O dólar devora o Euro

(Michael Hudson, in Resistir, 08/04/2022)

(Mais que com a campanha de desinformação sobre a guerra, e a censura sobre a comunicação vinda do “outro lado”, eu pasmo com o silêncio do nosso Governo sobre as consequências que a guerra terá sobre todos nós. Sim, haverá fome a curto prazo em muitos lares, sim as empresas pararão devido aos custos exorbitantes da energia. Sim, é para este cenário que os líderes europeus e o nosso Governo nos estão a levar. E depois, discute-se o programa do Governo como se estivesse tudo na mais saudável normalidade. A propaganda que quer mostrar que os russos são uns facínoras apenas pretende fazer de cada cidadão um revoltado contra Putin e levar a que se prepare estoicamente para pagar com suor e lágrimas os custos de tanta insanidade. Ao longe, russos e ucranianos continuarão a morrer no teatro da guerra. Ao perto os europeus e os portugueses morrerão de frio e de fome, os que morrerem. Ao longe os esgares do Tio Sam e os seus arrotos de bicho saciado até às hienas assustarão. Leiam o artigo abaixo e perceberão porquê´.

Pergunta final, como podemos ser tão estúpidos e subservientes? Por uma razão. Todos os nossos governantes foram “fabricados” por eles. Não passam de marionetas. E quando falam não é voz própria que emitem: é apenas ventriloquismo.

Estátua de Sal, 08/04/2022


Agora é claro que a escalada de hoje da Nova Guerra Fria foi planeada há mais de um ano, com uma estratégia séria associada ao plano americano de bloquear o Nord Stream 2. Isso fazia parte do seu objectivo de impedir a Europa Ocidental (“NATO”) de procurar prosperidade através do comércio e investimento mútuos com a China e a Rússia.

Tal como anunciado pelo Presidente Biden e pelos relatórios de segurança nacional dos EUA, a China era vista como o inimigo principal. Apesar do papel prestativo da China ao permitir às corporações americanas reduzirem as taxas salariais do trabalho, pela desindustrialização da economia dos EUA em favor da industrialização chinesa, o crescimento da China era colocado como o Terror Final: prosperidade através do socialismo. A industrialização socialista sempre foi percebida como sendo a grande inimiga da economia rentista (rentier) que tomou conta da maior parte das nações no século desde o término da Primeira Guerra Mundial – e especialmente desde a década de 1980. O resultado hoje é um choque de sistemas económicos – industrialização socialista contra capitalismo financeiro neoliberal.

Isto faz da Nova Guerra Fria contra a China um acto implícito de abertura do que ameaça ser uma prolongada Terceira Guerra Mundial. A estratégia dos EUA consiste em afastar os mais prováveis aliados económicos da China, especialmente a Rússia, a Ásia Central, a Ásia do Sul e a Ásia Oriental. A questão era por onde começar a dividir e isolar.

A Rússia era vista como a grande oportunidade para começar o isolamento, tanto da China como da Eurozona NATO. Foi elaborada uma sequência de sanções cada vez mais severas – e, esperam, fatais – contra a Rússia para impedir a NATO de com ela negociar. Tudo o que era preciso para inflamar o terramoto geopolítico era um casus belli.

Isso foi arranjado bastante facilmente. A escalada da Nova Guerra Fria poderia ter sido lançada no Próximo Oriente – por causa da resistência à captura dos campos petrolíferos iraquianos pela América, ou contra o Irão e os países que o ajudaram a sobreviver economicamente, ou na África Oriental. Planos de golpes, revoluções coloridas e mudança de regime foram elaborados para todas estas áreas – e o exército africano da América foi constituído especialmente rápido durante o último ano ou dois. Mas a Ucrânia fora sujeita a uma guerra civil apoiada pelos EUA durante oito anos, desde o golpe de Maidan de 2014, e oferecia a oportunidade da grande primeira vitória nesta confrontação contra a China, a Rússia e os seus aliados.

