Lusofonias: a sério e a brincar

(João Carlos Graça, in SCF, 17/05/2024)

Portugal talvez devesse aprender a tratar melhor dos seus interesses permanentes, considerando a importância de relações verdadeiramente equitativas – e fraternas – com os demais países lusófonos.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

O Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Rangel, mostrou “estranheza” e “apreensão” quando foi informado acerca dum novo acordo estabelecido (através de encontro entre os respetivos presidentes) entre São Tomé e Príncipe e a Federação Russa. Mais ou menos simultaneamente, vários papagaios do ambiente televisivo português expressaram-se de forma semelhante quanto à possibilidade de acordo análogo entre a Rússia e a Guiné-Bissau.

Devo começar por sublinhar que, considerando estas atitudes e comportamentos de agentes políticos portugueses sub specie aeternitatis, parece óbvio que merecedoras duma reação de estranheza e apreensão são, isso sim, as ditas atitudes, os ditos comportamentos… e, é claro, os ditos agentes. Ao fim e ao cabo, e para o caso de Paulo Rangel e quejandos ainda não se terem apercebido: São Tomé e Príncipe, a Guiné-Bissau e os outros PALOPs (países africanos de língua oficial portuguesa) são, há já cerca de meio século, países independentes, cuja soberania Portugal não apenas respeita, mas faz questão de respeitar de forma escrupulosa, de tal modo o quadro constitucional português ficou intimamente ligado ao processo de descolonização que foi concomitante com a democratização da República Portuguesa.

Quase em simultâneo, o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, tornou-se também recentemente notório e mesmo escandaloso na vida política nacional, por argumentar publicamente que Portugal devia aos PALOPs um pedido formal de desculpas e reparações pelos males causados pelo domínio colonial. Esta aparente esquizofrenia política portuguesa merece uma consideração mais atenta e alguns breves comentários.

É claro que Marcelo, ele mesmo filho dum antigo Ministro do Ultramar do Estado Novo português (1933-74), expressa aqui um intuito relativamente claro de, com esta súbita guinada retórica, “ultrapassar pela esquerda” toda a gente em Portugal, acenando ao mesmo tempo ao discurso woke que entre nós tem recentemente sido importado, sobretudo por influência cultural norte-americana. Todavia, para além da “espuma dos dias” que é o terreno por excelência da atuação de Marcelo, o quintessencial Alcibíades português, creio haver aqui um assunto sério, genuinamente merecedor de meditação. A extrema-direita étnica portuguesa do Chega, aliás, farejou imediatamente a importância do tema, tendo em resposta lançado contra Marcelo uma bombástica acusação formal de alta traição, a ser discutida na Assembleia da República.

Procurando manter-me tanto quanto possível acima desta confusão, devo ainda assim dizer que me parece genericamente acertada a ideia dum pedido formal de desculpas, e completamente errada a duma reparação. Convém talvez recordar aos nossos tempos cínicos a famosa tirada de Oscar Wilde acerca da condição daqueles que “conhecem o preço de tudo, mas não conhecem o valor de nada.” As avaliações históricas estão, e creio haver razões para pensar que permanecerão, sempre connosco. Todavia, em vez de pretendermos extrair delas um quantum cujo pagamento resolveria os problemas, talvez seja melhor habituarmo-nos ao que há também de irredutivelmente qualitativo nelas. Deixemos de lado, pois, as pretensas reparações; e fixemo-nos na ideia dum pedido de desculpas.

A questão central, mesmo quanto a esta última, está na patente descontinuidade das entidades a que nos referimos. O Portugal de hoje já não é obviamente o Portugal escravizador dos séculos 15 a 18, ou o Portugal colonizador dos séculos 19 e 20 – mas há apesar de tudo, quanto a isso, indubitavelmente também elementos de continuidade simbólica, que permitem pensar numa possível atribuição de responsabilidades. O problema maior está, porém, nas entidades africanas a que nos reportamos. As comunidades políticas anteriores à descolonização portuguesa foram destruídas por esta; e, de resto, os próprios movimentos descolonizadores, que foram também os produtores das novas nações e dos novos países, só puderam constituir-se plenamente quando, para além da diversidade étnica dos territórios submetidos à dominação colonial portuguesa, começaram a proceder em nome da novel unidade nacional. Noutros termos: quando deixaram de ser Ovambos, Lundas ou Kimbundus a opor-se ao colonialismo português – e, em vez disso, passaram a ser angolanos a fazê-lo.

