O rei vai nu

(Daniel Oliveira, in Expresso, 08/08/2020)

Daniel Oliveira

As suspeitas que recaem sobre Juan Carlos não são, na sua natureza, muito diferente das que recaíram sobre José Sócrates. Mas um foi detido à chegada a Lisboa, esteve preso em Évora, foi abandonado pelos seus correligionários e enfrenta um processo que o pode levar a uma pesada pena. Outro tem o presidente do Governo a apoiar a sua fuga indigna e a direita a exigir respeito e compreensão por quem é suspeito de fuga ao Fisco e corrupção.

Dizem os defensores da monarquia que a sua superioridade é preparar os chefes de Estado e as suas famílias para a representação do Estado. Uma superioridade que se baseia na ideia de que o privilégio garante mais sentido de dever do que a representação democrática. De que quem herda o poder o exerce melhor do que quem o conquista no voto. Tudo o que vemos no Reino Unido e em Espanha o desmente. Era a ignorância que garantia a gravitas da coroa. Como é ela que nos dá a ilusão do brilho incomparável dos grandes estadistas do passado ou da sobriedade incorruptível das ditaduras. Nenhum destes mitos sobreviveria ao escrutínio das democracias modernas. Nem os grandes estadistas que veneramos, nem os ditadores que branqueamos, nem os reis que protegemos. E só quem sobrevive a este escrutínio deve servir de exemplo. O que me leva a uma convicção contraintuitiva: nunca houve poder menos corrupto do que o atual, porque nunca houve poder tão escrutinado. Um escrutínio que torna todos os podres visíveis e nos oferece uma amarga sensação da decadência. Este paradoxo poderia levar a maior exigência dos cidadãos. Mas, porque haverá sempre corruptos, resulta em cansaço. E do cansaço nasce a indiferenciação. Os notáveis aldrabões que por estes dias ganham palco contam com isso. “Podia dar um tiro a alguém na 5ª Avenida e não perderia votos”, disse Trump, em 2016. Não estamos preparados para lidar com a verdade que exigimos. Ela pede demasiado de nós.

Os grandes estadistas que veneramos, os ditadores que branqueamos e os reis que protegemos não sobreviveriam ao escrutínio das democracias modernas

A monarquia não é mais corrupta do que a república. A diferença é que o monarca, mesmo depois de abdicar, não se livra do privilégio de berço que lhe ofereceu o lugar: a família, obrigada a carregar no cargo o fardo da ignomínia. Não vale a pena dizer que Juan Carlos é agora apenas um cidadão. Isso é falso, porque é por nunca o ser que ocupou o trono. E é por o poder ser transitório e nunca hereditário que a República se regenera.

A superioridade republicana é a sua humildade perante a fraqueza humana: as instituições não se confundem com pessoas ou famílias. Em janeiro, uma sondagem dizia que 43% dos cidadãos de Espanha apoiavam a monarquia e 42% eram contra. Quando chegar o seu tempo, uma regeneração republicana não será sinal de decadência, como teme o republicano PSOE, mas de progresso.

A História dá grandes saltos, e o papel da esquerda não é o de temeroso guardião do statu quo. Aceite-se o papel que Juan Carlos teve na transição democrática mas recuse-se a ideia de que a unidade de Espanha depende de uma família. Só a democracia e o diálogo a podem conseguir, através de uma federação plurinacional e multicultural. Para a construir, a coroa é um problema.


A Bélgica, a monarquia e a hipocrisia

(Carlos Esperança, 04/02/2020)

A Bélgica não é bem uma nação, é um Estado dividido entre Valónia e Flandres, mais a cidade-Estado de Bruxelas, antagonizados por idioma, religião e cultura. A monarquia é o anacronismo que finge aglutinar um espaço cosmopolita.

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Os reis são católicos por tradição e devassos por igual motivo, mas a religião é mostrada em público e a devassidão gozada em privado. Já foram donos de uma quinta em África, Congo Belga, uma coutada real.

O rei Balduíno terá mantido uma relação de alcova com duas rainhas, a própria, Fabíola, e a madrasta, mulher do pai, Leopoldo III. Não terá sido crime, mas não foi bonita ação. O que surpreendeu os belgas não foi a devassidão do monarca, mas a intensidade da fé que o fez renunciar ao trono entre os dias 4 e 5 de março de 1990, ao recusar assinar a lei de despenalização do aborto na Bélgica.

Cobiçar a mulher do próximo, mesmo ao pai, não foi original, mas promulgar a lei que legalizava a IVG, era uma ofensa à Igreja e um pecado que obstaria, três anos depois, ao conforto de todos os sacramentos, da liturgia e do bilhete para o Paraíso.

Sem filhos, apesar dos esforços alternados, nem sempre galinha, nem sempre Fabíola, o trono passou para o seu irmão mais novo, Alberto Félix Humberto Teodoro Cristiano Eugénio Maria, Rei dos Belgas de 1993 até à abdicação, em 2013, em favor do filho mais velho, Filipe. Os nomes dos reis parecem mais um cardápio do que a identificação.

Católico, como é hábito, parece ter sido fiel a outra tradição familiar, o gosto pela cama de mulheres casadas. Ainda príncipe frequentou, com assiduidade e durante largos anos, o tálamo conjugal de uma senhora que não era sua.