Por isso, as regiões de língua russa de Donetsk e Lugansk foram esmagadas com intensidade crescente e, quando a Rússia ainda se absteve de responder, foram elaborados planos para um grande confronto a começar em finais de Fevereiro – a começando por um ataque blitzkrieg ucraniano organizado por conselheiros norte-americanos e armado pela NATO.

A defesa preventiva russa das duas províncias ucranianas orientais e a subsequente destruição militar do exército, marinha e força aérea ucraniana durante os últimos dois meses foi usada como desculpa para começar a impor o programa de sanções concebido pelos EUA que hoje estamos a ver desenrolar-se. A Europa Ocidental tem seguido com obediência todo o seu percurso. Em vez de comprar gás, petróleo e cereais russos, irá comprá-los aos Estados Unidos, juntamente com um aumento acentuado das importações de armas.

A perspectiva de queda da taxa de câmbio euro/dólar

Portanto, é conveniente analisar a forma como isto poderá afectar a balança de pagamentos da Europa Ocidental e, consequentemente, a taxa de câmbio do euro em relação ao dólar.

O comércio e o investimento europeus anterior à Guerra para Impor Sanções prometia uma ascensão da prosperidade mútua entre a Alemanha, França e outros países da NATO em relação à Rússia e à China. A Rússia estava a fornecer energia abundante a um preço competitivo, e esta energia devia dar um salto quântico com o Nord Stream 2. A Europa deveria ganhar as divisas estrangeiras para pagar este crescente comércio de importação através de uma combinação de exportação de mais manufacturas industriais para a Rússia e de investimento de capital no desenvolvimento da economia russa, por exemplo, por empresas automobilísticas alemãs e investimento financeiro. Este comércio e investimento bilateral está agora interrompido – e permanecerá interrompido durante muitos, muitos anos, dado o confisco pela NATO das reservas estrangeiras da Rússia mantidas em euros e libras esterlinas – e a russofobia europeia atiçada pelos media de propaganda dos EUA.

Em substituição, os países da NATO comprarão GNL dos EUA – mas terão de gastar milhares de milhões de dólares na construção de capacidade portuária suficiente, o que poderá demorar talvez até 2024. (Boa sorte até lá.) A escassez de energia irá aumentar acentuadamente o preço mundial do gás e do petróleo. Os países da NATO também incrementarão as suas compras de armas ao complexo militar-industrial dos EUA. A compra quase à beira do pânico também aumentará o preço das armas. E os preços dos alimentos também aumentarão em resultado da escassez desesperada de cereais resultante da cessação das importações da Rússia e da Ucrânia, por um lado, e da escassez de amónia fertilizante fabricada a partir do gás.

Todas estas três dinâmicas comerciais fortalecerão o dólar em relação ao euro. A questão é, como irá a Europa equilibrar os seus pagamentos internacionais com os Estados Unidos? O que tem para exportar que a economia dos EUA aceite quando os seus próprios interesses proteccionistas ganham influência, agora que o livre comércio global está a morrer rapidamente?

A resposta é, não muito. Então, o que fará a Europa?

UMA MODESTA PROPOSTA

Eu poderia fazer uma modesta proposta. Agora que a Europa deixou praticamente de ser [constituída] por Estados politicamente independentes, começa a parecer-se mais com o Panamá e a Libéria – “bandeira de conveniência” para centros bancários offshore que não são verdadeiros “estados” porque não emitem a sua própria moeda, mas usam o dólar americano. Uma vez que a zona euro foi criada com algemas monetárias limitando a sua capacidade de criar moeda para dispender na economia para além do limite de 3% do PIB, porque não simplesmente atirar a toalha financeira e adoptar o dólar americano, como o Equador, a Somália e as Ilhas Turcos e Caicos? Isso daria aos investidores estrangeiros segurança contra a desvalorização da moeda no seu crescente comércio com a Europa e no seu financiamento à exportação.

