A caricatura

(Rui Pereira, in Facebook, 07/12/2024)


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A canonização de Mário Soares por ocasião dos cem anos sobre o seu nascimento tem pouco de surpreendente para quem conhecer de Serge Moscovici a definição de sociedade como “machine à faire des dieux”. Sacros ou profanos, os deuses que criamos destinam-se acima de tudo a abençoar os seus crentes e criadores e, já agora, se necessário, a amaldiçoar os seus incréus. Soares, como qualquer outra figura humana, assim o fez, honra lhe seja, não enquanto presumível deus, mas enquanto controvertido homem.

Transformar Mário Soares no homem a quem devemos a liberdade e a democracia, naquele que raramente teve dúvidas e nunca se enganou, como se deduz do encómio segundo o qual ele esteve sempre “do lado certo”, é um erro de destinatário, por um lado, e um golpe de facção, por outro lado.

Devemos abril aos seus militares. Devemos a revolução aos seus revolucionários. Devemos a contrarrevolução aos seus contrarrevolucionários, um dos quais foi, sem dúvida, Mário Soares. O mesmo Mário Soares que, com a coragem moral e física que devemos reconhecer-lhe, se reunia diariamente com Frank Carlucci no sótão da embaixada norte-americana em Portugal, enquanto gritava, mentindo publicamente, contra a sujeição dos comunistas a Moscovo (imagine-se que era Álvaro Cunhal quem se reunia diariamente com o embaixador soviético em Portugal!!!).

O mesmo Mário Soares que, com a coragem que se lhe deve reconhecer, encheu a Presidência da República de spinolistas que no PREC tinham organizado a conspiração consumada em novembro de 1975, num arco extenso que se estendia do ELP/MDLP, ex-agentes e responsáveis da PIDE/DGS até ao Partido Socialista, passando por embaixadas e serviços secretos como os alemães, a CIA ou o MI6 -de onde veio a bomba que matou o padre Max e a estudante Maria de Lurdes, por exemplo. Rui Mateus conta bem isso. E Edmundo Pedro, preso quando ia devolver as armas que lhe tinham sido entregues para o 25 de novembro, pode corroborar e bem o fez, como foi abandonado por Eanes e por… Mário Soares.

Uma coisa é jantar descontraidamente, ou viajar sibariticamente com Soares através do mundo, receber das suas mãos prémios (como foi o meu caso, enquanto jornalista, aliás) e prebendas, outra é partir daí para acreditar no slogan “Soares é fixe”. Soares era fixe para com quem era fixe para com ele. Quem não o fosse ou deixasse de o ser, percebia como o slogan era isso mesmo, uma invenção de propaganda.

Respeito a figura de Mário Soares, na medida em que se pode respeitar um adversário de valor. Não para lhe maquilhar de inteligência a esperteza, não para nele confundir a atração que o seu poder exercia sobre a intelectualidade aprazível com algum dote de cultura excecional. Soares era um político hábil, muitas vezes no pior sentido deste adjetivo aplicado àquele substantivo, mas não era um intelectual. Foi uma figura histórica, mas não um vulto da cultura. Teve um programa ideológico-político para o país e um projeto pessoal para si mesmo. Cumpriu-os a ambos. E como a história é feita pelos vencedores, são esses que fazem de Soares, como sempre fizeram desde que ele se tornou um potentado neste país, mais do que ele foi. O que é por bajulatória uma forma de o tornarem menos do que ele foi.

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Tempo dos balanços

(António Guerreiro, in Público, 15/12/2023)

António Guerreiro

Os balanços são uma máquina cruel de produzir passado. São a “magia negra” do jornalismo a desafiar a historiografia.


Final do ano, tempo de “balanços”. Na cultura, na política, na economia – todas as áreas são submetidas a uma recapitulação, como se o calendário anual, o início e o fim do ano civil, correspondesse a um ciclo da história, a um antes e um depois capazes de sinalizar uma época autónoma rigorosamente delimitada. De onde vem e como se impôs esta mania de fazer esboços cartográficos espontâneos, determinados pelos caprichos da memória e pela lógica do jornalismo, dos últimos 365 dias do ano?