De resto, os próprios movimentos de libertação proclamaram-no abertamente: foi a comum oposição ao colonizador português que verdadeiramente produziu as novas nações. Podem fazer-se várias inferências desta assunção. A primeira é obviamente a de que, se o colonialismo em tempos retalhou África sem respeitar a diversidade étnica do continente, essa mesma diversidade pode hoje-em-dia ser invocada com intuitos neocoloniais para, em nome dela, voltar a desenhar fronteiras. Mais do que um movimento secessionista tem, de facto, sido promovido com base nos referidos propósitos neocoloniais. Daí, o facto de a toada predominante das descolonizações africanas ter sido, até agora, basicamente centrípeta, isto é, formadora de novas nações por cimentação, em vez de centrífuga, promotora de secessões.

Este facto é muitíssimo relevante para os interesses portugueses: talvez não os atinentes a preços, mas decerto os correspondentes a valores. Ao triunfo dos movimentos de libertação africanos deve, de facto, ser atribuído o mérito principal pelo facto de a língua portuguesa se ter consolidado como idioma oficial de extensíssimas zonas, correspondentes já hoje (e previsivelmente muito mais ainda no futuro) a uma imensa mole humana. Antes da descolonização, a pobreza, o analfabetismo quase universal e o próprio culto (pós-moderno avant la lettre) dos “tribalismos” por parte das autoridades portuguesas, das quais a componente de “dividir para reinar” nunca deixou de ser um condimento fundamental, fora um inibidor fortíssimo à penetração do idioma luso. Por oposição, foi a descolonização que acabou por salvar o português das águas do olvido.

Mas há mais ainda quanto a implicações políticas daquela porque, atentamente considerada, a própria democratização portuguesa de 1974, mais do que explicável por causas estritamente endógenas, ou por uma alegada (mas meramente mítica) influência benfazeja dos nossos “parceiros ocidentais” atuais e já de então, deve ser referida às implicações sociológicas que em Portugal teve a guerra colonial.

Não é errado dizer que o incontido desejo de paz que prevalecia na sociedade portuguesa em 1974, fruto do cansaço de guerras africanas que duravam já desde 1961, foi a principal razão do decisivo solapar das bases sociais de apoio do Estado Novo – e, nesse sentido, a causa principal da democratização.

Para além de tudo isso, deve sublinhar-se que os próprios dirigentes anticoloniais africanos (Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane) estavam eles mesmos plenamente conscientes destas ramificações do significado das respetivas lutas. Não é necessária nenhuma ‘astúcia da razão’ a posteriori para saber ler as coisas desta forma. Os nossos amigos e irmãos africanos, que foram os verdadeiros libertadores dos nossos libertadores (a tropa portuguesa que se revoltou no Abril mágico de 1974), estavam já conscientes disso mesmo. Para além da dádiva de inestimável valor que é o resgate daquilo que Fernando Pessoa considerou famosamente a sua/nossa verdadeira Pátria (não o pequeno e ridículo Portugal, mas a língua portuguesa), devemos agradecer-lhes também a nossa libertação. Não apenas a nossa libertação política formal, mas a mais funda libertação do peso dos nossos piores fantasmas coletivos – que obviamente está ainda por concluir. E que não poderá ser concluída, enquanto os portugueses não compreenderem o que Portugal e a Portugalidade (especialmente a Lusofonia) verdadeiramente representam já, ou podem representar: o que valem já, para além de qualquer preço, pondo-os assim ao abrigo da instrumentalização manipuladora por parte do Ocidente Coletivo através dos seus vários tentáculos – NATO, UE, etc.

Em vez de discussões mirabolantes sobre imaginárias reparações materiais aos africanos, talvez fosse bem melhor e bem mais sábio começar por sublinhar estes outros reconhecimentos e proceder com base neles.

Talvez os nossos “amigos” ocidentais não o sejam finalmente tanto assim, e talvez a nossa verdadeira “família”, a que os laços idiomáticos mais fundamente nos unem por destino coletivo, sejam o Brasil e os PALOPs.

Portugal e os portugueses têm profundas razões para apreciarem a agradecerem o acolhimento que estes países têm dado, e continuam a dar, ao legado lusitano, acima de tudo o legado cultural-idiomático. Em vez de ser um avô simultaneamente rezinga e arrogante, mas de facto completamente gagá, com os seus cada vez mais grotescos delírios “europeus” e “ocidentais”, talvez Portugal devesse aprender a tratar melhor dos seus interesses permanentes, considerando a importância de relações verdadeiramente equitativas – e fraternas – com os demais países lusófonos, que são a única garantia de perpetuação a nível global da nossa memória no mundo do futuro.

Fonte aqui.

O jornalismo português é burro?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 15/08/2018)

tadeu1

Não sei se o caro leitor ou leitora se apercebeu mas, em São Tomé e Princípe, antiga colónia portuguesa, há dois ex-ministros suspeitos de tentarem um golpe de Estado e pessoas presas há poucos dias por, alegadamente, estarem a preparar um atentado.

Não sei se o caro leitor ou leitora tem conhecimento que o líder da coligação partidária que detém o Governo em Timor-Leste, Xanana Gusmão, escreveu uma carta ao Presidente da República, Francisco Guterres Lu-Olo, onde se diz preocupado com “a saúde mental e política” do Chefe de Estado, que lhe faz oposição política naquela antiga colónia portuguesa.

