos países da NATO reagiram imediatamente com a promessa de enviar mais armas para a Ucrânia e decretar mais sanções à Rússia, enquanto que o secretário-geral da NATO, Stoltenberg, dizia anteontem duas coisas reveladoras: uma, que há vários anos que a NATO vem dotando a Ucrânia de armamento sofisticado e treinando as suas Forças Armadas, o que quer dizer que já a tratava como membro de facto e já esperava a guerra; e outra, que as opiniões públicas deveriam estar preparadas para uma guerra longa de meses ou até mesmo de anos — música para os ouvidos dos fabricantes de armas, já sobrecarregados com encomendas para que cada país membro cumpra os 2% do PIB em despesas militares.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Aos ‘pacifistas’ — isto é, aos que estupidamente, antes e depois da guerra começar, insistem em defender uma solução pacífica, independentemente de saber de quem é a culpa ou quem é o invasor — contrapõem-se os ‘moralistas’, os eticamente puros, entre nós representados por aqueles que, confortavelmente entrincheirados atrás do seu computador, adoptam a atitude bem portuguesa do “agarrem-me senão eu mato o Putin”. Embora convenha distinguir duas categorias entre estes últimos: há os que, apesar de tudo, reconhecem que até com o Diabo é preciso negociar, mas só depois de o vencer — o que remete para a solução Stoltenberg; e há os eticamente intransigentes, os puros entre os puros, para quem, à partida, está excluída qualquer negociação com um ‘assassino’ — é a solução Biden, que, como se imagina, tem historicamente registado inúmeros acordos de paz e poupado incontáveis vidas. Entre estas duas variantes ‘moralistas’ flutua o grosso de uma opinião pública que, contraditoriamente, é muito fácil a mobilizar-se contra a barbárie que vê nos écrans (quem o não é?), mas predisposta a aceitar a continuação dessa mesma barbárie em nome do castigo ético ao invasor — cujas consequências, por ora, apenas os ucranianos sentem na pele.

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Mas eu não sou um pacifista por profissão de fé: se o fosse, teria de ser contra a existência de Forças Armadas e não sou. Aceito a tragédia das guerras quando elas são justas e são justas quando são inevitáveis. Quando, por exemplo, como sucede agora na Ucrânia ou como sucedeu na 1ª Guerra do Golfo, um país se defende da invasão injustificada de outro. Mas não engoli guerras feitas por encomenda de fabricantes de armas ou por orgulho imperial, como o foram a 2ª Guerra do Golfo, desencadeada contra a ONU, sob um falso pretexto e com falsificação de provas, ou a guerra da NATO contra a Sérvia, apenas para caçar Slobodan Milosevic, a mais cobarde guerra até hoje, em que uma cidade foi bombardeada sistematicamente a partir do céu sem que os atacantes jamais vissem o inimigo ou arriscassem uma única baixa. Porém, seja qual for o lugar em que nos situemos e seja uma guerra justa ou injusta, chega um ponto (de preferência antes de ela começar) em que o que está em causa é deter a loucura humana, perceber que, qualquer que venha a ser o seu desfecho, ele será sempre devastador. E este é o caso da guerra na Ucrânia.

Esta guerra não apenas está a destruir fisicamente a Ucrânia e a demolir paulatinamente todos os alicerces em que se fundou o sistema que garantiu a paz na Europa durante 70 anos. Perante o entusiasmo irreprimível de alguns, vamos também a caminho do que já chamam a “nova Guerra Fria” ou o “regresso à História” (como se só houvesse História em ambiente de guerra), e a que o Papa Francisco chamou “a loucura do rearmamento”. O caso alemão é eloquente: da noite para o dia, sem sequer debate interno e perante o aplauso de todos os seus parceiros europeus, a Alemanha decidiu quebrar o tabu do desarmamento e passar também a gastar 2% do PIB em Defesa. A maior potência económica europeia, até aqui desarmada, vai tornar-se também uma potência militar (logo depois, inevitavelmente nuclear), no coração da Europa. É verdade que hoje a Alemanha é um país democrático, governado por democratas desde o pós-guerra, mas é impossível não sentir um arrepio pensando no que está para trás e, sobretudo, nestes tempos de nacionalismos crescentes, pensando na hipótese de um dia a AfD chegar ao poder numa Alemanha armada e nuclearizada.

