Mariano Gago

(José Pacheco Pereira, in SÁBADO, 24/04/2015)

Pacheco Pereira

            Pacheco Pereira

Mariano Gago foi, muito à portuguesa, a vítima da nossa hipocrisia generalizada. O mesmo primeiro-ministro, cujo Governo tem vindo meticulosamente a extinguir, às vezes com sanha pública, a “obra” de Mariano Gago, veio elogiá-lo “apesar das divergências”. Quais eram as divergências? O que Mariano Gago fez como ministro com Guterres e Sócrates.

Então está a elogiá-lo por que razão? Pelo seu trabalho científico como físico, que ele deve em absoluto desconhecer? Pela sua actividade política, na extrema-esquerda, no Clube da Esquerda Liberal de que fez parte, no PS? Duvido. Para o primeiro-ministro e os seus próceres, isso é a política “antiquada”, o “velho paradigma” que ele e os seus jovens audazes querem acabar.

Mas é mesmo assim, dois em um: elogia-se Mariano Gago como ministro, ataca-se Mariano Gago como ministro. Da maneira que isto está, não há problema nenhum. Vale tudo.

Mariano Gago (2) 

Conheço Mariano Gago desde os nossos anos de brasa. Até antes disso. Partilhamos ex aequo o primeiro prémio de ensaio dado pelo Diário de Lisboa, sob a égide do Juvenil e a patrocínio do Fósforo Ferrero. Era então apenas o “José Mariano” e estava nas vésperas de se lançar, como eu, na resistência estudantil, primeiro na versão leve, a do movimento associativo e depois na versão pesada, a da extrema-esquerda. Foi um dos mais importantes membros dos CCRML, junto com João Bernardo e autor de muitos dos seus documentos. O meu grupo e o dele tiveram alguma episódica colaboração nalgumas escolas de Lisboa, mas eram territórios tão distintos como os Sete Reinos de A Guerra dos Tronos. Além disso, os CCRML (de onde vieram Acácio Barreiros e Jorge Coelho, por exemplo) não existiam no Porto, nem no Norte do País, pelo que felizmente nunca conhecemos aquela guerra sectária que caracterizava a extrema-esquerda, cá e em todo o mundo. Viemos mais tarde a encontrar-nos nessa peculiar experiência política que foi o Clube da Esquerda Liberal, onde esteve todo o mundo e ninguém. Lembro-me de que numa das raras votações feitas, exactamente sobre o nome que o Clube deveria ter, havia três propostas: Clube da Esquerda Liberal (nome que eu tinha inicialmente usado para designar a “coisa”, e que acabou por vencer, já sem ser minha proposta mas do Espada e do Villaverde e outros), Clube Liberal (proposta minha) e Clube do Delfim (proposta do Mariano Gago). Teve um voto, o dele.

 ferrero

No PS e no Governo, Mariano Gago teve o percurso conhecido e reconhecido. Apoiei-o na Quadratura do Círculo várias vezes na sua acção em prol da ciência e pelo fim da velha dualidade das “duas culturas”, que em Portugal para o público significava apenas uma, a das Humanidades. Uma ou outra vez critiquei-o e o Mariano Gago imediatamente me falava para discutir a crítica. Eu não me ficava e ele também não, mas algumas vezes chegava-se a um terreno comum. Há uma coisa que quem não viveu os tempos de 68 não compreende – é que se fica marcado por esses anos, que como ele lembrava, iam seis anos para trás e seis anos para a frente, de 62 a 68 e de 68 a 74, para o bem e para o mal.

Referendar o acordo ortográfico 

Acordo Ortográfico foi um enorme falhanço diplomático e político ao nível internacional. Não cumpriu nenhum dos objectivos a que se propunha, e, de Angola (que o abomina) ao Brasil (que não o aplica), ficou apenas em Portugal um resquício burocrático que muitos recusam, ninguém deseja e sobrevive apenas apoiado nos diktats do Estado. Estado esse que exorbita claramente nas suas funções visto que o Acordo Ortográfico ainda não é lei vigente e existe apenas imposto pela burocracia na qual se interlaçaram alguns interesses comerciais das editoras, que tendo sido também obrigadas a fazerem manuais com a nova ortografia, pretendem legitimamente ser ressarcidas dos seus prejuízos. A ideia de fazer um referendo sobre o Acordo Ortográfico é boa. O modo como se escreve português não é propriedade de alguns linguistas, aliás em contradição com outros especialistas que contestam com veemência as soluções adoptadas. E se fosse propriedade dos criadores da língua, escritores, romancistas, poetas, também já de há muito que seria rejeitado. Lembro aliás aqui o combate de Vasco Graça Moura que fez tudo para se lhe opor e, mesmo como responsável de uma instituição, o CCB, impediu a sua aplicação, acto de coragem que se fosse repetido por muitos outros ainda mostraria com mais evidência que o Acordo é recusado pela maioria dos portugueses. Vamos pois ao referendo, até porque a relação do Acordo com a nossa ideia da identidade de Portugal, por vida da ortografia da nossa língua, está entre as matérias que justificam o referendo. Votarei “não” com muito gosto e vontade de acabar com essa malfeitoria à comunidade dos portugueses e dos que falam português.