Para a Europa, a alternativa é que o custo em dólares da sua dívida externa contraída para financiar o seu crescente défice comercial com os Estados Unidos por petróleo, armas e alimentos irá explodir. O custo em euros será ainda maior à medida que a moeda caia em relação ao dólar. As taxas de juro aumentarão, abrandando o investimento e tornando a Europa ainda mais dependente de importações. A zona euro irá transformar-se numa zona morta economicamente.

Para os Estados Unidos, isto é Hegemonia do Dólar com esteróides – pelo menos em relação à Europa. O continente tornar-se-ia uma versão um pouco maior de Porto Rico.

O dólar em relação às divisas do Sul Global

A versão completa da Nova Guerra Fria desencadeada pela “Guerra da Ucrânia” corre o risco de se transformar na salva de abertura da Terceira Guerra Mundial – e é provável que dure pelo menos uma década, talvez duas, à medida que os EUA estende o combate entre o neoliberalismo e o socialismo para abarcar um conflito à escala mundial. Para além da conquista económica estado-unidense da Europa, os seus estrategas estão a procurar trancar os seus mercados em países africanos, sul-americanos e asiáticos em moldes semelhantes aos que foram planeados para a Europa.

A subida acentuada dos preços da energia e dos alimentos irá atingir duramente as economias com défices alimentares e petrolíferos – ao mesmo tempo que as suas dívidas denominadas em dólares aos obrigacionistas e bancos estrangeiros estão a vencer e a taxa de câmbio do dólar está a subir em relação à sua própria divisa. Muitos países africanos e latino-americanos – especialmente o Norte de África – enfrentam uma escolha entre passar fome, cortar no seu consumo de gasolina e electricidade, ou pedir emprestado os dólares para cobrir a sua dependência do comércio nos moldes estado-unidenses.

Tem-se falado das emissões do FMI de novos DSE [Direitos de Saque Especiais] para financiar a ascensão dos défices comerciais e de pagamentos. Mas este tipo de crédito vem sempre com compromissos. O FMI tem a sua própria política de sancionar os países que não obedecem à política dos EUA. A primeira exigência dos EUA será que estes países boicotem a Rússia, a China e a sua aliança emergente de auto-ajuda comercial e monetária. “Por que razão deveríamos dar-vos DSE ou conceder-vos novos empréstimos em dólares, se vão simplesmente gastá-los na Rússia, China e outros países que declarámos como inimigos”, perguntarão os responsáveis norte-americanos.

Pelo menos, este é o plano. Não me surpreenderia ver algum país africano tornar-se a “próxima Ucrânia”, com tropas de procuração dos EUA (ainda há muitos defensores e mercenários Wahabi) a combaterem contra os exércitos e populações de países que procuram alimentar-se com cereais da agricultura russa, e alimentar as suas economias com petróleo ou gás de poços russos – para não falar da participação na Belt and Road Initiative da China que foi, afinal, o disparador do lançamento da sua nova guerra pela hegemonia neoliberal global.

A economia mundial está a ser incendiada e os Estados Unidos prepararam-se para uma resposta militar e transformação em arma do seu próprio comércio de exportação de petróleo e agricultura, comércio de armas e exigências para que os países escolham o lado da Nova Cortina de Ferro a que querem aderir.

Mas o que há nisto para a Europa? Os sindicatos de trabalhadores gregos já se manifestam contra as sanções que estão a ser impostas. E na Hungria, o Primeiro-Ministro Viktor Orban acaba de ganhar uma eleição sobre o que é basicamente uma visão do mundo anti-UE e anti-EUA, começando por pagar o gás russo em rublos. Quantos outros países irão romper as fileiras – e quanto tempo vai demorar?

Significa isto os países do Sul Global serem esmagados – não meramente como “danos colaterais” devido à escassez profunda e a aumentos dos preços da energia e dos alimentos, mas sim como o próprio objectivo da estratégia dos EUA ao inaugurar a grande divisão da economia mundial em duas? A Índia já disse a diplomatas norte-americanos que a sua economia está naturalmente ligada às da Rússia e da China. O Paquistão faz o mesmo cálculo.

Do ponto de vista dos EUA, tudo o que precisa de ser respondido é: “O que é preciso dar aos políticos locais e oligarquias clientes como recompensa por entregarem os seus países?