Pois continuem lá os meninos à roda da fogueira, a entreterem-se com a sua querida guerra e os seus altos valores éticos e bélicos, que facilmente haverá quem lhes agradeça. Não os mortos da Ucrânia, certamente; mas os fabricantes de morte e os negociantes dos despojos

Mas há ainda a vertente económica da guerra, que os ‘moralistas’ gostam de descartar como considerações ‘egoístas’. Veremos a prazo como esse ‘egoísmo’ representa afinal a defesa de um número infinitamente maior de vidas humanas (sim, de vidas) do que aquelas que estão em causa na Ucrânia — não tanto na Europa rica, mas nos lugares onde aquilo que de mal fazem os ricos tem sempre consequências trágicas: em África, na Ásia, nos países pobres da América Latina. Voltemos ao caso alemão: vão gastar 2% do PIB em despesas militares; mais 1,5% se, como tudo o indica, tiverem de prescindir do gás e do petróleo russos, de acordo com um estudo feito por um grupo de economistas ‘optimistas’ (tenho algumas prateleiras de estantes lá em casa com estudos de economistas destes, numa secção a que chamo “cemitério das ideias brilhantes”); e devem ter de vir a gastar mais 0,5% em ajuda à reconstrução da Ucrânia e a financiar a sua adesão à UE. Tudo somado, estamos a falar de 4% do PIB alemão, a ‘locomotiva’ económica da Europa. Todos os países, como Portugal, cujas economias são, por sua vez, altamente dependentes das compras alemãs, vão sofrer a sério. Já vamos com a inflação acima dos 5%, mas ainda não vimos nada. Outros candidatos ao meu cemitério particular acham que nós, portugueses, vamos resistir, graças à importação de petróleo americano a ‘preços de amigo’, graças ao Terminal de Sines e ao sempiterno turismo. Desiludam-se, vamos ganir. Vamos todos suplicar por paz.

Mas há mais e pior, excepto para aqueles que fazem parte da categoria dos “sonâmbulos caminhando para o abismo”, como os classificou António Guterres. Uma das imediatas consequências da guerra na Ucrânia é o abandono, puro e simples, das metas do Acordo de Paris e dos documentos com força de lei internacional assinados ainda há poucos meses na Cimeira do Clima de Glasglow, no que se refere à limitação da emissão de gases com efeito de estufa. Para simplificar, recordo que, de acordo com o que foi estabelecido, até 2025 todas os grandes emissores de gases terão de ter atingido o topo das suas emissões, começando a cortá-las a partir daí drasticamente, de modo a conseguir que o planeta não aqueça mais do que 2 graus Celsius até final do século — o limite de pré-catástrofe. E, para tal, o que se convencionou foi que se começaria por encerrar as centrais a carvão, a mais poluente fonte de energia fóssil. Ora, numa atitude de grande coragem, e em reacção ao massacre de Bucha, Bruxelas acaba de cortar a importação de carvão russo para a Europa. Sabem o que isso significa? Luz verde para a reactivação das centrais a carvão que já tinham sido encerradas na Alemanha e na Inglaterra, para a construção de novas centrais em vários países e para a proliferação das centrais polacas. Isto, depois de a energia nuclear já ter sido considerada ‘energia verde’ para efeitos de beneficiar de verbas dos PRR ou de não se ter falado sequer em cortar um dólar que fosse aos quase 6 biliões de dólares de subsídios a favor das indústrias do carvão, petróleo e gás. Assim vai o mundo, como se dizia dantes.

Pois continuem lá os meninos à roda da fogueira, a entreterem-se com a sua querida guerra e os seus altos valores éticos e bélicos, a tentar intimidar e reduzir ao silêncio quem não pensa como eles, que facilmente haverá quem lhes agradeça. Não os mortos da Ucrânia, certamente; mas os fabricantes de morte e os negociantes dos despojos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Os soldados ucranianos são imortais – os russos só matam civis…

(José Preto, in VK.com, 06/04/2022)

As sucessivas invocações de pretendidos massacres, de imaginários crimes de guerra, de gritado genocídio, até, de que seria vítima a população civil “ucraniana” tem que ser ouvida e respondida com maior eficácia.