Evidentemente, trata-se de um “género” jornalístico que não pode ser confundido com a historiografia. Mas falharíamos o seu significado se não percebêssemos que este fenómeno de superfície é uma manifestação sintomática de uma formação de sentido muito mais profunda: os balanços anuais são uma versão popular da tendência do nosso tempo para escandir o tempo histórico contemporâneo em épocas.

Já se disse até que nós somos a “época das epoquizações”. Muitas das “novas” épocas anunciadas acabaram por não trazer nada de novo. O 11 de Setembro, olhado à distância de pouco mais de 20 anos, marcou porventura uma nova época, uma cesura na história universal, como se afirmou na altura com toda a convicção? Esta mania de procurar marcos e novidades que inauguram novas épocas históricas (essa mania que também determina os balanços anuais, que são uma espécie de laicização do Juízo Final) entrou desde há muito tempo em modo de escalada aceleracionista.

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O historiador François Hartog ensinou-nos com rigor analítico e um excepcional alcance teórico que passámos de uma aceleração da história enquanto modalidade do regime moderno a uma espécie de aceleração da aceleração, isto é, uma aceleração que tem um fim em si mesma. E assim ele chega à ideia do “presentismo” – um regime de historicidade que só conhece o presente como experiência do tempo. As categorias do passado e do futuro deixam de existir.

A obsessão pelos balanços anuais (a que se juntam outros modos de escandir o tempo: as décadas, as rentrées, etc.) é uma manifestação deste regime de historicidade. A aceleração que nos faz viver exclusivamente no presente produz este efeito: as coisas mal nascem já são passado. De tal modo que nenhuma época produziu em tão pouco tempo tanto passado como a nossa. É isso que os balanços fazem, na sua maneira de trazerem à superfície um fenómeno muito mais profundo: eles são uma máquina cruel de produzir passado. São a “magia negra” do jornalismo a desafiar a historiografia.

Do futuro, resta apenas uma metáfora: o relógio fictício do apocalipse, o Doomsday Clock, que os físicos do Projecto Manhattan puseram em 1947 a contar o tempo que nos resta. Também esse relógio acelerou. No seu início, os ponteiros marcavam 23h53m. Depois, a ameaça nuclear no tempo da guerra fria fez os ponteiros avançar. Porém, depois da queda do Muro de Berlim, quando alguns “futurólogos” anunciavam o “fim da história” e o triunfo universal da democracia liberal, o relógio recuou para as 23h43. A promessa do fim dos tempos parecia estar agora mais distante e remetida para a pura condição da escatologia judaico-cristã. Actualmente, os ponteiros do relógio metafórico estão fixados em 90 segundos da meia-noite. Esse é o tempo que nos resta antes do fim do mundo, avisa o relógio que os “colapsólogos” consultam diariamente.

Deste modo, o pouco tempo que nos resta é um tempo que falta. E o tempo que falta é necessariamente um tempo dos balanços. Já não há tempo para mais nada. Resta talvez esta última esperança, que um profeta do apocalipse nuclear, Günter Anders, formulou desta maneira: “A nossa paixão apocalíptica não tem outro objectivo senão o de impedir o apocalipse”.


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A “ominosa” Praça do Império

(Amadeu Homem, in Facebook, 26/02/2023)

Vão por aí raios, coriscos e trovões a propósito da Praça do Império e dos seus brasões “colonialistas”. O pensamento vanguardista exige que a praça mude de nome e que se retirem os brasões, sejam eles feitos de buxo ou reproduzidos por pedrinhas da calçada à portuguesa.

Pelo que me respeita, o que eu tenho a dizer é que sempre tentei respeitar o pensamento dos meus semelhantes, por muito que ele possa diferir do meu. Por isso, compreendo muito bem que os anticolonialistas queiram modificar a praça e suprimir os brasões.

Dito isto, o que eu mais gostava era que este pensamento pudesse ser levado ao seu grau máximo de coerência. Analisados os pressupostos desta lógica, chegaremos à conclusão que o presente e todas as suas realidades se deva substituir ao passado e a todas as suas infâmias.