Desde as suas etapas de planeamento, os estrategas diplomáticos americanos encaravam a iminente Terceira Guerra Mundial como uma guerra de sistemas económicos. Que lado escolherão os países: o seu próprio interesse económico e coesão social, ou a sua submissão aos líderes políticos locais instalados pela intromissão dos EUA, como os 5 mil milhões de dólares que a secretária de Estado Adjunta Victoria Nuland se gabou de ter investido nos partidos neo-nazis da Ucrânia oito anos atrás para iniciar os combates que irromperam na guerra de hoje?

Perante toda esta intromissão política e propaganda mediática, quanto tempo levará o resto do mundo a perceber que está em curso uma guerra global, com a Terceira Guerra Mundial no horizonte? O verdadeiro problema é que, quando o mundo compreender o que está a acontecer, a fractura global já terá permitido à Rússia, à China e à Eurásia criar uma verdadeira Nova Ordem Mundial não-neoliberal que não precisa dos países da NATO e que perdeu a confiança e a esperança de ganhos económicos mútuos com eles. O campo de batalha militar estará repleto de cadáveres económicos.

O original encontra-se em https://thesaker.is/the-dollar-devours-the-euro/


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A Europa e seus cem anos de solidão

(Boaventura Sousa Santos, in OutrasPalavras, 05/04/2022)

Curvado aos caprichos dos EUA e da OTAN, Velho Continente tornou-se pequeno e prepotente. Já não tem a influência geopolítica do passado – e guerra pode isolá-lo ainda mais. Mas mundo vai além daquele visto pelas lentes eurocêntricas…


Cem anos depois da Primeira Guerra Mundial os líderes europeus caminham sonâmbulos para uma nova guerra total. Tal como em 1914, pensam que a guerra da Ucrânia será limitada e de curta duração. Em 1914, dizia-se nos ministérios que a guerra duraria três semanas. Foram quatro anos e mais de 20 milhões de mortos. Tal como em 1918, domina hoje a posição de que é necessário punir exemplarmente a potência agressora de modo a deixá-la prostrada e humilhada por muito tempo.

Em 1918, a potência vencida foi a Alemanha (e também o Império Otomano). Houve vozes discordantes (John Maynard Keynes e outros) para quem a humilhação total da Alemanha seria desastrosa para a reconstrução da Europa e para a paz duradoura no continente e no mundo. Não foram ouvidas, e 21 anos depois a Europa estava de novo em guerra. Seguiram-se cinco anos de destruição e mais de 70 milhões de mortos. A história não se repete e aparentemente nada ensina. Mas serve para ilustrar e mostrar semelhanças e diferenças. Vejamos umas e outras à luz de duas ilustrações.

Em 1914, havia cem anos que a Europa vivia em relativa paz, com muitas guerras, mas circunscritas e de pouca duração. O segredo dessa paz fora a Conferência de Viena (1814-1815). Nessa conferência tratou-se de pôr fim ao ciclo de transformação, turbulência e guerra que começara com a Revolução Francesa e se agravara com as guerras napoleônicas. O pacto com que terminou a conferência foi assinado nove dias antes da derrota final de Napoleão em Waterloo.

Nessa conferência, dominaram as forças conservadoras e o período que se seguiu foi denominado Restauração (da velha ordem europeia). A reunião de Viena tem, no entanto, uma outra característica que nos faz recordá-la agora. Foi presidida por um grande estadista austríaco, Klemens von Metternich, que teve com principal preocupação incorporar todas as potências europeias, tanto as vencedoras como as vencidas, de modo a garantir uma paz duradoura. Claro que a potência perdedora (a França) teria de sofrer as consequências (perdas territoriais), mas o pacto foi firmado por ela e por todas as outras potências (Áustria, Inglaterra, Rússia e Prússia) e com condições impostas a todos de modo a garantir uma paz duradoura na Europa. E assim se cumpriu.