Em primeiro lugar, estão material e efectivamente excluídos da cidadania ucraniana os russófonos, desde logo (e os magiares também, aliás, não se esgotando aqui o fenómeno das exclusões).

Por isso, a Ucrânia não apresenta, do ponto de vista do seu pretenso governo, um qualquer projecto nacional, além do imaginário hegemonismo do imaginado grupo dos varegos.

E não havendo sequer um projecto nacional, a Ucrânia é por ora (e não pode ser outra coisa) apenas um território, onde vários grupos disputam o poder.

Uns sob orientação externa da corja otanasca (alimentando ali um projecto colonial) e outros procurando defender a terra onde nasceram, o direito de aí viverem, frequentando as práticas religiosas da Igreja que sempre tiveram e falando a Língua que sempre falaram…

A intervenção russa fez-se em consonância com a defesa dos direitos dos grupos e regiões russófonas violentamente guerreadas desde há oito anos. Isso implica evidentemente a proclamação de que nenhum alvo civil seria tocado pela intervenção. E explica também o esforço reactivo da junta do karaíta de Kiev para fazer atingir civis, custasse o que custasse.

E por isso transformaram edifícios civis em alvos militares. Por isso estacionaram peças de artilharia e tanques no meio dos bairros residenciais, por isso usaram as populações civis como escudos humanos, disparando até sobre quem tentava fugir, sob orientação directa da corja otanasca, presente em alguns desses lugares, senão em todos.

Alguma dessa corja pede agora o repatriamento em Mariupol. E os cadáveres devem ser repatriados a expensas dos países agressores (com pagamento em rublos). Os sobrevivos talvez venham a ser alvo de pena complementar de expulsão do território, expurgadas as respectivas penas que o tribunal competente fixará, no caso de se não suicidarem no cárcere.

O que a ânsia de matar civis – vinda a par da ânsia de matar soldados russos – significa, é que a corja otanasca não quer consentir que algum exército, em algum lado, possa fazer mais e melhor do que ela faz.

A corja otanasca sempre atacou civis. Está até viciada no ataque a civis. A corja otanasca, exemplificativamente, bombardeou em Belgrado o Hospital materno-infantil. Bombardeou igrejas. Bombardeou as celebrações da Páscoa. Bombardeou até a Embaixada Chinesa. É o que sempre faz a corja otanasca. Mata civis. Parece-lhe que isso afecta a “moral da rectaguarda”…

A corja não pode pois admitir que alguém consiga, sequer, não fazer o que ela sempre faz. Como não pode admitir que a eficácia russa tenha menos baixas do que alguma vez a corja teve, fosse onde fosse (e verdade seja dita que, pela Graça de Deus, a OTAN levou quase sempre no focinho, à excepção dos suspensos desenlaces dos Balkãs, onde não levou ainda, mas vai levar).

É disto que se trata. Não estão – embora evidentemente também estejam – a tentar sujar a imagem das FFAA russas. Estão, antes disso, a procurar salvar a imagem própria na inevitável comparação. E também isso não vão conseguir. Nunca conseguiram.


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Como as fugas de informação dos serviços de inteligência dos EUA se voltaram contra eles na guerra da Ucrânia? 

(Nauman Sidaq, In a Viagem dos Argonautas, 08/04/2022)

Numa bombástica reportagem da NBC publicada quarta-feira, os autores do relatório alegaram que as agências de espionagem dos EUA utilizaram fugas de informação deliberadas e selectivas para monopolizar os noticiários para montar uma campanha de guerra de informação contra a Rússia durante a ofensiva militar de um mês na Ucrânia, apesar de estarem cientes de que a informação não era credível…


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A Viagem dos ArgonautasA Guerra na Ucrânia — Como as fugas de informação dos serviços de inteligência dos EUA se voltaram contra eles na guerra da Ucrânia? Por Nauman Sidaq


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