Revivalismo de verão ao fim da tarde

(Por Estátua de Sal, 05/08/2017)

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Não se passa nada. A política foi a banhos. O Passos anda de alpergatas lá para os lados da Manta Rota. O Costa meteu sabática e também ninguém sabe dele. Os fogos estão meio para o fraco apesar do calor. O diabo também está de férias e deve estar em qualquer praia, de óculos escuros, disfarçado de jovem yuppie.

Resolvi fazer uma viagem ao passado. Aqui ficam algumas músicas de há muitos anos. Outros verões, outros tempos, outros hábitos, outros sons, outro mundo.

Mundo melhor? Talvez. Avaliamos sempre o mundo em função do nosso estar e do nosso ser, da nossa idade, e dos nossos sonhos. Enquanto formos tendo sonhos o mundo é sempre melhor, porque ainda acreditamos na nossa capacidade de o transformar. As crenças são como tudo, vão esboroando ao ritmo das desilusões, e ficam numa pequena caixa da nossa memória que visitamos de vez em quando com ternura.

Era no tempo em que os vocalistas até cantavam de fato e gravata, tinham que saber cantar, e os guitarristas tinham que saber música. Enfim, tudo coisas démodés.

Era esse o tempo. Aqui ficam algumas recordações de verão em vídeo. Divirtam-se, sobretudo aqueles que, como eu, também as puderem recordar com a mágoa do tempo que passou por nós.



 

 

Comentário ao texto de Clara Ferreira Alves, “TÃO FELIZES QUE NÓS ÉRAMOS”

(Por Joseph Praetorius, in Facebook, 18/03/2017)

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 Joseph Praetorius

Tendo publicado aqui um texto de Clara Ferreira Alves, ele deu origem ao comentário que segue. Por considerar que algumas questões que o autor levanta, a propósito do referido texto, merecem ampla reflexão e debate, decidi divulgá-lo em jeito de complemento. É sempre difícil dizer se o copo está meio cheio ou meio vazio. (Estátua de Sal, 18/03/2017) 


Nada deixou completamente de ser assim, embora haja medidas de cosmética, passou a haver fruta sem cheiro e sem gosto e a carne transformou-se – como o frango e a galinha – em alimento barato (e nocivo), como o peixe de viveiro, aliás. Nem assim a fome desapareceu, confrontando directores escolares com os respectivos surtos e a necessidade de servir refeições grátis. A sopa do Sidónio reabriu, aliás.

O direito de pernada do patrão mantém-se (alargado ao director) e o carro próprio democratizou-se para se poder cobrar o imposto sobre combustíveis (para o que se tornaram os transportes urbanos em coisa impossível de assegurar seja o que for).

Não é precisa polícia política, o Ministério Publico trata disso com os processos de injúria e difamação e a submissão é assegurada pelo “novo tipo” da “resistência e coacção de funcionário” por milagre do qual um cidadão normal corre o risco de cinco anos de cárcere – com prisão preventiva, sendo disso caso – por discordar com veemência de um polícia de trânsito, ou por ter ido a uma manifestação.

O serviço nacional de saúde poupou vidas, sobretudo as das crianças, mas os serviços sociais e os tribunais policiam os costumes nas maternidades e podem sacar as crianças logo após o parto às mães adolescentes cujas famílias não tiveram o discernimento de as irem pôr num Hospital Público de Badajoz. Já não se é puta inelutavelmente por falta de estatuto profissional, agora também se é puta apesar do estatuto profissional, muito embora os asilos de infância desvalida – hoje chamados colégios ou residências – sejam inseparáveis dos rumores de esterilização forçada de raparigas que esses asilos destinam à prostituição. O serviço nacional de saúde, aliás, é mal olhado, acham-no dispendioso e cortam-lhe medicamentos. Um velho hospitalizado corre risco iminente de vida, como um doente crónico.

Hoje já não se vai para África de onde se rememoram coisas crudelíssimas, mas também a liberalidade da vida que a classe dos remediados nunca tinha experimentado (e não voltará a experimentar), nessa África havia também o fenómeno do opositor com mãos livres.Almeida Santos, por exemplo, fez fortuna ali. E ali havia também o juiz de parâmetros republicanos de conduta com quem o regime não queria indispor-se na Metrópole e ali o colocava.

Mas o que me intriga, o que me fascina, realmente, de entre as produções do salazarismo são os democratas que ele pariu e fazem profissão de lhe lembrar “os favores” indecorosos e o provincianismo de tudo que decorreria do “orgulhosamente sós”. A vida da Ialves está isenta de favores? são mais decorosos os favores de que beneficia? São menos provincianos? Na verdade, Lisboa nunca foi tão provinciana, nem o país alguma vez foi tão desinteressante. As livrarias fecham.O próprio teatro popular está praticamente extinto, e todas as multinacionais se dispensam de ter direcções em Lisboa, centralizando-as em Madrid. Até o comando ibero-atlântico da OTAN mudou de sítio.