São muitas as diferenças em relação ao nosso tempo. A principal é que, desta vez, o teatro de guerra é a Europa, mas as partes em conflito são uma potência europeia (a Rússia) e uma potência não europeia (os EUA). A guerra tem todas as características de uma proxy war, uma guerra em que os contendores se aproveitam de outro país (a Ucrânia), o país do sacrifício, para realizar objetivos geoestratégicos que em muito transcendem os desse país e mesmo os da região em que se integra (a Europa).

Verdadeiramente, a Rússia só está em guerra com a Ucrânia porque está em guerra com a OTAN, uma organização cujo supremo comandante aliado para a Europa é “tradicionalmente um comandante norte-americano”. Uma organização que, sobretudo depois do fim da primeira Guerra Fria, tem servido os interesses geoestratégicos dos EUA. A Rússia sacrifica de modo ilegal e brutal os princípios da autodeterminação dos povos, de que já foi um importante arauto em contextos geopolíticos anteriores, para fazer valer as suas preocupações de segurança depois de as não ver reconhecidas por vias pacíficas e por um indisfarçável saudosismo imperial.

Por sua vez, os EUA estão apostados desde o final da primeira Guerra Fria em aprofundar a derrota da Rússia, uma derrota que foi talvez mais autoinfligida do que provocada pela superioridade do adversário. Por um breve período, a disputa diplomática em Washington foi entre a “parceria para a paz” e “a expansão da OTAN para garantir a segurança dos países emergentes do bloco soviético”. Com o presidente Bill Clinton foi esta última política que prevaleceu.

Por razões diferentes, também para os EUA, a Ucrânia é o país do sacrifício. A guerra da Ucrânia está sujeita ao objetivo de infligir uma derrota incondicional à Rússia que, de preferência, tem de durar até provocar o regime change em Moscou. A duração da guerra está sujeita a esse objetivo. Se o primeiro-ministro britânico se autoriza a afirmar que as sanções contra a Rússia continuarão qualquer que seja agora a posição da Rússia, qual é o incentivo desta para pôr fim à guerra? Afinal, basta que Vladimir Putin seja afastado (tal como aconteceu a Napoleão em 1815) ou é a Rússia que tem de ser afastada para travar a expansão da China? Também houve regime change na humilhada Alemanha em 1918, mas o seu decurso terminaria em Hitler e numa guerra ainda mais devastadora.

A grandeza política do presidente Volodymyr Zelenskii tanto poderia ser construída como o corajoso patriota que defende o seu país do invasor até à última gota de sangue, como a do corajoso patriota que, perante o perigo de tanta morte inocente e dada a assimetria de força militar, consegue, com o apoio dos seus aliados, uma negociação forte e uma paz digna. O fato de prevalecer hoje a primeira construção não decorre das inclinações pessoais do presidente Zelenskii.

A segunda ilustração para ver semelhanças e diferenças com o passado recente diz respeito à posição geopolítica da Europa. Durante as duas guerras mundiais do século XX, a Europa era o autoproclamado centro do mundo. Por essa razão é que as guerras foram mundiais. Cerca de 4 milhões das tropas “europeias” eram de fato africanas e asiáticas e muitos milhares de mortes de não europeus foram o preço do sacrifício por serem habitantes de colônias de países distantes envolvidos em guerra que não lhes diziam respeito.

Hoje, a Europa é um canto do mundo, e a guerra da Ucrânia torná-lo-á ainda mais pequeno. Durante séculos foi o extremo da Eurásia, essa grande massa de terra entre a China e a Península Ibérica, por onde circularam saberes, produtos, inovações científicas, culturas. Muito do que mais tarde foi atribuído ao excepcionalismo europeu (desde a revolução científica do século XVI até à revolução industrial de 1800) não se entende nem ocorreria sem essa circulação multissecular.