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E, apesar de tudo, Passos Coelho é primeiro-ministro

(Nuno Saraiva, in Diário de Notícias, 19/04/2015)

Nuno Saraiva

            Nuno Saraiva

A morte do homem público é, tradicionalmente, um momento em que convergem a banalidade e a hipocrisia. Faz parte da natureza humana. Na hora de comentar o desaparecimento de alguém, não falta quem se acotovele para elogiar, enaltecer, enfim, bem-dizer o defunto. No fundo, todos são extraordinários no momento em que desaparecem do mundo dos vivos. E tudo porque, quem não tem nada para dizer além do óbvio não resiste à tentação de abrir a boca.

Vem esta reflexão, pouco mais do que banal, a propósito de Mariano Gago. Confrontado com a notícia, e antes de proclamar as costumeiras trivialidades, Pedro Passos Coelho não encontrou melhor forma de iniciar o elogio fúnebre do que dizer “apesar de ter servido em governos do Partido Socialista…”, como se a relevância de alguém se medisse pela cor da camisola que veste.

Além de uma falta de sensibilidade chocante, o que a afirmação do primeiro-ministro revela são vários traços que não deixam de merecer reparo. Em primeiro lugar, Pedro Passos Coelho confessa um ódio político inexplicável e intolerável a tudo o que não seja laranja. Como se ter sido servidor público num governo que não o seu ou numa administração que não mereça o seu apoio, seja uma espécie de maldição ou anátema que diminui a dignidade de alguém. Isto é, Passos surpreende pelo sectarismo próprio de outras paragens políticas que não são habituais nas águas em que o primeiro-ministro navega.

Por outro lado, declara uma razoável falta de sentido de Estado. Depois de afirmada a reserva mental contida na expressão “apesar de…”, bem pode Passos Coelho dizer que não é tempo de recordar as diferenças, que o mal já está feito. Como se a grandeza e o legado de um homem com o currículo de Mariano Gago não esteja muito para além das baias partidárias.

Por fim, Pedro Passos Coelho não está mais do que a cometer um vitupério grosseiro. Arrancar um elogio com o prefixo “apesar de…”, não é mais do que elogio em boca própria. Na verdade, o que o primeiro-ministro está a dizer é que, apesar de Mariano Gago ser alguém por quem tinha o mais profundo desprezo político e uma total falta de consideração partidária, é tão magnânimo que, na hora da sua morte, é capaz de pôr tudo isso para trás das costas, e reconhecer que ele até deu “um contributo inestimável para o progresso da ciência em Portugal”.

Mariano Gago merecia, certamente, um pouco mais de respeito e um pouco menos de mesquinhez e pequenez políticas. Ser socialista, ao contrário do que transparece das palavras infelizes do primeiro-ministro, não é nenhum crime. Do mesmo modo que não apouca ninguém ser comunista, social-democrata ou democrata cristão. E quem não é capaz de perceber isto seria melhor que ficasse calado. A menos que estejamos perante um exemplo de má consciência. Isto é, se há coisa em que o atual governo tem sido prolixo é na forma militante como desmantelou o legado de Mariano Gago, desprezando de forma impiedosa e desgraçada, e a pretexto da crise, todo o aparelho de investigação científica em Portugal.

Como dizia um amigo meu, Pedro Passos Coelho inaugurou um novo voto, o voto de apesar. Será desse modo que, quando abandonar o governo, o atual chefe do executivo será lembrado. Apesar de tudo, apesar de todas as promessas falhadas, apesar de todos os orçamentos inconstitucionais, apesar do enorme esbulho fiscal, apesar da austeridade perpétua a que nos condenou esta semana, e apesar de tantas outras malfeitorias, apesar de tudo, Passos Coelho foi primeiro-ministro. E, quanto mais não seja, por isso merece respeito.