Não sei se o leitor ou leitora leu a notícia destas declarações do Presidente da República de Moçambique, Filipe Nyusi: “Algumas pessoas que foram capturadas e interrogadas dizem que estão a matar outras pessoas devido ao desemprego e à pobreza”. O espanto e a indignação do líder político da antiga colónia portuguesa decorre dos assassinatos de dezenas de pessoas e da onda de violência que desde outubro do ano passado assustam as populações de alguns distritos do norte de Moçambique.

Talvez o leitor ou a leitora tenha conhecimento que Macau, território chinês que foi administrado por Portugal, vai ter daqui a dois anos, segundo uma previsão do Fundo Monetário Internacional, o maior PIB “per capita” do mundo.

Eventualmente o leitor ou a leitora sabe da verdadeira guerra do petróleo e do gásque está a eclodir entre a Guiné-Bissau e o Senegal: os guineenses, há 20 anos, aceitaram um acordo com os senegaleses de divisão dos lucros da exploração dessas matérias-primas, que existem em grandes quantidades nas águas marítimas junto aos dois países. A Guiné-Bissau passou a receber 15% dos lucros, o Senegal 85%. Os guineenses, em 2014, denunciaram o acordo por acharem a repartição injusta e, agora, há um grupo de notáveis que defende que a localização e a origem desses recursos torna viável a reivindicação de que o petróleo e o gás devem pertencer em 100% à antiga colónia portuguesa. As autoridades do Senegal não estão a achar graça…

Em Cabo Verde os efeitos da seca em 2017 e o mau ano agrícola colocam em risco de insegurança alimentar – isto é, à beira da fome – 30 mil pessoas. A previsão é da FAO – a organização das Nações Unidas para a alimentação e agricultura – que chegou a temer que 150 mil pessoas não tivessem acesso suficiente a alimentos. As coisas não serão assim tão más mas, mesmo assim, um em cada 18 habitantes daquela antiga colónia portuguesa não irá comer o suficiente. O leitor ou leitora sabia disto?

Mas há pior. Relata a revista Istoé, do Brasil, que seis em cada 10 crianças brasileiras estão na pobreza: nas zonas rurais têm para viver 60 euros por mês e nas zonas urbanas 78 euros. São dados da Unicef e duvido que o leitor ou a leitora, que se calhar sabe muito sobre a prisão de Lula da Silva ou, até, sobre as tropelias do candidato fascistóide à presidência da antiga colónia portuguesa, Jair Bolsonaro, tenha consciência desta notícia.

E, já agora, sabia que em Angola se discute entre a UNITA e o governo a exumação dos restos mortais de Jonas Savimbi, o homem que liderou aquele partido na guerra civil, durante 27 anos? Uma guerra, recordo, iniciada logo a seguir à descolonização portuguesa, em 1975, e que terminou quando Savimbi foi abatido, em 2002. Estima-se que morreram 500 mil civis.

Sim, tirando alguma informação sobre Angola e o Brasil (normalmente noticiário ideologicamente motivado, setorialmente influenciado ou lusocêntrico, o que não tem mal nenhum, mas é limitativo para nos dar um retrato sério e completo desses países) sabemos muito pouco sobre o dia-a-dia social e político dos povos que gostamos de apelidar de “irmãos”.

Eu próprio, se a empresa onde trabalho não me tivesse destacado há um par de meses para ajudar a construir um site de informação onde estes assuntos são tratados, saberia tão pouco sobre estes temas como a maioria dos leitores e das leitoras que tiveram a paciência de chegar aqui na leitura desta coluna.

Qualquer das oito notícias com que iniciei este texto poderia figurar na capa de um jornal ou fazer manchete no topo de um site de informação português: são relevantes, interessantes, dramáticas e curiosas. Não vi nada disso.

Estas notícias têm mais proximidade aos interesses económicos, históricos e sociológicos dos portugueses do que qualquer tweet inconsequente de Donald Trump.

Estas notícias dizem mais ao coração de centenas de milhares (milhões?) de imigrantes desses países que residem em Portugal, potenciais leitores de órgãos de comunicação social portugueses, do que qualquer manifestação contra imigrantes num país do centro da Europa.

Estas notícias cumprem todas a regras editoriais que o jornalismo determina, porém, inexplicavelmente, nós, jornalistas, ignoramos ou reduzimos a sua importância à expressão mínima. Preferimos debater, com paixão anacrónica, o nome de um museu sobre a formação do império colonial português.

Durante anos colaborei, alegremente, neste virar de costas do jornalismo português ao mundo da lusofonia. Agora sou obrigado a ver como fui tão burro e como é, desculpem, tão burro o jornalismo português.