A guerra da Ucrânia, sobretudo se se prolongar, corre o risco, não só de amputar a Europa de uma das suas potências históricas (a Rússia), como de a isolar do resto do mundo e, muito especialmente, da China. O mundo é imensamente maior do que aquilo que se vê com óculos europeus. Vistos com estes óculos, os europeus nunca se sentiram tão fortes, tão unidos ao seu parceiro maior, tão confiantemente do lado certo da história, com o mundo da “ordem liberal” dominando o planeta e tão suficientemente forte para daqui a algum tempo se aventurar a conquistar ou, pelo menos, neutralizar a China, depois de ter arrasado o seu principal parceiro, a Rússia.

Vistos com óculos não europeus, a Europa e os EUA estão orgulhosamente quase sós, talvez capazes de ganhar uma batalha, mas certamente a caminho da derrota na guerra da história. Mais de metade da população do mundo vive em países que decidiram não aplicar sanções à Rússia. Muitos dos que votaram (e bem) na ONU contra a invasão ilegal da Ucrânia fizeram-no com justificações da sua experiência histórica, a qual não era a de serem invadidos pela Rússia, mas antes pelos EUA, pela Inglaterra, pela França, por Israel.

As suas decisões não foram resultado da ignorância, mas da precaução. Como podem eles confiar em países que, depois de terem criado um sistema de transferências financeiras (SWIFT) com o objetivo de defender as transações econômicas de interferências políticas, expulsam um país por razões políticas? Em países que se arrogam poder confiscar as reservas financeiras e de ouro de países soberanos como o Afeganistão, a Venezuela e agora a Rússia? Em países que proclamam a liberdade de expressão como um sacrossanto valor universal, mas recorrem à censura logo que se sentem desmascarados por ela? Em países supostamente amantes da democracia que não hesitam em provocar golpes sempre que os eleitos não convêm aos seus interesses? Em países para quem, segundo as conveniências do momento, o “ditador” Nicolas Maduro pode, de repente, virar parceiro comercial? O mundo perdeu a inocência, se é que alguma vez a teve.


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O que há de novo nesta guerra?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 07/04/2022)

Todas as guerras começam onde a última acabou. Esta invasão da Ucrânia começou com a implosão da URSS e a sua redução a uma potência militarmente vencível e estrategicamente dominável pelos Estados Unidos.

Esta guerra começou quando os Estados Unidos entenderam que chegara a ocasião de fechar o cerco à Rússia e fazer da Ucrânia a sua base avançada no centro da Europa, o mesmo papel que atribuíram a Israel a Sul e aos estados bálticos a norte (agora estendido à Finlândia e à Suécia com uma rápida integração na NATO, a sua aliança militar para a Europa).

A Rússia respondeu com uma ação militar clássica e convencional de objetivos limitados. Uma invasão por 3 eixos, um dirigido do Norte à capital, Kiev, outro no Leste para integrar os territórios fronteiriços e um a Sul para dominar os mares de Azov e Negro.

Até aqui tudo como nos livros da última guerra. Como aconteceu na I Grande Guerra que se previa ser de curta duração, com introdução de um novo fator, a metralhadora, os planos deixaram de ser válidos, as tropas fixaram-se no terreno, em trincheiras. Na II Guerra Mundial o fator novo foi uma má avaliação alemã das capacidades da conjugação de blindados e aviação na planície europeia, que inclui a Ucrânia, e alterou os planos alemães de conquistar a Rússia. Também nesta presente guerra da Ucrânia surgiram fatores novos que a transformaram numa guerra de novo tipo, de resultados imprevisíveis, exceto o de que os povos sofrerão mais e empobrecerão e os ricos enriquecerão.

Os dois fatores novos desta guerra são a centralidade da ação de manipulação de opinião, de propaganda e de conquista de adesão das opiniões públicas “ocidentais” cultural e ideologicamente dependentes dos Estados Unidos e a utilização da guerra económica e financeira através de sanções económicas, do sistema bancário e do embargo comercial.