Gosto desses democratas – de que a madam’Ialves é um ícone – que reduzem a realidade da História contemporânea à sua própria experiência. A madam’Ialves não faz a menor ideia do que foi viver em Lourenço Marques ou em Luanda, parece. Nem sequer do impacto que tiveram aqui as universidades de lá, por exemplo. E portanto a madam’Ialves não faz ideia da portugalidade a que se refere o Miguel Castelo Branco e que é aquela que ele foi encontrando, por exemplo no extremo oriente, onde comunidades completamente ignoradas pelas ialves deste mundo preservam e querem preservar a tradição portuguesa a que se reportam. às vezes em países onde o Português foi língua franca e onde a presença portuguesa está completamente isenta de qualquer realidade colonial.

Comentário ao texto de Clara Ferreira Alves, "TÃO FELIZES QUE NÓS ÉRAMOS"

 

(Por Joseph Praetorius, in Facebook, 18/03/2017)

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Joseph Praetorius

Tendo publicado aqui um texto de Clara Ferreira Alves, ele deu origem ao comentário que segue. Por considerar que algumas questões que o autor levanta, a propósito do referido texto, merecem ampla reflexão e debate, decidi divulgá-lo em jeito de complemento. É sempre difícil dizer se o copo está meio cheio ou meio vazio. (Estátua de Sal, 18/03/2017) 


Nada deixou completamente de ser assim, embora haja medidas de cosmética, passou a haver fruta sem cheiro e sem gosto e a carne transformou-se – como o frango e a galinha – em alimento barato (e nocivo), como o peixe de viveiro, aliás. Nem assim a fome desapareceu, confrontando directores escolares com os respectivos surtos e a necessidade de servir refeições grátis. A sopa do Sidónio reabriu, aliás.

O direito de pernada do patrão mantém-se (alargado ao director) e o carro próprio democratizou-se para se poder cobrar o imposto sobre combustíveis (para o que se tornaram os transportes urbanos em coisa impossível de assegurar seja o que for).

Não é precisa polícia política, o Ministério Publico trata disso com os processos de injúria e difamação e a submissão é assegurada pelo “novo tipo” da “resistência e coacção de funcionário” por milagre do qual um cidadão normal corre o risco de cinco anos de cárcere – com prisão preventiva, sendo disso caso – por discordar com veemência de um polícia de trânsito, ou por ter ido a uma manifestação.

O serviço nacional de saúde poupou vidas, sobretudo as das crianças, mas os serviços sociais e os tribunais policiam os costumes nas maternidades e podem sacar as crianças logo após o parto às mães adolescentes cujas famílias não tiveram o discernimento de as irem pôr num Hospital Público de Badajoz. Já não se é puta inelutavelmente por falta de estatuto profissional, agora também se é puta apesar do estatuto profissional, muito embora os asilos de infância desvalida – hoje chamados colégios ou residências – sejam inseparáveis dos rumores de esterilização forçada de raparigas que esses asilos destinam à prostituição. O serviço nacional de saúde, aliás, é mal olhado, acham-no dispendioso e cortam-lhe medicamentos. Um velho hospitalizado corre risco iminente de vida, como um doente crónico.

Hoje já não se vai para África de onde se rememoram coisas crudelíssimas, mas também a liberalidade da vida que a classe dos remediados nunca tinha experimentado (e não voltará a experimentar), nessa África havia também o fenómeno do opositor com mãos livres.Almeida Santos, por exemplo, fez fortuna ali. E ali havia também o juiz de parâmetros republicanos de conduta com quem o regime não queria indispor-se na Metrópole e ali o colocava.

Mas o que me intriga, o que me fascina, realmente, de entre as produções do salazarismo são os democratas que ele pariu e fazem profissão de lhe lembrar “os favores” indecorosos e o provincianismo de tudo que decorreria do “orgulhosamente sós”. A vida da Ialves está isenta de favores? são mais decorosos os favores de que beneficia? São menos provincianos? Na verdade, Lisboa nunca foi tão provinciana, nem o país alguma vez foi tão desinteressante. As livrarias fecham.O próprio teatro popular está praticamente extinto, e todas as multinacionais se dispensam de ter direcções em Lisboa, centralizando-as em Madrid. Até o comando ibero-atlântico da OTAN mudou de sítio.

Gosto desses democratas – de que a madam’Ialves é um ícone – que reduzem a realidade da História contemporânea à sua própria experiência. A madam’Ialves não faz a menor ideia do que foi viver em Lourenço Marques ou em Luanda, parece. Nem sequer do impacto que tiveram aqui as universidades de lá, por exemplo. E portanto a madam’Ialves não faz ideia da portugalidade a que se refere o Miguel Castelo Branco e que é aquela que ele foi encontrando, por exemplo no extremo oriente, onde comunidades completamente ignoradas pelas ialves deste mundo preservam e querem preservar a tradição portuguesa a que se reportam. às vezes em países onde o Português foi língua franca e onde a presença portuguesa está completamente isenta de qualquer realidade colonial.

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