Enquanto reinou, a imunidade judicial permitiu-lhe o pleno gozo do adultério, o pecado é facilmente perdoado com o simples alvará de pároco, sem desfechos desagradáveis ou submissão a provas de paternidade a que um cidadão normal é obrigado.

O problema de Albert de Saxe Cobourg surgiu com a abdicação, em 2013, quando uma alegada filha continuou a reivindicar a paternidade e o pai tinha perdido a unção divina que o fez rei. A Bélgica é um Estado de direito democrático, sem medo de um ditador, como sucedeu em Espanha, onde se fez uma lei para impedir o escrutínio dos negócios do rei que o genocida Franco impôs ao País.

A lei belga obrigou o ex-rei a submeter-se à prova do ADN, que nos Estados de direito democrático precede o direito divino. Conhecidos os resultados, Sua Majestade, através de um comunicado do seu advogado, reconheceu a sua filha natural, Delphine Boël, sem prejuízo da paternidade legal de há mais de quarenta anos.

A Bélgica ganhou uma princesa, mas a monarquia perdeu o respeito, se ainda o tinha, e as consequências só a partir deste mês se farão sentir.

Não sendo exclusivo da realeza, a incidência em Espanha, Inglaterra e Bélgica mostra que o adultério é a tradição monárquica mais persistente do regime.


(Ver no link abaixo mais detalhes sobre o tema)

https://www.dn.pt/…/ex-rei-alberto-ii-da-belgica-reconhece-…


Príncipe Harry, duque de Sussex®: tão improdutivo como um aristocrata, tão banal como um burguês

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/01/2020)

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O poder do mercado é avassalador. Como canta Caetano Veloso, é “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”. E está a destruir a monarquia inglesa, que não é tão bela assim. O príncipe Harry desistiu do privilégio do título em nome do privilégio do dinheiro. Ou, como ele preferiu dizer, em nome da sua “independência financeira”. Ato corajoso? Pelo contrário. Aquilo de que o príncipe desistiu foi dos seus deveres. E, sentado na herança, incluindo a da família real, dispensou apenas 5% dos seus rendimentos – os que eram garantidos diretamente pelo Estado. Sem nenhuma das responsabilidades reais, guardou para si a fama e o estatuto que o privilégio lhe dá, pondo-os a render.

Os duques Harry e Meghan registaram a Sussex ® e SussexRoyal ® e vão viver da marca, sobretudo na América do Norte, onde o showbiz rende mais. O que produz essa marca? Nada. Produz o que o seu estatuto real lhe deu. Um estatuto a que é suposto corresponder responsabilidades. Chamar a isto “independência financeira” é arrojado. Parece-me mais uma forma de chular a monarquia sem sequer se dar ao trabalho de cortar umas fitas, fazer uns discursos anódinos e dar uns beijos por ela.

Há quem compare isto à vida que hoje tem o casal Obama, tentando descansar quem teme o abastardamento do nome real. Dizem que é possível manter a classe. A comparação é absurda. Barack Obama construiu uma carreira política, venceu eleições, governou a maior potência mundial e, sabendo que um Presidente dos EUA não pode ter uma carreira, vive da fama que conquistou com o seu trabalho. Harry limitou-se a nascer. Foi o que teve de fazer para merecer a fama.

Imagino que o gesto dos duques de Sussex ® arrepie qualquer defensor das vantagens da monarquia sobre a República. Que deite por terra a conversa sobre a intemporalidade dos símbolos pátrios (registados ou por registar), representada pelo monarca e nunca por um Presidente da República eleito e transitoriamente no poder.

Mas, como se vê, a monarquia transformou-se em pouco mais do que um ativo para o mundo do espetáculo. A ser usado por quem não tem de ter mais talentos do que qualquer participante num reality show. Basta ser famoso.

O português Fernando Mascarenhas, 12º marquês de Fronteira, mecenas culto e generoso, via o seu estatuto de aristocrata como um dever que herdava com o património, o título e o apelido. Explicou-o numa frase óbvia: “os privilégios trazem consigo responsabilidades.” Nunca aceitarei privilégios de sangue. É por isso que sou republicano. Mas nunca negarei a nobreza a quem a merece, com ou sem título. E se é no título e na herança de um nome que alguém encontra a razão para assumir as responsabilidades do seu privilégio, não deixarei de o respeitar.

No “sermão” que escreveu ao seu sucessor, Fernando Mascarenhas dizia que “qualquer cidadão tem a obrigação de tratar corretamente o seu semelhante, mas o aristocrata tem-na a triplicar, seja pela melhor educação que deve ter recebido, seja pelo crédito de que à partida normalmente beneficia, seja ainda pelo necessário e salutar exercício de dobrar o orgulho que facilmente tenderá a ter”. Nada disto faz sentido para mim. Mas fazia sentido na coerência daquele homem, até porque coerentemente praticou a nobreza de espírito e o que julgava ser o seu dever. E isso chegava e contrasta com o comportamento de Harry e Meghan.

Há qualquer coisa de tristemente poético neste gesto. A lógica mercantil volta a ganhar, esmagando o mundo anacrónico em que vivem reis, rainhas e príncipes, transformados em pouco mais do que estrelas do espetáculo mediático. Mas é a um novo capitalismo que se vergam. Tão improdutivos como um aristocrata, tão comuns como um burguês.