Nesta guerra tudo é comum a outras guerras, as devastações, os mortos, os crimes, a barbárie, o horror, o sofrimento, os refugiados, a ausência de respeito pelos direitos individuais e coletivos. São elementos comuns a todas as guerras. De novo existe o aproveitamento on line e em tempo real do sofrimento para provocar emoções que justifiquem as medidas que irão provocar mais devastações, de modo a obter os resultados pretendidos pelos Estados Unidos (a potencia incentivadora e que mais tem a ganhar) e que são três: a manutenção do dólar como moeda dominante no sistema financeiro e económico mundial; o enfraquecimento da Rússia (demonstrando que é vencível); e a fixação da Rússia na frente ocidental para não poder apoiar a China, na próxima fase do conflito, a desenrolar no Pacífico.

O perigo da utilização das duas “novidades” nesta guerra são o seu prolongamento e o de ela terminar com uma ação de tudo ou nada, uma solução final com utilização de armas nucleares se a Rússia se sentir encurralada. E existe uma razoável possibilidade que isso aconteça.

Em primeiro lugar a Rússia tinha à partida perdido a batalha da propaganda. A indústria do infoentretainment americana movimenta mais dinheiro do que a do armamento, determinou o modelo civilizacional a nível planetário, dos hambúrgueres aos jeans, da música ao desporto, do cinema às televisões, dos videojogos aos espetáculos virtuais, da publicidade à literatura. A II Guerra Mundial foi já um espetáculo mundial de grande êxito dominado pelos Estados Unidos. A Rússia perdeu a guerra da propaganda à partida, há hoje no Ocidente um pensamento totalitário sobre a definição dos Bons e dos Maus, resta pois, em segundo lugar, a guerra económica.

Até que ponto as sanções afetarão as capacidades militares da Rússia atingir os seus objetivos por meios convencionais?

Para a Rússia os seus objetivos são o controlo da zona Leste da Ucrânia, os acessos aos mares do Sul, impor a neutralidade militar da Ucrânia para não ter uma base de mísseis inimigos à porta.

A estratégia dos Estados Unidos tem sido a de armar e militarizar a Ucrânia, o que terá como consequência a instauração de um estado de guerra permanente na Ucrânia com ataques ucranianos aos territórios ocupados pela Rússia. Será uma excelente oportunidade para a venda de armas, de serviços militares privados, para a venda de petróleo e gás americano, e também de cereais e ainda para as empresas de construção civil americanas contratadas para a reconstrução.

O perigo desta estratégia para os EUA é o do estabelecimento de uma nova ordem económica mundial já não dominada pelo dólar, um sistema financeiro à margem dos antigos acordos de Bretton Woods, de 1944, que estabeleceram as regras para o sistema monetário internacional e criaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

Sendo assim, o apelo às armas de Zelenski (que ele fará na videoconferência na Assembleia da República como já fez 20 vezes noutros parlamentos — sendo o convite para a repetição e sinal de má audição ou de fraca compreensão dos deputados portugueses) e a resposta de Sim, contra os russos marchar, da administração Biden, resultará, na melhor das hipóteses, numa guerra prolongada paga com impostos dos europeus (e inflação) e com os lucros a reverterem para os Estados Unidos; numa alteração da atual ordem financeira mundial, com custos para os europeus, pois o Euro não contará no novo sistema, será um dólar de segunda, como a libra.

Na pior das hipóteses e como resultado da lucrativa fúria armamentista ocidental despejada sobre o grupo de oligarcas de que Zelenski é o rosto angélico, em nome do direito dos povos à sua liberdade e independência (claro e sempre), poderemos sofrer uma experiência final de um conflito nuclear na Europa, depois de uma agonia de empobrecimento resultante de inflação, depressão económica, desinvestimento, despesas militares.

Os líderes europeus já explicaram aos europeus estas possibilidades? Meras possibilidades, é evidente!

Por fim, assumindo o labéu de putinista: Que Ucrânia existirá durante a guerra, que Ucrânia restará depois da guerra? Que Europa e que Rússia sairão depois deste conflito e das amputações e cortes que ela já provocou? E se daqui a 4 anos os EUA elegerem um novo Trump com outras prioridades, voltado para a política interna e os gravíssimos constrangimentos que a sociedade dos EUA sofre, do racismo e etnicidade, à pobreza e à dívida?


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