Não se vê motivo para travar o pensamento iluminado, a meio do seu caminho intelectivo. O mosteiro dos Jerónimos, bem vistas as coisas, também está a mais e é um ultraje. Recorda os tempos ominosos em que Portugal foi clerical e monárquico. Ora, isto não pode ser! O presente, todo ele validamente laico, exige que esta lepra da ilusão religiosa e do poder concentrado sejam raspados com a telha do bom senso.

Portugal falhou deploravelmente o seu Destino e a sua História. Olhe-se bem para esse Portugal português do nosso tempo. Que vergonha! Um país do século XXI coalhado de ermidas, igrejas, conventos, mosteiros! Pode lá ser! Apliquemos a todo o Portugal o sabão da fúria com que se pretende retirar da Praça, vergonhosamente chamada do Império, os brasões “colonialistas”! Abaixo as igrejas! Destruam-se os mosteiros e as ermidas! Pode lá tolerar-se que num Portugal lavadinho e modernaço sobrevivam estes lixos de épocas obscurantistas. Pode lá conceber-se que exista em Portugal uma Torre dos Clérigos, um mosteiro do Lorvão e da Batalha, uma Torre de Belém, evocando os inícios desse deplorável colonialismo. Os Poderes Públicos deverão agir prontamente, decretando para muito breve a lei do camartelo para aquilo tudo.

Mas há mais: a própria Cultura Portuguesa necessita imperativamente de correções “joacínicas”, de surtidas antirracistas, carecendo e suplicando um banho lustral de desalienação. Pode lá admitir-se que se possam ensinar nas escolas poesias e prosas tão reacionárias como “Os Lusíadas”, de um tal obscuro Camões, como a “Peregrinação, desse mentiroso compulsivo, que dava pelo nome de Fernão Mendes Pinto, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, como a “Mensagem” desse badameco imbecil chamado Fernando Pessoa! Pode lá tolerar-se que se diga, em fraseologia sem suporte dialético e sem largueza de apreciação, que um jesuíta palavroso como o Padre António Vieira seja apresentado como o “imperador da língua portuguesa”! Cá está a palavrinha “imperador” a denunciar tudo o que é retrógrado, regressivo, aprisionado ao ontem!

O que Portugal está carecido, como pão para a boca, é de uma “revolução cultural” idêntica à que foi feita por um génio chinês da política, chamado Mao Zedong, infelizmente já falecido. Esse prodígio mental lançou uma campanha, no seu tempo, contra os pardais que comiam muito grão nas searas. Toda a China andou atrás dos famigerados pardais. Nos anos seguintes as colheitas caíram a pique na sua produtividade, porque o portento intelectual não se lembrou que os pardais também comiam as lagartas. Morreram milhões de pessoas, mas salvou-se um dos nomes axiais do comunismo. Ou seja: nem tudo se perdeu!

Também entre nós, iremos salvar o Bairro da Pampulha, mas não a Praça do Império; o Borda d’Água, mas nunca os “Lusíadas”; o estádio do Benfica, mas jamais a Torre dos Clérigos; os discursos das Manas Mortágua, mas com exclusão autoritária do aranzel de Pero Vaz de Caminha…e assim por diante.

Quando nos falarem de Afonso Henriques, haveremos de dizer, sensatamente: “esse bruto até na mãe batia” ; se ouvirmos o nome de D. Dinis, iremos obtemperar: “era tão atrasado que nunca soube organizar eleições”; no caso de falarem na “Ínclita Geração dos Altos Infantes”, obtemperaremos: “nunca ganharam o torneio de futebol dos Campeões Europeus”; e se nos vierem com a crueldade de D, João II, responderemos: “teria de estagiar com Estaline ou Putin, para ser coisa que se visse”.

A Praça do Império, onde hoje se deslocam estrangeiros, por ser um local próximo da fábrica dos Pastéis de Belém, necessita ser suprimida com a máxima urgência. A bem da nossa Cidadania e a bem do Progresso. Ponham lá um monumento ao futuro. Sugiro que tenha a forma de um manguito. E depois coloquem lá o Beijocas a vender “selfies”.

Com esta gente, acho que não iremos merecer mais!


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